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Falcão-peregrino
(Falco peregrinus)

Falco peregrinus (Tunstall, 1771)
Ordem: Falconiformes
Família:Falconidae
Grupo:
Falcões
Nome popular: falcão-peregrino
Outros Nomes: Falcão-real
Nome em inglês: Peregrine falcon
Tamanho: 38-53 cm de comprimento
Habitat:
Campos abertos e áreas urbana
Alimentação:
Aves e Morcegos

Distribuição no Brasil:



Status: (LC) Baixo risco


Falcão-peregrino adulto (fêmea). Maringá/PR, Jan 2014.
Foto:
Willian Menq


Vocalização de chamado (C)
(gravado por: Alexandre Renaudier)

• Descrição: O falcão-peregrino, espécie popular em todo o mundo, é um falcão de médio porte extremamente veloz. Seu tamanho varia de 38 a 53 cm de comprimento, com uma envergadura de asas de 89-119 cm; peso de 0,6-1,5 kg. Apresenta grandes olhos negros, dorso azul-acinzentado, com barras escuras no peito, coroa preta na cabeça, cauda com pontas brancas, pintas na barriga, que é esbranquiçada. Já nos jovens, o ventre é de cor creme, com pintas e dorso marrom escuro. As fêmeas são maiores que os machos.
Mais sobre padrão de plumagem..

• Alimentação: Estratégias de caça - É um falcão especialista na captura de aves. Dentre as presas, estão documentadas capturas de aves pequenas como chopins, andorinhões, papagaios, periquitos, pombos, bacuraus, e até presas grandes como gansos, garças, gaivotas e até mesmo outras aves de rapina como corujas e alguns gaviões. Também se alimenta de morcegos, normalmente capturados em voo. Captura suas presas em voo, através de impressionantes perseguições. No ambiente urbano, costuma utilizar poleiros no alto de edifícios e antenas de telefonia para avistar suas presas em voo e se atirar sobre elas. Outra estratégia de caça interessante do falcão peregrino consiste em subir nas correntes de ar quente (térmicas) a grande altura, deixando-se então cair sobre a presa avistada, num ângulo mais ou menos pronunciado e por vezes em queda livre vertical, com as asas aerodinamicamente coladas ao corpo, e controlando magistralmente a sua velocidade, quer abrandando ligeiramente com as asas entreabertas, quer acelerando ainda mais com a ajuda de curtos e rápidos batimentos das asas. Este tipo de caça, apesar de ser o mais impressionante, é o menos utilizado por esse falcão, não sendo tão eficiente quanto o método de perseguição (Sick, 1997; Ferguson-Lees e Christie, 2001).

Dieta - No Brasil a maioria dos registros constatam a caça de pombos domésticos (Columba livia), presa fácil e abundante nos centros urbanos. Em regiões de invernada, principalmente nas áreas urbanas, o morcego é considerado a segunda fonte alimentar mais explorada pelos falcões peregrinos (Albuquerque 1978, Risebrough et al. 1990, Silva e Silva 1997), correspondendo a cerca de 15 a 20% da dieta dessas aves em áreas de invernagem, e constituindo um dos únicos mamíferos que compõem a dieta regular de falcões peregrinos na América do Sul (Drummond, 2010). No Brasil, Sick (1989) observou falcões-peregrinos voando em enxames de cupins ( Syntermes ) capturando os insetos diretamente com o bico. Há também relatos de falcões peregrinos capturando filhotes de tartaruga-marinha recém-eclodidas em praias no Rio de Janeiro.

Na Rússia, Moshkin (2009) registrou uma alta incidência de cleptoparasitismo (ato de roubar alimento) de falcão-peregrino sobre águias-pescadoras (Pandion) e águias-imperiais (Aquila heliaca) na bacia do rio Sakmara no sul das montanhas de Ural. Ele atribuiu esse comportamento ao aumento da concorrência entre falcões-peregrinos e outras aves de rapina na região, como resultado de um aumento considerável na população de falcões-peregrinos na região. O mesmo autor registrou também restos mortais de seis aves de rapina de quatro espécies na dieta do falcão-peregrino: milhafre-preto (Milvus migrans), açor (Accipiter gentilis), búteo-comum (Buteo buteo) e a coruja-dos-urrais (Strix uralensis). Em 2009, Moshkin fez duas observações de peregrinos atacando águias-pescadoras que estavam transportando um peixe, o pesquisador também encontrou restos e escamas de peixe em um ninho peregrino na mesma região. Na Austrália, Debus (1998) relatou falcões-peregrinos alimentando-se de grandes insetos, e mais raramente peixes, répteis, pequenos mamíferos e carniça, porém nenhum dos pesquisadores registrou o falcão capturando peixes mergulhando na água.

Vieira & Monsalvo (2013) registraram dois casos de falcões (F. p. tundrius) capturando peixes no Brasil. O primeiro registro foi no Parque do Ibirapuera, São Paulo/SP, onde um macho adulto capturou um peixe na superfície do lago, de maneira parecida com a estratégia de caça de águia-pescadora. O segundo foi de uma fêmea adulta capturando peixe em uma lagoa no município de Florianópolis/SC, a ave desceu em voo vertical e mergulhou na água. É um comportamento atípico da espécie, o mais surpreendente é que o falcão usou a estratégia de mergulhar intencionalmente na água para capturar os peixes, sendo estes relatos de Vieira & Monsalvo (2013) o primeiro do tipo. Segundo os autores, talvez os dois indivíduos tenham aprendido a pescar observando aves de rapina pscívoras simpátricas como águia-pescadora (Pandion haliaetus) e águia-americana (Haliaeetus leucocephalus) em seus locais de reprodução no Hemisfério Norte.

Mais sobre dieta e comportamentos de caça...


Indivíduo Jovem predando um pombo (Zenaida auriculata). Vila Velha/ES, Fev de 2013.
Foto:
Amanda Ruas

Fêmea adulta em voo. Centro de Maringá/PR,
Janeiro de 2014.
Foto:
Jéssica Araújo Carvalho

• Reprodução: Migratório, se reproduz no hemisfério norte, é monogâmico e solitário. Durante as paradas nupciais, antes do acasalamento, o macho faz voos de exibição, geralmente usa até presas ou peças de presas, fazendo voos para a fêmea, entregando a caça ou deixando-a cair e pegando no ar, tal comportamento acontece ano após ano com o mesmo casal (Drummond, 2010). Durante a época de reprodução, os falcões-peregrinos têm um comportamento fortemente territorial, acuando qualquer invasor que se aproxime do ninho (Sick, 1997; Ferguson-Lees e Christie, 2001).

Coloca de três a quatro ovos, normalmente usa plataformas em penhascos para nidificar, colocando os ovos diretamente sobre o solo, sem fazer ninho. Os ovos são incubados ao longo de 32 a 35 dias por ambos os pais, sendo a fêmea que mais peremanece no ninho incubando. Os filhotes ficam totalmente emplumados com 35 a 42 dias, ficando dependente dois pais por mais cinco semanas após esse período. O primeiro ano de vida do jovem falcão é o período com maior indíce de mortalidade, geralmente já está iniciando as atividades de caça, aprimorando as técnicas de voo, podendo se chocar contra fios de postes, janelas, errar na manobrabilidade e ir de encontro a penhascos e árvores, etc. Além disso, é neste período que ele está mais vulnerável a alguns predadores (Drummond, 2010).

• Distribuição e Migrações: É cosmopolita, ocorrendo em quase todos os continentes, é conhecido por diversas raças geográficas (Ferguson-Lees e Christie 2001). A maioria das populações que vivem em latitudes mais altas são migratórias de longa distância, já aquelas que ocorrem em latitudes mais baixas são sedentárias, embora possam se dispersar durante a época de reprodução. Os peregrinos da América do Norte migram para outras regiões dentro do continente atingindo até o extremo sul da América do Sul. No Brasil todos as regiões recebem falcões-peregrinos, geralmente a partir de outubro e novembro os peregrinos aparecem, permanecendo no Brasil até o final de março ou inicio de abril (Silva e Silva 1996; Pereira et al., 2006). Os estados que parecem ter a menor frequência de ocorrência de peregrinos são Mato Grosso e Goiás (Drummond, 2010).

No municipio de Maringá/PR, Willian Menq (obs. pess) monitorou por dois anos consecutivos, 2013 e 2014, um casal migrante na cidade. O casal estava utilizando os mesmos poleiros e áreas de caça do ano anterior, demonstrando a fidelidade que a espécie têm aos locais de invernagem. Interessante foi observar o falcão-peregrino em casal, são escassos os relatos de casais em migração no Brasil. Décadas atrás, quando a população da espécie era menor, não se sabia se eles permaneciam juntos. Já esse de Maringá até pernoitam juntos, em poleiros próximos, demonstrando também o monogamismo da espécie.
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Casal (fêmea à esquerda) monitorado pelo segundo ano consecutivo em Maringá/PR, Jan 2014.
Foto:
Willian Menq

Indivíduo adulto em voo. Bairro Flamengo, Rio de Janeiro/RJ. Janeiro de 2013
Foto:
João Sérgio Barros

• Subspécies: São conhecidas 19 subspécies de falcão-peregrino em todo o mundo, sendo que quatro ocorrem no continente americano: o F. p. anatum (Ocorre na América do Norte, desde o sul do Canadá e Estados Unidos até norte do México, no inverno migrando para o sul dos Estados Unidos até o Brasil e Argentina); F. p. tundrius (tundra ártica da América do Norte, do Alasca à Groenlândia, no inverno migra para a América do Sul até o sul de Chile, Brasil e Argentina); F. p. cassini (subspécie não-migratória, ocorre no oeste da América do Sul, do Equador e sul da Bolívia (Cochabamba), Peru (Cuzco, Juni Lambayeque, Piura), e do norte da Argentina até o sul do Chile); e o F. p. pealei (costa ocidental da América do Norte do oeste do Alasca e Ilhas Aleutas.


Mapa - Distribuição (área de ocorrência reprodutiva) das 19 subspécies de Falco peregrinus do Mundo. Nota-se que o tundrius e o anatum são as duas subspécies que chegam ao Brasil.

• Rotas Migratórias: Existem pelo menos duas rotas bem definidas conhecidas para os falcões que migram da América do Norte para o Sul (F. p. anatum), incluindo os falcões que residem no Ártico e Groenlândia (subespécie F. p. tundrius). Numa das rotas eles fazem o percurso sempre pelo continente, atravessando a América Central e passando pela região amazônica até chegarem ao seu destino final. Outra rota utilizada é a que cruza as faixas oceânicas, passando pelo Golfo do México e atravessando as ilhas da costa leste da América Central, como Cuba, conjunto de ilhas caribenhas, República Dominicana, até chegar na parte norte da América do Sul, seguindo até o destino final. Ali eles também param pra se alimentar, esses são os pontos conhecidos de parada para se alimentar, mas ao longo do percurso eles param em outros pontos, por tempo mais curto.

• Hábitos/Informações Gerais: Habita os mais variados hábitats, mas a disponibilidade de penhascos, edifícios ou prédios altos é um recurso importante para os peregrinos, que usam tais locais como poleiros de caça, dormitório e/ou reprodução. Em nosso país, os falcões-peregrinos aparecem todos os anos nos mesmos pontos de invernagem, sendo bem fiéis ao local. A mesma fidelidade também é observada quanto aos poleiros utilizados nessas áreas, tanto os de uso estratégico para caça, como os poleiros de repouso e alimentação (Drummond, 2010). Na sua viagem migratória, alguns chegam a percorrer 22 mil quilômetros. O falcão peregrino normalmente é visto em centros urbanos, pois as grandes cidades abrigam grande oferta de presas e poucos competidores. Costuma pousar sobre prédios altos, edifícios, torres de telefonia, de onde lança-se em vôo para perseguir suas presas. Nas áreas rurais, usa os eucaliptos como um dos poucos poleiros-árvores aqui no Brasil, prefere essas árvores por causa da configuração alta e esguia, dos galhos meio horizontais e mais regulares e menos frondosos, dando margem pra servir de poleiro e permitindo o falcão tenha uma visão não muito interceptada por folhagens densas como as de outras árvores. Araucárias ao sul do Brasil também podem ser utilizadas pelos falcões já que apresentam estas mesmas características (Drummond, 2010).

É o mais rápido dos seres vivos, atingindo quase 300 km/h; é certamente uma das mais espetaculares e admiradas aves da fauna mundial. A longevidade do falcão-peregrino é um pouco variável, os peregrinos livres na natureza vivem geralmente de 10 a 15 anos, com uma média de 13 anos de longevidade; existem recordes de longevidade de peregrinos em vida livre de até 19 anos (Drummond, 2010), já em cativeiro podem ultrapassar 20 anos.

Nas décadas de 50 e 60, o uso do DDT afetou gravemente as populações residentes na Europa ocidental e América do Norte, quase extinguindo muitas populações, depois deste fato foi banido o uso desses compostos nas práticas agrícolas e também foram reintroduzidos na natureza dezenas de indivíduos criados em cativeiro (Drummond, 2010).

• Relações intra e interespecíficas: S. Drummond (2010) relatou em Salvador diversas relações intraespecíficas e interespecíficas dos falcões peregrinos. Nas relações com indivíduos da mesma espécie, um falcão-peregrino dominante na área expulsava o outro por meio de perseguições seguido de mergulhos e rasantes contra o outro indivíduo. As vocalizações de alerta mais utilizadas para de interação direta e agonística é a sequência de voz transcrita como “ii-chuip iii-chuip” e a “kaaa kaaa”. Nas relações com outras aves de rapina, o comportamento ativo parte sempre do falcão-peregrino e não das outras aves, pois o falcão peregrino é bastante territorialista, e esse comportamento tende a ser mais predominante em relação a qualquer outra ave de rapina que constitua uma ameaça ao seu território.
Mais sobre relações intra e interespecíficas..

• Galeria de videos do falcão peregrino: Consulte a galeria de videos desta espécie com cenas fantásticas do falcão peregrino atacando outras espécies e também registros de interações gravados no Brasil por Sávio Drummond. Acessar Galeria de Videos..


Falcão peregrino em seu poleiro de repouso. Feita em: 31.10.2009.
Foto:
Sávio Drummond

Falcão peregrino em voo, Salvador/Pituba - Bahia. Outubro de 2008. Foto: Pedro Figueiredo

Falcão peregrino em seu ponto de invernagem. Salvador, Bahia. Fev 2009. Foto: Sávio Drummond


Falcão peregrino jovem.
Foto:
Willian Menq

Falcão peregrino adulto Salvador, Bahia. Foto: Sávio Drummond

Falcão peregrino. Salvador, Bahia. Fev 2009. Foto: Sávio Drummond


Fêmea adulta em seu poleiro de invernagem. Maringá/PR
Janeiro de 2014
Foto:
Willian Menq

Indivíduo adulto no alto de um prédio no centro de Maringá/PR.
Janeiro de 2014
Foto:
Willian Menq

Fêmea adulta pousada no alto de uma torre. Maringá/PR.
Janeiro de 2014.
Foto:
Willian Menq

 

:: Página editada por: Willian Menq em 2014. ::



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• Referências:

Albuquerque, J. L. B. (1978) Contribuição ao conhecimento de Falco peregrinus Tunstall, 1771 na América do Sul (Falconidae, Aves). Rev. Bras. Biol. 38: 727-737.

Debus, S. (1998). The Birds of Prey of Australia: A Field Guide to Australian Raptors. Oxford
University Press, Melbourne.

Drummond, S. M. (2010). Notas sobre falcões peregrinos (Falco peregrinus, Tunstall 1771) em período de invernagem na Bahia. Portal Aves de Rapina Brasil – Publicações online. Disponível em: < www.avesderapinabrasil.com > Acesso em Julho de 2010.

Escalante, R. (1961) Occurence of Cassin race of Peregrine Falcon in Uruguay. Condor 63: 180.

Ferguson-Lees, J. & D. A. Christie (2001) Raptors of the World. New York: Houghton Mifflin Company.

Moshkin, A. V. (2009) Kleptoparasitism: one of hunting technique(s) of the Peregrine Falcon that became common under condition of the increase in its number in the southern Ural Mountains, Russia. Raptors Conservation 17:93-97.

Pereira, G. A.; Coelho, G.; Dantas, S. M.; Roda, S. A.; Farias, G. B.; Roda, S. A.; Brito, M. T. B.; Pacheco, G. L. (2006) Ocorrências e hábitos alimentares do falcão peregrino Falco peregrinus no estado de Pernambuco, Brasil. Revista Brasileira de Ornitologia, 14 (4): 435-439.

Risebrough, R. W., A. M. Springer, S. A. Temple, C. W. White, J. L. B. Albuquerque, P. H. Bloom, R. W. Fyfe, M. N. Kirven, B. A. Luscombe, D. G. Roseneau, M. Sander, N. J. Schmitt, C. G. Thelander, W. G. Vasina e W. Walker II (1990) Observaciones del Halcon Peregrino, Falco peregrinus sub spp., en America del Sur. Rev. Bras. Biol. 50: 563-574.

Sick, H.(1997) Ornitologia Brasileira. Nova Fronteira. RJ.

Sick, H. (1989) [The Arctic Peregrine Falcon, Falco peregrinus tundrius, in Brazil]. Mitteilungen aus dem Zoologischen Museum in Berlin, Ann. Orn. Suppl. 65. (In German) 

Silva e Silva, R. (1996) Records and geographical distribution of the Peregrine Falcon Falco pereginus Tunstall, 1771 (Aves, Falconidae) in Brazil. Pap. Avuls. Zool. São Paulo 39: 249-270.

Vieira, B. P. & Monsalvo, J. A. B. (2013) Peregrine falcons capture fish in Brazil. Revista Brasileira de Ornitologia, 21(4), 217-220

• Site associado: Global Raptor Information Network (em inglês)