INICIO > PUBLICAÇÕES > AMEAÇAS E CONSERVAÇÃO DAS AVES DE RAPINA  

Principais ameaças das aves de rapina do Brasil


Texto:
Willian Menq
Publicado em: 28 de Fev/2015
Atualizado em 17 de Jan/2017

[Baixar em PDF]


Águia-cinzena (U. coronata).
Foto: Willian Menq

Muitas espécies de aves de rapina encontram-se ameaçadas em decorrência de diversos fatores de origem antrópica. Das 99 espécies rapinantes existentes no Brasil, 35 encontram-se ameaçadas de extinção em uma ou mais listas regionais, e 15 ameaçadas ou quase ameaçadas nacionalmente.

Lista_das_aves_de_rapina_ameaçadas_de extinção_no_Brasil.

Perda e fragmentação dos habitats
A perda, fragmentação dos habitats ou a transformação deles em paisagens agrícolas ou pastagens, são as formas mais comuns de deslocamentos de territórios e redução das populações de rapinantes. É sem dúvidas, uma das maiores e mais impactantes ameaças às aves de rapina do Brasil.

Quando um fragmento é reduzido ou isolado, aumentam as chances de extinção das espécies devido às alterações na disponibilidade de alimento, locais para nidificação e padrão demográfico. A redução de habitat ocasiona também a deterioração genética devido ao confinamento de poucos indivíduos da população da espécie.

Com fragmentos florestais reduzidos, as chances de permanência de aves de rapina mais exigentes em relação ao hábitat são baixas, além da possibilidade de abate por caçadores aumentar expressivamente. Até mesmo o corte seletivo de madeira causa um impacto considerável sobre algumas espécies pela supressão ou alteração do ambiente. A retirada de árvores de grande porte por exemplo, pode significar uma forma de impacto adicional para os falcões-florestais (Micrastur spp) e corujas que nidificam em cavidades de árvores maduras.

Caça e perseguição
A caça e a perseguição contra as aves de rapina ainda é bastante frequente no Brasil. As consequências dessas atividades nos ecossistemas e nas populações das espécies são desastrosas, já que a perda de indivíduos causa uma série de desiquilíbrios ecológicos. O abate pode eliminar indivíduos adultos com territórios estabelecidos e em pleno vigor reprodutivo, representando uma grave ameaça as espécies de populações naturalmente baixas e de reprodução lenta, como é o caso das águias dos gêneros Spizaetus, Harpia e Morphus. A médio prazo, pode ocasionar deterioração genética ou até extinções regionais.

Os motivos que levam as pessoas a abaterem aves de rapina são diversos, vai desde alimentação ao lazer. No interior do Brasil, sabe-se que algumas comunidades ribeirinhas abatem gaviões para a alimentação. Em muitas regiões do país, fazendeiros atiram contra gaviões e caracarás em decorrência da possível predação de animais domésticos. Esta ação predatória aos animas domésticos está tão disseminada entre a população rural que, mesmo que encontrem estas aves em áreas distantes, sem representar riscos à sua criação, as abatem com o objetivo de evitar perdas futuras. Há também aqueles que abatem aves de rapina apenas por curiosidade, "por esporte" ou para exibi-las como troféus.



Harpia (H. harpyja) abatida em julho de 2010 no interior do MT. Foi morta, por um sitiante por atacar um frango de sua propriedade.
Foto: Christopher Borges

Águia-cinzenta (U. coronata). Por preferir campos naturais, é alvo fácil de abates indiscriminados por parte de alguns fazendeiros e agricultores.
Foto: Mauro Cruz

Harpia (H. harpyja) abatida a tiros
por fazendeiro no interior da Bolívia (Tame, Rondon). Ferida, foi socorrida pelas autoridades, mas não resistiu.
Fonte: Aldiaenpolitica.blogspot

Superstições e crendices populares
Desde a antiguidade, muitos povos são influenciados pelas tradições folclóricas e por diversas lendas que associam algumas aves, como corujas, a sinais de azar, morte e mau agouro; gerando aversão, preconceito e medo entre as pessoas. Dessa forma, muitas espécies são desprezadas, perseguidas ou exterminadas em função do preconceito. O comportamento, a aparência, vocalização lúgubre e as incríveis habilidades das aves de rapina dão margem a tais associações.

Tráfico e captura ilegal
A demanda no mercado ilegal internacional pelas aves silvestres brasileiras é alta. Espécies brasileiras são estimadas por colecionadores e criadouros ilegais. Além do declínio populacional ocasionado pela retirada das espécies, as aves são transportadas vivas e sofrem maus-tratos, desidratação, fraturas e doenças. Embora as espécies mais frequentemente traficadas sejam papagaios e pequenos pássaros, alguns gaviões e corujas podem ser encontradas em feiras livres pelo país. Outra prática comum é a de pessoas que coletam filhotes no ninho para criá-los como pet.


Corujinha-do-mato (M. choliba) capturada ilegalmente por morador no interior do Paraná.
Foto: Willian Menq

As corujas são muitas vezes perseguidas devido aos mitos e credinces que as cercam.
Foto:
Juniors Bildarchiv

Falcões-peregrinos (F. peregrinus) mortos em decorrência do uso de pesticidas proibidos na Europa.
Foto: RSPB/PA

Envenenamentos
O uso excessivo de agrotóxicos, metais pesados e outros elementos químicos maléficos, acaba poluindo a vegetação na qual serve de alimento para insetos, roedores e aves granívoras. Esses animais que consomem os alimentos contaminados servem de alimento para a maioria das aves de rapina. Os gaviões, águias e corujas acabam por acumular todos os produtos poluentes de suas presas. Com isso, são atingidos pela biomagnificação de poluentes, tais como agrotóxicos, PCB's, metais pesados e outros.

Os efeitos da biomagnificação nas aves de rapina são variados, em altas concentrações leva a morte do indivíduo, podendo também prejudicar a reprodução da espécie e causar declínios populacionais. Não existem informações sobre a contaminação de aves por agrotóxicos no Brasil, mas considerando a utilização dos organoclorados ilegais provenientes do Paraguai e de outros países na agricultura brasileira, pode-se considerar a possibilidade de síndromes e mortes se manifestar.

Colisões com estruturas antrópicas
Casos de morte de rapinantes com obstáculos antrópicos são mais comuns do que imaginamos. As vidraças que refletem o céu, pás de geradores eólicos, fios de cerca, linhas de pipa com cerol são obstáculos comuns que dificultam e confundem as aves. Nas áreas rurais os fios de cerca, muito finos, acabam não sendo percebidos por alguns gaviões em seus voos rasantes, ocasionando colisões, lesões e às vezes morte de indivíduos. Nos aeroportos, colisões com aeronaves também são relevantes para a mortalidade de aves de rapina, apesar de estarem sujeitas ao monitoramento devido ao risco de acidentes. As usinas eólicas localizadas em rota de migração de aves, geradores pouco espaçados entre si e com alta velocidade podem vir a ser um obstáculo perigoso e, às vezes, mortal para muitas espécies.

Atropelamentos
O atropelamento é uma das causas de mortalidade mais conhecidas e estudadas. Algumas espécies de aves de rapina usam os acostamentos como área de caça ou como pontos de nidificação (Athene cunicularia, Rupornis magnirostris, Falco sparverius, Caracara plancus, etc.) e se tornam vulneráveis aos atropelamentos. Estradas que cortam florestas, savanas e outras áreas preservadas, o problema é ainda maior, já que muitos rapinantes costumam transitar de um fragmento para o outro ou alimentar-se de outros animais atropelados, podendo ser atingidos por veículos.


Coruja-buraqueira (A. cunicularia), encontrada morta em estrada rural no interior do Mato Grosso.
Foto: Willian Menq

Caburé-acanelado (A. harrisii) encontrada morta na RS-020, S. Francisco de Paula/RS.
Foto:
Gustavo Trainini

Gavião-de-cauda-curta (B. brachyurus) encontrado morto, atropelado na BR 116.
Foto: Cezar Moreira Paes

Eletrocussão
Os fios de alta tensão são poleiros atrativos para as aves de rapina, é extremamente comum ver gaviões e falcões pousados nestes fios ao longo das rodovias espreitando suas presas. Tais estruturas podem ser fatais para espécies maiores que conseguem tocar dois fios ao mesmo tempo como é o caso da águia-cinzenta (U. coronata), águia-serrana (G. melanoleucus) e alguns gaviões. Esses acidentes muitas vezes são pouco percebidos, já que as carcaças são consumidas rapidamente pelos urubus, mamíferos carnívoros ou ficam escondidas na vegetação. As rapineiras eletrocutadas em linhas de transmissão ao longo das estradas quando caem podem ser confundidas com animais atropelados, o que acaba subestimando os acidentes deste tipo.

Medidas para conservação
A conservação das aves de rapina depende de um esforço conjunto da comunidade, pois diferentes formas de impacto contribuem para o declínio das espécies. As medidas mais importantes e urgentes para preservar os rapinantes consistem na proteção de seu hábitat, através das unidades de conservação; a conectividade entre as áreas preservadas, permitindo a permuta gênica entre populações anteriormente isoladas, assim como a colonização espontânea de locais onde eventualmente tenha se extinguido; e aumento da fiscalização nas UC's.

Tão importante quanto a proteção e a fiscalização das áreas preservadas, é o desenvolvimento de estudos científicos com o grupo. Pesquisas voltadas à biologia e ecologia das espécies e a busca de novas populações permitiria inferir na distribuição e conservação de muitas aves de rapina. Projetos de manejo e reintrodução também são de fundamental importância para salvar populações que estão a beira da extinção, como é o caso da harpia (H. harpyja) na Mata Atlântica.

Já a educação ambiental está entre os instrumentos mais importantes e efetivos para promover a conservação das aves e da natureza. O site Aves de Rapina Brasil é também um agente educador que busca, através das publicações no site, artigos e palestras, divulgar e sensibilizar a comunidade sobre a importância das aves de rapina, sua história natural e as espécies de nosso país, afinal: não há conservação sem conhecimento!


Barraca improvisada para monitoramento de um ninho de tauató-pintado (A. poliogaster).

Muitas espécies, como as corujas possuem sua biologia pouco conhecida. Foto: Willian Menq

Palestra sobre aves de rapina no 7º Avistar Brasil, 2012. São Paulo/PR.
Foto: Juliana Oliveira