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Aves de rapina em áreas urbanas

Texto: Willian Menq
Publicado em: 30 de abril de 2015.

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Gavião-peneira(E. leucurus).
Foto: Willian Menq

Hoje em dia não é muito difícil ver um falcão voando entre os prédios da cidade ou um gavião perseguindo pássaros nos quintais de casas. As aves de rapina já ocorrem em praticamente todos os centros urbanos e alguns dos fatores responsáveis por isso é o aumento da disponibilidade de presas (roedores, aves e insetos), locais para ninhos (cavidades artificiais, forro de casas) e baixo número de predadores e/ou competidores. Além disso, a perda dos habitat naturais também colaborou com a presença de algumas espécies nos centros urbanos.

Pelo menos 17 rapinantes são comuns para a maioria das cidades brasileiras (ver Tabela 1), e eles ocupam de várias formas os centros urbanos. Alguns vivem e nidificam em ambientes artificiais; existem aqueles que vivem nas cidades mas dependem de árvores das praças, ruas e canteiros para nidificar; outros são florestais e ficam restritos aos pequenos fragmentos e parques; e também há aqueles que vivem na periferia das cidades, terrenos baldios e áreas abertas, ocasionalmente aparecendo nas áreas mais urbanizadas.

Rapinantes urbanos
O caracará Caracara plancus é um dos rapinantes urbanos mais comuns. Sua aparência lembra a de uma águia, sendo até confundido como tal, mas é aparentado aos falcões. É oportunista, costuma alimentar-se de restos de comida nos lixo das casas, animais atropelados, invertebrados em terrenos baldios, ou de forma mais rara caça filhotes de aves nos ninhos e roedores. Pode nidificar no alto de prédios, sacadas e ninhos abandonados por outras aves. É comum vê-lo junto a urubus, e tem uma boa relação com eles, podendo até trocar “carícias” quando pousados, retirando carrapatos um do outro, comportamento chamado de “Allopreening”.

Outro falcão muito comum nas cidades e totalmente urbano é o quiriquiri Falco sparverius. Pequeno, com 23 a 27 cm de comprimento, caça principalmente insetos e roedores. Devido ao pequeno tamanho, é pouco notado pelas pessoas, mas é facilmente encontrado pousado em postes, fios de eletricidade e antenas, estruturas que usa para localizar e capturar sobre suas presas. Costuma utilizar forro de casas, torres e cavidades artificiais para nidificar. É um falcãozinho bastante valente, quando percebe a presença de um rapinante maior em seu território, imediatamente voa em direção ao intruso realizando voos rasantes contra o mesmo, às vezes até o atingindo. Bastante parecido com o quiriquiri, tanto no uso de habitat quanto na aparência, é o falcão-de-coleira Falco femoralis. Este costuma caçar aves, roedores e insetos, tanto em solo quando em voo, por vezes realizando fantásticas perseguições contra suas presas.


Falcão-de-coleira (F. femoralis) predando um periquito. Poço de Caldas/MG. Foto: Beto Ramos

Falcão-peregrino (F. peregrinus) em seu poleiro habital de repouso. Maringá/PR. Foto: Willian Menq

Falcão-peregrino (F. peregrinus) no centro do Rio de Janeiro/RJ.
Foto:
João Sérgio Barros


Quiriquiri (F. sparverius) procurando presas. Porto Alegre/RS.
Foto: Willian Menq

Caracará (C. plancus) pousado em mourão de cerca. Itamaraju/BA.
Foto: Sávio Drummond

Gavião-peneira (E. leucurus) caçando em área urbana. Londrina/PR.
Foto: Willian Menq

Nas cidades com razoável presença de edifícios e antenas de telefonia pode ser encontrado o falcão-peregrino Falco peregrinus. Migratório do hemisfério norte, é, sem dúvidas, o mais impressionante e eficaz predador de aves do ambiente urbano. Costuma fazer perseguições incríveis contra suas presas, em geral pombos, por vezes realizando “picados” no céu a mais de 300 km/h. Se reproduz no Hemisfério Norte, aparece no Brasil entre os meses de outubro e abril. Gosta de passar o dia descansando no alto de edifícios, torres de telefonia e plataformas altas de prédios, saindo para caçar nas áreas mais abertas da cidade (campos, parques com lagos, terrenos baldios, orla de praias) ou no alto dos edifícios, normalmente primeiras horas da manhã ou no final de tarde. Além das aves, o falcão-peregrino persegue morcegos em voo, as espécies prediletas são os morcegos-cauda-de-rato (Molossus spp), que são abundantes e no crepúsculo costumam voar de forma retilínea, se tornando excelentes presas para o falcão.

Dos gaviões, o gavião-carijó Rupornis magnirostris é um dos mais comuns. De porte médio, é um predador oportunista, caça roedores, aves e insetos. Gosta de ficar pousado no alto de antenas, árvores, fios e postes de iluminação para espreitar suas presas.  Por ser extremamente territorial, na época reprodutiva é conhecido por dar voos rasantes sobre a cabeça de pessoas que aproximam de seu ninho, geralmente construído no alto de árvores. Infelizmente, devido ao comportamento de “mãe protetora”, o gavião-carijó é considerado uma ameaça, sendo perseguido e caçado indiscriminadamente.


Gavião-carijó (R. magnirostris) predando um pombo. Peabiru/PR.
Foto: Willian Menq

Gavião-miudo (A. striatus) em plena rua, predando rolinha, Maringá/PR. Foto: Itamar Cossina G. Hadnish

Gavião-de-cauda-curta (B. brachyurus) predando rolinha. Joinville/SC. Foto: Marcos Piske

Nas áreas mais arborizadas das cidades pode ser encontrado o gavião-de-cauda-curta Buteo brachyurus, gavião de porte médio especializado na captura de aves. É bastante ágil e veloz para seu gênero, em suas caçadas costuma realizar rápidas perseguições sobre a copa das árvores ou abaixo delas. Normalmente se reproduz em árvores no interior de parques ou outras áreas verdes mais preservadas. Também gosta de planar sobre a cidade nas horas mais quentes da manhã, às vezes, junto aos urubus. Outro gavião urbano bastante discreto é o gavião-miúdo Accipiter striatus. É um predador nato, ágil e esperto, sendo o terror dos passarinhos, realiza curtas e incríveis perseguições entre as árvores de parques e praças, e mesmo pequeno não hesita em atacar aves maior que seu próprio tamanho. Pode ser encontrado nos parques, bosques e nas zonas mais arborizadas das cidades.

No inicio da primavera, em muitas cidades do sul e sudeste do Brasil aparece o gavião-sauveiro Ictinia plumbea. Assim como o gavião-de-cauda-curta, o sovi só aparece nas cidades com razoável presença de bosques e áreas arborizadas.  É insetívoro, voa em grupo de dezenas de indivíduos, sobrevoa os parques e praças a procura de libélulas e outros insetos voadores. Da mesma forma que o sovi, o gavião-bombachinha-pequeno Harpagus diodon e o gavião-tesoura Elanoides forficatus, também podem aparecer nos bosques urbanos.

Já o gavião-de-cauda-branca Geranoaetus albicaudatus e o gavião-caboclo Heterospizias meridionalis preferem as áreas mais abertas para caçar, como os terrenos baldios, campos e áreas antropizadas na periferia das cidades. O gavião-peneira Elanus leucurus também gosta de campos e terrenos baldios para caçar. Sua técnica de caça chama bastante a atenção, costuma “peneirar” no ar, ou seja, pairar no ar a baixa altura para localizar ratos e camundongos no solo. Assim, pode ser encontrado nos bairros menos urbanizados, campos e periferias da cidade. Gosta de sair para caçar no inicio da manhã e no final da tarde, próximo do anoitecer.

Em cidades com presença de grandes lagos, rios ou estuários, pode ser encontrada a águia-pescadora Pandion haliaetus. Migratória, aparece no Brasil entre outubro a abril, e alguns indivíduos jovens ou não-reprodutivos podem permanecer o ano todo. Como é pescadora, habita grandes rios, lagos, lagoas, zonas costeiras, estuários e represas. Pode ser encontrada em diversas cidades, como Manaus/AM, Belém/PA, Rio de Janeiro/RJ, Florianópolis/SC, Porto Alegre/RS, Sobral/CE, Londrina/PR, etc.

Das corujas urbanas, a suindara Tyto furcata é a mais comum. Geralmente passa o dia dormindo em torres de igreja, galpões, barracões e sótão de casas. Assim que anoitece, sai de seu dormitório para suas áreas de caça favoritas, como terrenos baldios com árvores esparsas, quintais de casas, campos de futebol, escolas, cemitérios além de parques e praças da cidade. Fica de um poleiro até localizar sua presa e então atirar-se sobre ela. É conhecida por ser uma grande exterminadora de roedores. Estima-se que durante o período de um ano um casal consome entre 1.720 e 3.700 ratos.

Outra coruja comum nas cidades mais arborizadas é a corujinha-do-mato Megascops choliba. É uma coruja pequena, do tamanho de um sabiá, encontrada nos parques urbanos, bosques e até mesmo nos quintais de casas, desde que haja algumas árvores. Noturna, costuma se aproveitar da iluminação pública para encontrar e capturar insetos que são atraídos pela luz. No período reprodutivo vocaliza bastante, seu canto lembra um sapo-cururu. Durante o dia fica escondida em meio à folhagem densa das árvores ou em cavidades e buraco de árvores, local que também usa para nidificar.



Sovi (I. plumbea) descansando em parque urbano. Maringá/PR.
Foto: Willian Menq

Coruja-buraqueira (A. cunicularia) no alto de um poste. Maringá/PR.
Foto: Willian Menq

Águia-pescadora (P. haliaetus) pescando em lago no centro de Sobral/CE. Foto: Willian Menq

De todas as corujas, a mais popular e visualizada é, sem dúvidas, a coruja-buraqueira Athene cunicularia. É insetívora, habita terrenos baldios, gramados, beira de estradas e campos onde costuma ficar pousada no solo ou em poleiros a baixa altura (postes, mourões de cerca, muros), usa buracos no solo para nidificar e se abrigar. É ativa tanto durante o dia quanto a noite, por isso é facilmente visualizada pelas pessoas.

Reação de outras aves as aves de rapina
Gaviões e corujas, por serem predadores, são temidos por outras aves. Por isso, é muito comum observar bem-te-vis, beija-flores, sanhaços e outros pequenos pássaros “atacando” com voos rasantes as aves de rapina. Essa postura agressiva das aves contra um potencial predador é chamada de “mobbing”. Os pássaros reagindo desta forma conseguem alguns benefícios, como alertar a presença do gavião para outros indivíduos e claro, afastar o predador da área. Alguns estudos apontam que esses pássaros conseguem identificar o tipo de predador, desta forma, rapinantes mais ornitófagos (que comem aves) causam um alvoroço maior do que aquelas espécies que se alimentam de outras presas.

Predadores naturais e ameaças
No geral, os rapinantes não possuem muitos predadores nas cidades. Espécies menores como a coruja-buraqueira, falcão-quiriquiri e corujinha-do-mato certamente estão sujeitas a predação de rapinantes maiores como, por exemplo, o falcão-peregrino e alguns gaviões. Filhotes de gaviões e corujas podem ser predados por gatos, cachorros e por outras aves de rapina. O que mais ocorre são interações agonísticas entre as espécies, quase sempre ocasionadas por defesa territorial. Essas interações geralmente são iniciadas pela espécie mais fraca, que ao observar outro predador em sua área inicia voos rasantes até acuá-lo da área.

No entanto, os maiores problemas são outros, colisões contra vidraças, eletrocussões em fios de eletricidade, linhas de pipa com cerol e atropelamentos são os principais desafios enfrentados pelos rapinantes urbanos. Há também perseguições e abates indiscriminados contra alguns gaviões e corujas, que muitas vezes são acusados de predarem aves em gaiolas ou devido ao preconceito e crendices populares.

As aves de rapina exercem um papel fundamental nas cidades, controlando a população de roedores, insetos, aranhas, escorpiões e serpentes. Colaboram também no controle de infestações de pombos e pardais. Apesar de algumas espécies se adaptarem bem ao ambiente urbano, muitas outras estritamente florestais não têm a mesma sorte, e com o avanço da agropecuária e da urbanização acabam sendo extintas junto às florestas. Um desenvolvimento que siga modelos sustentáveis aliados à educação ambiental é fundamental para garantir a existência das aves de rapina nas cidades e claro, nas florestas.

Tabela 1. Lista das espécies mais comuns nos centros urbanos
Espécie Nome popular Habitat Status
Pandion haliaetus águia-pescadora LG Migratória
Elanoides forficatus gavião-tesoura FL Parc. Migratório
Elanus leucurus gavião-peneira AB Residente
Accipiter striatus gavião-miúdo FL Residente
Ictinia plumbea sovi FL Parc. Migratório
Rupornis magnirostris gavião-carijó ZU, FL, AB Residente
Geranoaetus albicaudatus gavião-de-rabo-branco ZU, AB Residente
Buteo brachyurus gavião-de-cauda-curta FL Residente
Caracara plancus caracará ZU, FL, AB, LG Residente
Milvago chimachima carrapateiro AB, LG, ZU Residente
Falco sparverius quiriquiri ZU, AB Residente
Falco femoralis falcão-de-coleira ZU, AB Residente
Falco peregrinus falcão-peregrino ZU Migratória
Coragyps atratus urubu-de-cabeça-preta ZU, AB, LG Residente
Tyto furcata suindara ZU, AB Residente
Megascops choliba corujinha-do-mato FL Residente
Athene cunicularia coruja-buraqueira
AB Residente
Legenda (Ambientes):
ZU - Centro das cidades, bairros mais urbanizados.
FL - Parques, bosques e pequenas matas inseridas nos centros urbanos.
AB - Terrenos baldios, campos de futebol, áreas industriais.
LG - Parque com lagos, lagoas, represas, estuários e áreas costeiras.

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2015) Aves de rapina urbanas - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/Rapineiras_urbanas.pdf > Acesso em: