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Gavião-miúdo
Accipiter striatus (Vieillot, 1808)

Ordem: Accipitriformes
Família: Accipitridae
Grupo:
Açores

Nome em inglês: Sharp-shinned Hawk
Habitat:
Florestas e borda de matas
Alimentação:
Pequenos vertebrados


Distribuição no Brasil:



Status: (LC) Baixo risco


 Indivíduo adulto. São José dos Campos/SP. Janeiro de 2013.
Foto:
Calebe Dalprat

Vocalização de alarme - (gravado por: Gustavo Cabanne)

É um especializado e astuto caçador, verdadeiro "terror dos passarinhos", caça principalmente pequenas aves, como pombinhas, suiriris, canários e pardais. Apesar da ampla distribuição geográfica, é bastante discreto, não sendo fácil o encontro com essa espécie. Conhecido também como tauató-miúdo.

• Descrição: Mede 27-30 cm de comprimento, peso de 85-125 g (macho) e 145-215 g (fêmea) (Ferguson-Lees & Christie, 2001). Assim como na maioria dos Accipiter's, as fêmeas são muito maiores e mais pesadas que os machos. Adulto apresenta a face e calções ferrugíneos uniformes, costa cinza-ardósia com cauda escura apresentando de 3 a 4 faixas mais claras. Indivíduo jovem apresenta o dorso marrom, penas com leve orlado ferrugíneo, partes inferiores branco-sujo com barrado e estriado marrom de densidade variável (Sick, 1997; Ferguson-Lees e Christie, 2001; Gwynne et al. 2010). Possuí os dedos longos e terminam em garras muito longas e incrivelmente afiadas, usadas para a captura em voo. São capazes de perfurar com facilidade as presas, lesando seus órgãos internos. O bico é forte e curvo, também típico das aves de rapina, para que possam arrancar pedaços das presas capturadas para se alimentar (Sick, 1997; Ferguson-Lees & Christie, 2001).

• Taxonomia: O A. s. erythonemius (subspécie que ocorre no Brasil), bem como as outras subespécies neotropicais, são consideradas por alguns autores como táxons independentes (Thiollay 1994, Gwynne et al. 2010). Apesar disso, a maioria das autoridades recentes concordam que ainda não existem estudos detalhados que justifiquem tal classificação, sendo mantido os táxons como subspécie do A. striatus (CBRO 2014, AOU, 2014).

• Alimentação: Alimenta-se principalmente de pequenas aves, verdadeiro "terror" dos passarinhos de bosques urbanos. Há registros de A. striatus capturando pomba-avoante (Zenaida auriculata), rolinha-roxa (Columbina talpacoti), pardal (Passer domesticus), bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), tiziu (Volatina jacarina), andorinhas e outras aves menores (Seipke & Cabanne, 2008; Menq 2014). Caça a partir de um poleiro, é bastante ágil, pode facilmente perseguir sua presa voando entre as árvores de um bosque (Sick, 1997; Ferguson-Lees & Christie, 2001; Menq, 2014).

Menq (2014) já observou, no interior do Paraná, um jovem A. striatus investindo contra um grupo de pica-pau-branco (Melanerpes candidus), espécie que pode pesar até 136 g. A partir de um poleiro oculto na vegetação, o A. striatus mergulhava rápido em direção aos pica-paus, iniciando rápidas perseguições que eram encerradas sem nenhuma captura. O M. candidus é uma ave grande e valente, não muito adequada para um A. striatus, mas por se tratar de um jovem gavião, talvez ainda não tenha aprendido a identificar quais presas possuem melhor relação entre custo benefício.



Indivíduo adulto predando bem-te-vi. São Bernardo do Campo/SP, Abril de 2010. Foto: Mathias Singer

Indivíduo predando rolinha-roxa (C. tapalcoti). Maringá/PR, Jul 2012. Foto: Itamar Cossina G. Hadnish

Ninho na copa de uma Araucária a 16 m de altura. Piraí do Sul/PR, Out 2009. Foto: Tony Bichinski Teixeira


• Reprodução:
Coloca de dois a cinco ovos, com período de incubação de 30 a 35 dias. Constrói ninho em plataforma de gravetos no alto de árvores, inclusive podendo nidificar em reflorestamentos de Araucárias e coníferas não nativas, como os pinheiros (Seipke & Cabanne 2008; Menq 2014). Somenta a fêmea fica no ninho incubando os ovos e alimentando os filhotes, enquanto o macho é responsável por caçar e levar alimento ao ninho durante o período de incubação e de ninhegos. Os filhotes normalmente ficam na área do ninho por pelo menos 5 a 6 semanas (Seipke & Cabanne 2008; Menq 2014).

Em uma área de reflorestamento de Pinus de Campinas/SP, Pedro A. M. Vasquez (obs. pess.) observou as atividades de um ninho com três filhotes. Durante o período em que os filhotes ficavam no ninho, o macho saia para caçar no inicio da manhã trazendo pequenas aves, como rolinhas e sabiás, entregando o alimento para a fêmea que posteriormente levava aos filhotes.

• Distribuição Geográfica e subespécies: Ocorre da América do Norte até Argentina, extremo norte ba bacia amazônica e no Brasil central e meridio-oriental, região nordeste (Ceará, Bahia, Alagoas) indo até o Rio Grande do Sul (Sick, 1997; Ferguson-Lees e Christie, 2001).

Ao todo são conhecidas oito subespécies, A. s. fringilloides: ocorre em Cuba; A. s. madrensis: sul do México (Guerrero e oeste de Oaxaca); A. s. perobscurus: Canadá; A. s. striatus: Ilha de São Domingos; A. s. suttoni: sudoeste dos Estados Unidos (Novo México) para o sul até o México (Michoacán, Veracruz); A. s. velox: Grande parte da América do Norte, desde o sul do Alasca, Canadá, ao sul do centro de Califórnia, Texas, e os estados do Golfo; Panamá e Bahamas; A. s. venator: Porto Rico. A. s. erythromenius: sul e sudeste do Brasil (sul de Mato Grosso e Bahia), sudeste da Bolívia (Santa Cruz de Tarija), Chaco do Paraguai até o norte da Argentina (La Rioja e Córdoba) e Uruguai.

• Hábitos/Informações Gerais: Vive em florestas e matas, podendo ser encontrado em centros urbanos com certo grau de vegetação; apesar de viver oculto nas matas e bosques, ele pode ser visto planando sobre áreas abertas (Sick, 1997; Ferguson-Lees e Christie, 2001; Menq 2014). É um gavião muito estratégico, costuma utilizar poleiros escondidos pela vegetação para se camuflar e surpreender a presa em suas rápidas investidas, ou às vezes usa poleiro expostos no alto de árvores de onde tenta interceptar e capturas presas que passarem próximas (Sick, 1997; Menq 2014). Aparentemente bastante comum dentro de sua área de distribuição, e devido ao seu comportamento tímido e arisco, é subamostrado pelos observadores de aves e ornitólogos. Seipke & Cabanne (2008) acreditam que a espécie é favorecida com monoculturas de araucárias e plantações de coníferas não-nativas, como os pinheiros, o que pode torná-lo menos vulnerável aos efeitos da perda de habitat natural como acontece em outros rapinantes neotropicais.

No Paraná, Menq (2014) observou jovens A. striatus "brincando" através de perseguições de uns aos outros por vários metros no interior de um bosque, às vezes as perseguições envolviam três indivíduos jovens. As brincadeiras de perseguição eram amistosas, sem evidências de agressão, e às vezes com inversão de papéis. Já em Minas Gerais, Costa et al. (2012) observaram A. striatus realizando um comportamento descrito como "brincadeira predatória" em um grupo de gralha-cancã (Cyanocorax cyanopogon). Os gaviões realizavam voos de perseguição lentos e silenciosos, sem evidências de agressão. Segundo Pandolfi (1996), essas brincadeiras intra e interespecíficas são importantes no desenvolvimento das habilidades de caça, sociais e cognitivas dos indivíduos.

 


Gaviãozinho predando uma Andorinha. Jaguariúna/SP.
Foto:
Alexandre Faitarone

Indivíduo jovem (macho)
Maringá/PR, Janeiro de 2014.
Foto: Willian Menq

Indivíduo Jovem em voo.
Curitiba/PR. Janeiro de 2011
Foto: Frederico Swarofsky

 

:: Página editada por: Willian Menq em Fev/2016. ::


• Referências:

American Ornithologists' Union (2014) Check-list of South American Birds. Version 15 February 2014. Disponível em: <http://www.museum.lsu.edu/~Remsen/SACCBaseline.htm>. Acesso em: 19 de Fevereiro de 2014

Bierregaard, R.O. 1994. Rufous-thighed Hawk. Pp. 159 in del Hoyo, J., A. Elliott, and J. Sargatal (eds). Handbook of birds of the world. Vol. 2. New World vultures to guineafowl. Lynx Edicions, Barcelona, Spain. 

Bildstein, K.L. 2004. Raptor migration in the Neotropics: patterns,processes, and consequences. Ornitologia Neotropical 15(suppl.):83-99.

CBRO Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (2014) Listas das aves do Brasil. 11ª Edição, 1/1/2014. Disponível em <http://www.cbro.org.br>. Acesso em: 10 de Fevereiro de 2014

Costa, L.M., G.H.S. Freitas, J.C.C. Penas & M. Rodrigues (2012) O comportamento de brincar de um gavião­miúdo (Accipiter striatus) perseguindo um bando de gralha­cancã (Cyanocorax cyanopogon). Revista Brasileira de Ornitologia 20(1):40­43

Ferguson-Lees, J., and D.A. Christie. 2001. Raptors of the world. HoughtonMifflin, Boston, MA.

Gwynne, J.A., R.S. Ridgely, G. Tudor & M. Argel (2010) Aves do Brasil: Pantanal e Cerrado. v. 1. São Paulo: Horizonte.

Menq, W. (2014) Comportamento de perseguição intra e interespecífica de gavião-miúdo (Accipiter striatus) em um parque urbano de Maringá, Paraná. Atualidades Ornitológicas, 179: 9-11.

Pandolfi, M. (1996) Play Activity in Young Montagu's Harriers (Circus pygargus). The Auk 113(4): 935­938

Seipke, S.H., & G.S. Cabanne (2008) Breeding of the Rufous-thighed Hawk (Accipiter erythronemius) in Argentina and Brazil. Ornitologia Neotropical 19:15-29.

Sick, H. 1997.Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro. Ed. Nova Fronteira.

Thiollay, J.M. (1994) Family Accipitridae. Pp. 52-205 In: Del Hoyo, J., A. Elliott & J. Sargatal (eds.) Handbook of the birds of the world.v. 2. New World Vultures to Guineafowl. Barcelona: Lynx Edicions

• Site associado: Global Raptor Information Network (em inglês)

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2016) Gavião-miúdo (Accipiter striatus) - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/accipiter_striatus.htm > Acesso em: