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Obervando aves de rapina diurnas
Como, quando e onde procurar águias, gaviões e falcões?

Publicação: 24/11/2011
(Atualizado Agosto/2014)

Texto:
Willian Menq

As aves de rapina são encontradas nos mais variados hábitats, desde as densas florestas até os centros urbanos. De modo geral, são ariscas, rápidas, possuem populações pequenas e esparsas, necessitam de áreas de vida relativamente grandes e muitas vezes podem habitar locais de difícil acesso. Tais características tornam o encontro com essas aves muito difícil. Muita das técnicas de observação usadas para aves em geral não servem para os rapinantes, sendo necessários métodos específicos.

• Quando observar aves de rapina:
Período do dia: A atividade das aves de rapina pode variar ao longo do dia, o que consequentemente afeta a detecção por parte do observador. Cada rapinante têm seus próprios hábitos, espécies que utilizam correntes de ar, como o gavião-de-cauda-branca são mais detectadas no final da manhã e inicio da tarde. Por outro lado, as espécies florestais são mais facilmente observadas nas primeiras horas da manhã quando fazem sobrevoos sobre a floresta.

Período do ano: O período do ano em que aves de rapina são mais ativas é as semanas que antecedem a nidificação, geralmente de julho à setembro. Este é o período de acasalamento e estabelecimento de território da maioria dos rapinantes, eles estão mais ativos e vocalizam com mais frequência. Para observar espécies migratórias é importante conhecer o período em que elas permanecem no Brasil, o falcão-peregrino e águia-pescadora, por exemplo, aparecem por aqui entre os meses de outubro e abril. Rapineiros de migração curta, como o gavião-saúveiro e gavião-tesoura migram para o sudeste, sul e centro-oeste do país a partir de setembro.

Clima: As variáveis climáticas afetam o comportamento das aves de rapina. Dias com chuva, nevoeiro, vento forte, ou temperatura muito elevada, diminui drasticamente a detectabilidade de aves rapineiras.

• Como observar (Métodos para observação de rapinantes)
Para a observação de aves de rapina, podem ser utilizadas as mesmas técnicas usadas para o estudo com o grupo, só que de maneira bem mais simplificada.


Cauré (Falco rufigularis). Comum em matas, bosques e cerrado.
Foto: Willian Menq

Gavião-miúdo (A. striatus) jovem.
Espécie comum, mas muito discreta.
Foto: Willian Menq

Falcão acauã (H. cachinnans)
Espécie típica de áreas abertas.
Foto: Willian Menq

Ponto fixo: O ponto fixo é uma técnica muito eficiente para registrar as aves de rapina de um local específico. O método consiste em fazer um ponto de observação em determinado local e permanecer nele por um período, dessa forma irá visualizar as espécies que por ali passarem. O ponto deve ser escolhido em um local com bom campo de visão, em ambientes florestais é necessário permanecer em um local elevado, onde dê para visualizar todo o dossel da floresta. Ficar no alto de árvores emergentes, encostas ou topo de morro são pontos apropriados. É um método que demanda muito esforço e paciência, muitas vezes é necessário permanecer no ponto por mais de 4 h para visualizar uma espécie rara. Para ficar menos cansativo, recomenda-se reunir um grupo de pessoas e ir revezando a observação na procura dos rapinantes.

Transects: A técnica de transeções é adequada para ambientes de fácil deslocamento e interessante para quem gosta de caminhar. Neste método o observador atravessa uma determinada área caminhando e registrando os indivíduos. O mais importante na transeção é o local escolhido. Fazer uma transeção no interior de uma floresta não é muito recomendado, pois raramente o observador verá uma ave de rapina planadora, visto que elas são rápidas, voam acima da mata e/ou preferem ficar pousadas no alto de árvores, e na trilha a visibilidade é muito baixa. Por outro lado, essas transeções no interior de matas se combinado com a técnica de playback são ótimas para a procura de espécies estritamente florestais que vivem no estrato inferior da mata, como é o caso dos falcões-florestais (Micrastur sp) e dos açores (Accipiter sp). Realizar transeções seguindo a borda da floresta, poderá resultar em excelentes registros. Tanto a borda quanto a matriz é muito utilizada por espécies florestais. O gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), por exemplo, costuma visitar a borda para caçar aves e pequenos mamíferos. Espécies de paisagens abertas, como o gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis), usa as árvores da borda como poleiros de descanso ou caça.

Rotas por veículos/barcos: Outra técnica interessante para encontrar rapinantes é a de rotas por veículos. Esse método utiliza os mesmos princípios da transeção realizada a pé, porém, empregando-se um veículo, como um carro ou barco. A grande vantagem desta técnica é que com ela é possível cobrir uma grande área em menor tempo. Além disso, as aves de rapina são mais tolerantes a aproximação humana com veículos, o que facilita a observação. As rotas utilizadas geralmente são estradas e trilhas pré-existentes, é importante que a rota determinada apresente baixo movimento de carros, ruídos e pessoas, fatores que atrapalham a detectabilidade. Para execução desta técnica é necessário o auxílio de outra pessoa para conduzir o veículo. Recomenda-se que a velocidade máxima seja entre 25-30 km/h. A rota por veículo pode ser feita tanto em ambientes abertos e semi-abertos quanto em florestas. Nas florestas a dica é a mesma para a dos transects: usar a borda. A rota por barco é mais adequada para observar espécies que habitam ambientes aquáticos, como o gavião-belo (Busarellus nigricollis), águia-pescadora (Pandion haliaetus), gavião-caramujeiro (Rostrhamus socialibis), etc., e também para acessar áreas que são inacessíveis por outros meios de locomoção. Substituir o veículo por uma bicicleta também pode ser interessante.

Playback: a técnica do playback é usada em pontos ao longo de transectos no interior de florestas. É uma técnica eficiente para observar/ouvir falcões-florestais, açores e corujas. Esse método consiste na reprodução através de caixas de som da vocalização de determinada espécie, esperando que elas respondam a esses chamados. Geralmente as aves de rapina florestais respondem o chamado ou se aproximam silenciosamente da fonte do som. Na época reprodutiva esse comportamento é mais evidente, já que defendem o território contra invasores. É importante que o aparelho reprodutor de som seja alto suficiente para ser ouvido a pelo menos 200 m da fonte. O tempo de reprodução da gravação deve ser de no máximo 2 minutos, sendo necessário um tempo de espera de pelo menos 3 min. As gravações podem ser obtidas em formato mp3 em bancos de dados na internet, como o Xeno-canto (xeno-canto.org).

Atenção: A técnica de playback estressa e altera o comportamento das aves, seu uso deve ser moderado, reproduzindo o som da espécie-alvo uma única vez por no máximo 2 min. O uso em excesso pode causar diversos efeitos negativos, como a perda de território, alteração na distribuição de aves e até mesmo afetar o sucesso reprodutivo.


Ponto fixo no alto de um morro.

Transeção em floresta densa.

Ponto fixo em ambiente florestal.


• Onde observar aves de rapina:

O tipo do habitat influencia diretamente na probabilidade de detecção de aves de rapina. Enquanto na mata atlântica mais de 20 espécies podem ser vistas numa única manhã, existem áreas no nordeste do Brasil, onde se pode caminhar por horas sem ver nem um único gavião.

O comportamento, hábitos e características morfológicas de cada espécie reflete em uma diferença na detecção por parte do observador. Rapineiros planadores são mais fáceis de serem encontrados do que aquelas que vivem no estrato inferior das matas. Espécies que vocalizam constantemente são mais detectadas do que aquelas que não vocalizam. São muitas as diferenças, abaixo as principais dicas para cada grupo de espécies.

Rapinantes planadores (Buteo, Geranoaetus, Urubitinga, etc.) e urubus
O grupo dos rapinantes planadores possui representantes em todo o Brasil. O habitat preferido dessas aves são os campos naturais, cerrados, caatinga, bosques e parques nos centros urbanos. É comum encontrá-los pousados em galhos secos em árvores na borda ou interior da mata, em árvores isoladas no campo, em mourões de cerca e topo de arbustos. Nas cidades usam postes e torres telefônicas como poleiros. Mas é voando que são mais facilmente vistos, sendo bem detectáveis nos horários próximo do meio-dia (entre 10 e 14 h, UTM -3). É nesse horário que surge as correntes de ar quente, as “térmicas”, e essas aves costumam pegar carona nas correntes ascendentes para ganhar altura e planar, gastando o mínimo de energia. Em áreas montanhosas, serras ou colinas, os gaviões costumam aproveitar as correntes que sopram em direção a esses paredões. Para este grupo, a técnica de rotas por veículos e pontos fixos no alto de morros e em áreas abertas são mais eficientes.

Rapinantes estritamente florestais (Spizaetus, Harpia, Leptodon, Leucopternis, Elanoides, etc.)
Os rapineiros florestais são encontrados em florestas primárias, secundárias, matas ripárias e cerrado arbóreo. No caso dos gaviões-milanos, como o gavião-tesoura e sovi, habitam também fragmentos pequenos e bosques urbanos. Os rapineiros florestais são bem detectáveis no inicio da manhã e próximo ao horário do almoço, quando começam a aproveitar as correntes ascendentes. Em florestas de relevo acidentado, ocorre muito as correntes do tipo “plano inclinado para cima”. O vento sopra em direção a uma montanha ou colina e sobe, e os rapineiros, como o gavião-pega-macaco, usam essas correntes para planar e sobrevoar a mata. Portanto, é interessante fazer pontos fixos no alto de morros inseridos na floresta. Outra técnica extremamente eficaz para observação das águias e gaviões florestais é realizando pontos fixos no alto de árvores emergentes (árvores mais altas que a maioria). Clareiras em meio à floresta são áreas de caça potenciais para essas espécies. Permanecer na borda da floresta também pode trazer bons resultados.


Gavião-preto jovem.
Espécie abundante no Pantanal.
Foto: Willian Menq

Gavião-pega-macaco, em voo costuma vocalizar com frequência.
Foto: Willian Menq

Gavião-de-cauda-curta. Planador comum em grande parte do Brasil.
Foto: Willian Menq

Falcões-florestais e Açores (Micrastur e Accipiter)
Os rapineiros do gênero Micrastur e Accipiter (exceto o A. striatus) são aves ágeis, ariscas e estritamente florestais, raramente aparecem na borda. São ativas nas primeiras horas do dia e no final da tarde. Habitam florestas primárias, secundárias, matas de galeria e até mesmo florestas pequenas próxima de áreas urbanas. Para essse grupo o método mais eficiente é percorrer trilhas no interior de florestas. O falcão-relógio costuma vocalizar antes mesmo do nascer do sol; três horas após o nascer do sol, os falcões-florestais param de vocalizar. O segundo pico de atividade desse grupo é no final da tarde, quando o sol está quase tocando o horizonte. Além de fazer transectos para ouvir vocalizações espontâneas, o uso da técnica de playback é um meio eficiente para detectá-los.

Tartaranhões (Circus)
O grupo dos tartaranhões (gaviões-do-mangue) possui dois representantes: o Circus buffoni, que ocorre em todo sul, sudeste, centro-oeste e parte do nordeste do Brasil; e o Circus cinereus, restrito a região sul. Habitam banhados, campos inundáveis, brejos, restingas e lavouras de arroz. São mais ativos no inicio da manhã e final da tarde, sendo esses os horários mais adequados para procurá-los. Os tartaranhões não costumam planar nem voar alto, gostam de voar lentamente e a baixa altura sobre a vegetação. Devido a esse comportamento e às baixas densidades populacionais, os métodos mais eficiente para encontrá-los é através de rotas por veículos e transects em seus hábitats preferenciais.

Gavião-peneira (Elanus leucurus)
Embora o gavião-peneira seja aqui classificado como um gavião planador, os métodos de procura do grupo não são muito eficientes para essa espécie. É um gavião que ocorre em quase todo o Brasil, e apesar de comum seu encontro não é tão simples. Ele gosta de sobrevoar sítios (plantações de trigo, soja, agrião, etc.), terrenos baldios, campos naturais, capinzais e outras áreas com vegetação rasteira onde procura seu principal alimento: os pequenos roedores. Dessa forma a procura pela espécie deve ser concentrada nesses ambientes, evitando sempre áreas com vegetação mais alta, matas e canaviais. Devido a seu comportamento de “parar” no ar, pode ser notado a distância. O gavião-peneira caça no inicio da manhã e principalmente no final da tarde próximo do crepúsculo, sendo esses os horários que a espécie é mais detectável. Para procurar o gavião-peneira, os métodos mais adequados é a de rotas por veículos e transects.

Falcões (Falco)
Os falcões são rapineiros pequenos e ágeis. No Brasil ocorrem quatro espécies residentes e duas migratórias com ocorrência em quase todo o país. O falcão-de-coleira (F. femoralis), falcão-quiriquiri (F. sparverius) e o falcão-peregrino (F. peregrinus) habitam áreas de vegetação aberta, cerrado, caatingas, borda de matas e nos centros urbanos. O falcão-peregrino é migratório, aparece no Brasil somente entre os meses de outubro até abril. O falcão-cauré (F. rufigularis) e o falcão-de-peito-vermelho (F. deiroleucus) preferem áreas florestais. O primeiro é mais comum, podendo habitar pequenos fragmentos florestais, borda de florestas e clareiras, já o falcão-de-peito-vermelho é extremamente raro, restrito a grandes áreas preservadas, parece gostar de habitar áreas próximas a corpos d’água com paredões rochosos, barrancos e penhascos inseridos na floresta. O horário de atividade é um pouco variável, o quiriquiri é ativo durante todo o dia, enquanto o restante é detectável somente no inicio da manhã e no final da tarde. falcão-cauré e o falcão-peregrino as vezes estendem suas atividades até quase o escurecer, onde perseguem morcegos em voo. Os métodos de transect e rota por veículos são adequados à procura das espécies de áreas abertas, enquanto o ponto fixo para as espécies florestais.

Caracará e carrapateiro (Caracara, Milvago)
Observar caracarás e carrapateiros é uma tarefa fácil. São abundantes em praticamente todo o Brasil e ativos durante o dia todo. As buscas devem ser concentradas em áreas rurais, lavouras, periferia de centros urbanos e borda de matas. Geralmente estão no solo caminhando ou pousado sobre mourões de cerca, postes e no alto de árvores. Realizar transect e rota por veículo são os meios mais fáceis de encontrá-los.

Rapinantes associados a ambientes aquáticos (Rosthramus, Busarellus, Pandion, etc.)
Os gaviões associados a corpos d´agua dependem desse hábitat para obter alimento, sejam peixes, anfíbios ou gastrópodes. A procura por essas aves deve ser concentrada em grandes rios e lagos com a presença de matas ciliares preservadas através de rotas por barcos e de transects próximo às margens dos rios.

Procurando aves de rapina nas cidades
O ambiente urbano é um atrativo a várias espécies de gaviões e falcões. Para encontrar as rapineiras urbanas, recomenda-se sair nas primeiras horas da manhã e entre 16:30 e 18:00 da tarde. Observe o alto dos prédios, torres telefônicas, caixas de ar condicionado, postes e no alto de árvores. Esses são os poleiros preferenciais dos rapinantes urbanos. Além da procura ativa, o observador pode fazer um ponto fixo da varanda de um prédio e dali observar as espécies que passam pela área.


Águia-cinzenta jovem. Espécie rara, típica de campos naturais.
Foto: Willian Menq

Grupo de gaviões-tesoura.
Espécie típicamente florestal.
Foto: Willian Menq

Falcão-de-coleira. Espécie comum em cidades e áreas abertas.
Foto: Willian Menq


Falcão-relógio. Raro a comum em determinadas regiões, florestal.
Foto: Willian Menq

Gavião-pedrês. Vive em matas, bosques, cerrados.
Foto: Willian Menq

Gavião-carijó. Espécie comum em cidades e áreas abertas.
Foto: Willian Menq

 

O uso de um binóculo é essencial já que a maioria das aves de rapina possuem aversão à aproximação humana. Procure sempre por material de qualidade, dando preferência às marcas tradicionais do mercado.

• Dicas gerais

  • Use roupa leve, de preferência tecidos que não absorvam muita água (encharcam). Utilize vestuário de cores discretas que se confundam com a vegetação, como o cinza, marrom ou verde. Cores berrantes/chamativas, como vermelho ou amarelo, não só denunciam a sua presença como também assustam as aves.
  • É importante usar calçados confortáveis e fechados, como botas ou tênis. Bota de cano alto é uma boa proteção contra picadas de cobras ou carrapatos. O chapéu é outro acessório indispensável para se proteger do sol ou da chuva.
  • Use este site para conhecer mais sobre o comportamento e hábitos das espécies. O site possui informações de todas as espécies do Brasil (link para lista).
  • Visite também sites e fóruns sobre observação de aves e ornitologia, como o wikiaves, revista birdwacther, dentre outros (lista de links).
  • É importante ter os olhos e ouvidos atentos, movidos pela curiosidade. Evitar conversar demais, fazer barulho o mínimo possível, assim ficará mais atento ao ambiente em sua volta e evita espantar alguma ave.
  • Se você suspeitar que uma área esteja sendo usada como ninho, não se aproxime não perturbe, observe de uma distância segura para a ave.

• Segurança

  • Evite locais com pouca segurança (áreas onde sabe-se que há caçadores por exemplo). Sempre avise alguém o local onde está indo.
  • Não acesse áreas privadas sem autorização.
  • Olhe onde está pisando, cobras, pedras, buracos podem estar no seu caminho.
  • Faça um conhecimento prévio da região, postos de saúde e policia próximos.
  • Em áreas extensas leve sempre uma bússola ou GPS com bateria extra.

Aprender a identificar as aves de rapina não é tão simples, espécies jovens/imaturas apresentam plumagem diferente dos adultos, outras espécies apresentam pequenas e sutis diferenças, e há ainda rapineiros com mais de três tipos de plumagem e formas melânicas. Portanto, visita a museus, treinamento em campo, o conhecimento da literatura e a discussão com observadores mais experientes são importantes na formação de um bom observador de aves de rapina.