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A Situação da Harpia no sul do Brasil


Harpia do Zoológico da UFMT. Foto: Willian Menq

Texto de: Willian Menq
A harpia (Harpia harpyja) também conhecida como gavião-real, originalmente ocorria desde o México até Argentina, com exceção do Uruguai e Chile, e, atualmente é bem provável que muitos países não a possuam mais já que muitas áreas florestais ao longo de sua distribuição foram reduzidas a pequenos fragmentos de floresta. No Brasil, é considerada rara fora da floresta amazônica, sendo nacionalmente categorizada como “quase ameaçada de extinção” (IBAMA, 2005; ICMBio 2008). Na Mata Atlântica a situação da harpia é mais crítica, estando ela presente na lista de espécies ameaçadas de extinção em todos os Estados que possuem um livro vermelho elaborado.

Por necessitar de grandes territórios para obter alimento e se reproduzir com sucesso, as populações da harpia tendem a declinar com a falta de remanescentes florestais com dimensões adequadas. Também podem sofrer deterioração genética em virtude da existência de poucos indivíduos nas áreas onde ainda ocorrem.

No sul do Brasil a espécie é raríssima, possuindo poucos registros recentes e históricos. No Rio Grande do Sul, de acordo com o livro vermelho da fauna ameaçada de extinção do Estado, é considerada como "provavelmente extinta" ( Marques, et al. 2002). Mesmo assim, existe possibilidade de ocorrência dessa ave na região das encostas da serra geral, nas baixadas do Parque Nacional dos Aparados da Serra, no Parque estadual do Turvo e também na fronteira com a Argentina e Santa Catarina, devido às grandes áreas florestais e à proximidade com a floresta semidecidual de Misiones, da Argentina, onde a espécies ocorre. As florestas de Misiones é uma área de extrema importância para conservação, podendo até haver de acordo com Albuquerque (1995) um possivel intercâmbio de indivíduos entre à costa do atlântico e de Misiones

Em Santa Catarina, Albuquerque (1995) registrou a Harpia em duas ocasiões: em outubro de 1989 em Calda de Imperatriz foi visto um casal em vôo, e em 1980 em pilões. Não há dados de registros recentes confirmados no Estado. Há um relato recente de piloto de asa delta em 2002, que viu uma harpia planando no município de Timbó do Sul, próximo à Serra do Rio do Rastro, em Bom Jardim da Serra. A região da serra geral e da serra do tabuleiro é uma grande faixa verde bem preservada, abrigando uma alta biodiversidade. Nos trabalhos do Projeto Gaviões de Penacho liderado por Jorge Albuquerque, foi registrada 28 espécies de aves de rapina diurnas, dentre elas espécies raras como Spizaetus ornatus, Spizaetus melanoleucus, Leucopternis lacernulata. Sem dúvida é uma área que ainda abriga populações de Harpia harpyja, já que condições de habitat (presas potenciais, territórios) para esta espécie ainda persistem na região.

No Estado do Paraná de acordo com seu livro vermelho da fauna ameaçada de extinção, é considerada "criticamente em perigo" (Mikich & Bérnils, 2004). No Paraná, a ocorrência de harpia é conhecida para ambientes de Floresta Estacional Semidecidual e Floresta Ombrófila Mista, essa ave conta com poucos registros no Estado. A observação mais recente é datada de 2005, onde um indivíduo foi visto em uma das unidades florestais das Indústrias P. N. Pizzatto Ltda, no município de General Carneiro (sul do Paraná). Outro registro recente é datado de 2003 onde uma harpia foi vista planando sobre a Baía de Guaratuba (Scherer-Neto & Ribas, 2004). Outro registro foi de 1984, onde a ave, ainda viva, foi enviada ao Passeio Público de Curitiba (Straube, 2003). Informações antigas foram colhidas com base em exemplares de museu, para os municípios de Laranjeiras do Sul, Palmas, Cascavel e Turvo (Straube, 2003). Por volta da década de 30 houve um registro de harpia nas imediações de Londrina, onde um exemplar foi abatido por caçadores da região. Segundo Bornschein & Straube (1991), considerando os registros marginais obtidos na Província de Misiones (Argentina) e na Reserva Biológica de Limoy (Paraguai) a ocorrência desta espécie é provável para o Parque Nacional do Iguaçu e também em todas as outras regiões densamentes florestas do Paraná, especialmente a florestas da Serra do Mar.


Áreas no sul do Brasil com possíveis ocorrências da espécie.

A exemplo de outras grandes aves de rapina, que são exclusivas de matas preservadas de consideráveis dimensões, as ameaças verificadas para esta espécie são principalmente a perca de habitat e abate por parte de avicultores, com o intuito de evitar ataques à criação (Mikich & Bérnils, 2004). Embora os registros da harpia no sul do Brasil sejam bem escassos e muitos antigos, é correto afirmar que elas ainda habitam as florestas do sul do país. É importante lutarmos pela conservação da espécie, buscar por novas populações e preservar os remanescentes que ainda restam, e permitir que gerações futuras tenham a felicidade de ver nossos gaviões reais habitanto as florestas não só do sul, mas do país inteiro.


Publicado em: Fevereiro de 2009


Bibliografia:

• Albuquerque, J.L.B. (1995). Observations of rare raptors in Southern Atlantic Rainforest of Brazil. Journal of Field Ornithology, Berlin, 66 (3): 363-369.
• ICMBIO (2008). Plano de ação nacional para a conservação de aves de rapina / Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Coordenação-Geral de Espécies Ameaçadas. – Brasília.136 p. ; il. color. : 29 cm. (Série Espécies Ameaçadas, 5) ISBN 978-85-7300-240-9.
• Bornschein, M. R. & F. C. Straube. (1991). Novos registros de alguns Accipitridae nos Estados do Paraná e Santa Catarina (sul do Brasil). Resum. Encuent. Ornitol. Paraguay, Brasil y Argentina, p. 38.
• Marques, A. A. B. et al .(2002) Lista de Referência da Fauna Ameaçada de Extinção no Rio Grande do Sul. Decreto no 41.672, 11 jun 2002. Porto Alegre: FZB/MCT–PUCRS/PANGEA, 2002. 52p. (Publicações Avulsas FZB, 11)
• Mikich, S.B. & R.S. Bérnils. (2004). Livro Vermelho da Fauna Ameaçada no Estado do Paraná.
• Scherer-Neto, P. & Ribas, C. F. (2004). Registro de harpia Harpia harpyja no litoral sul do Brasil. Atualidades Ornitologicas 122 (nov/dez de 2004).
• Projeto Gaviões de Penacho – Hawk Eagle Project: www.projetogavioesdepenacho.blogspot.com

• Straube, F. C. (2003) A harpia (Harpia harpyja): timbre do brasão de armas do Estado do Paraná.. Palotina/PR: Centro Acadêmico de Medicina Veterinária Harpia/UFPR- Campus Palotina.