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Aves de rapina em áreas urbanas

Texto: Willian Menq
Publicado em: 30 de junho de 2012.

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Gavião-peneira(E. leucurus).
Foto: Willian Menq

Hoje em dia não é muito difícil ver um falcão voando entre os prédios da cidade ou um gavião perseguindo pássaros nos quintais de casas. As aves de rapina podem ser encontradas em praticamente todos os centros urbanos do Brasil, e alguns dos fatores que permitem isso é o aumento da disponibilidade de presas (roedores, aves e insetos), locais para nidificação (cavidades artificiais, forro de casas) e baixo número de predadores e/ou competidores. Além disso, a perda dos habitats naturais “obrigou” algumas espécies a colonizar os ambientes urbanos.
Pelo menos 17 espécies de rapinantes são facilmente encontradas na maioria dos centros urbanos do Brasil (Tabela 1), e essas aves ocupam de formas diferentes os centros urbanos. Alguns gaviões habitam integralmente nas zonas urbanas, inclusive nidificando em estruturas artificiais (forro de casas, sacada de prédios); já outras espécies dependem de uma quantidade razoável de arborização urbana para viver e nidificar; outras habitam a periferia das cidades, terrenos baldios e áreas abertas, ocasionalmente transitando pelas áreas mais urbanizadas; há também espécies florestais que vivem confinadas nos parques e pequenas áreas verdes urbanas.

Espécies mais comuns

O caracará Caracara plancus é um dos rapinantes mais comuns nas áreas urbanas. Sua aparência lembra a de uma águia, sendo até confundido como tal, mas é aparentado aos falcões. É oportunista, costuma alimentar-se de animais atropelados, invertebrados em terrenos baldios, restos de comida nos lixões, ou saqueando filhotes de aves nos ninhos. Apesar de preferir construir ninhos no alto de árvores, pode nidificar no alto de prédios, sacadas e ninhos abandonados por outras aves. É comum vê-lo junto aos urubus, inclusive tem uma boa relação com eles, podendo até dividir carcaças e trocar “carícias” quando pousados, retirando carrapatos um do outro, comportamento chamado de “Allopreening”.

Outro falconídeo muito comum e muito bem adaptado nas cidades é o quiriquiri Falco sparverius. De porte pequeno, com 23 a 27 cm de comprimento, caça principalmente insetos e roedores. Devido ao pequeno tamanho, é pouco notado pelas pessoas, mas pode ser observado pousado em postes, fios de eletricidade e antenas, estruturas que usa para localizar e capturar sobre suas presas. Costuma utilizar forro de casas, torres e cavidades artificiais para nidificar. É um falcãozinho bastante valente, quando percebe a presença de um rapinante maior em seu território, imediatamente voa em direção ao intruso realizando voos rasantes contra o mesmo, às vezes até o atingindo.

Bastante parecido com o quiriquiri, tanto no uso de habitat quanto na aparência, é o falcão-de-coleira Falco femoralis. Este costuma caçar aves, roedores e insetos, tanto em solo quando em voo, por vezes realizando fantásticas perseguições áreas contra suas presas.



Quiriquiri (F. sparverius) procurando presas. Porto Alegre/RS.
Foto: Willian Menq

Caracará (C. plancus) pousado em mourão de cerca. Itamaraju/BA.
Foto: Sávio Drummond

Gavião-peneira (E. leucurus) caçando em área urbana. Londrina/PR.
Foto: Willian Menq

Dos gaviões, o gavião-carijó Rupornis magnirostris é um dos mais comuns. De porte médio, é um predador oportunista, caça roedores, aves e insetos. Gosta de ficar pousado no alto de antenas, árvores, fios e postes de iluminação para espreitar suas presas.  Por ser extremamente territorial, na época reprodutiva é conhecido por dar voos rasantes sobre a cabeça de pessoas que aproximam de seu ninho, geralmente construído no alto de árvores. Infelizmente, devido ao comportamento de “mãe protetora”, o gavião-carijó é frequentemente perseguido e abatido indiscriminadamente por pessoas ignorantes e incompreensivas.

Já o gavião-de-cauda-branca Geranoaetus albicaudatus e o gavião-caboclo Heterospizias meridionalis preferem as áreas mais abertas para caçar, como os terrenos baldios, campos e áreas antropizadas na periferia das cidades. O gavião-peneira Elanus leucurus também gosta de campos e terrenos baldios para caçar. Sua técnica de caça chama bastante a atenção, costuma “peneirar” no ar, ou seja, pairar no ar a baixa altura para localizar ratos e camundongos no solo. Assim, pode ser encontrado nos bairros menos urbanizados, campos e periferias da cidade. Gosta de sair para caçar no inicio da manhã e no final da tarde, próximo do anoitecer.

Nas áreas mais arborizadas das cidades pode ser encontrado o gavião-de-cauda-curta Buteo brachyurus, espécie de porte médio especializado na captura de aves. É bastante ágil e veloz, em suas caçadas costuma realizar rápidas perseguições sobre a copa das árvores ou abaixo delas. Normalmente se reproduz em árvores no interior de parques ou outras áreas verdes mais preservadas. Também gosta de planar sobre a cidade nas horas mais quentes da manhã, às vezes, junto aos urubus.

Outro gavião urbano bastante discreto é o gavião-miúdo Accipiter striatus. É um predador nato, ágil e esperto, sendo o “terror dos passarinhos”, realiza curtas e incríveis perseguições entre as árvores de parques e praças, e mesmo pequeno não hesita em atacar aves maior que seu próprio tamanho. Pode ser encontrado nos parques, bosques e nas zonas mais arborizadas das cidades.



Gavião-carijó (R. magnirostris) predando um pombo. Peabiru/PR.
Foto: Willian Menq

Gavião-miudo (A. striatus) em plena rua, predando rolinha, Maringá/PR. Foto: Itamar Cossina G. Hadnish

Gavião-de-cauda-curta (B. brachyurus) predando rolinha. Joinville/SC. Foto: Marcos Piske

Migratórios

No início da primavera, em muitas cidades do sul e sudeste do Brasil aparece o sovi Ictinia plumbea. Assim como o gavião-de-cauda-curta, o sovi só aparece nas cidades com razoável presença de bosques e áreas arborizadas.  É insetívoro, voa em grupo de dezenas de indivíduos, sobrevoa os parques e praças a procura de libélulas e outros insetos voadores. Da mesma forma que o sovi, o gavião-bombachinha-pequeno Harpagus diodon e o gavião-tesoura Elanoides forficatus, também migratórios, podem aparecer nos bosques urbanos a partir da primavera nas regiões sul e sudeste do país.

Nas grandes metrópoles ou nos municípios com razoável número de edifícios e antenas de telefonia, pode ser encontrado o falcão-peregrino Falco peregrinus. Migratório do hemisfério norte, é, sem dúvidas, o mais impressionante e eficaz predador de aves do ambiente urbano. Costuma fazer perseguições incríveis contra suas presas, em geral pombos, por vezes realizando “picados” no céu a mais de 300 km/h. Se reproduz no hemisfério norte, aparece no Brasil entre os meses de outubro e abril. Gosta de passar o dia descansando no alto de edifícios, torres de telefonia e plataformas altas de prédios, saindo para caçar nas áreas mais abertas da cidade (campos, parques com lagos, terrenos baldios, orla de praias) ou no alto dos edifícios, normalmente primeiras horas da manhã ou no final de tarde. Além das aves, o falcão-peregrino persegue morcegos em voo, as espécies prediletas são os morcegos-cauda-de-rato (Molossus spp), que são abundantes e no crepúsculo costumam voar de forma retilínea, se tornando excelentes presas para o falcão.


Sovi (I. plumbea) descansando em parque urbano. Maringá/PR.
Foto: Willian Menq

Falcão-peregrino (F. peregrinus) em seu poleiro habital de repouso. Maringá/PR. Foto: Willian Menq

Águia-pescadora (P. haliaetus) pescando em lago no centro de Sobral/CE. Foto: Willian Menq

Em cidades com presença de grandes lagos, rios ou estuários, pode ser encontrada a águia-pescadora Pandion haliaetus. Migratória, aparece no Brasil entre outubro a abril, e alguns indivíduos jovens ou não-reprodutivos podem permanecer o ano todo. Como é pescadora, habita grandes rios, lagos, lagoas, zonas costeiras, estuários e represas. Pode ser encontrada em diversas cidades, como Manaus/AM, Belém/PA, Rio de Janeiro/RJ, Florianópolis/SC, Porto Alegre/RS, Sobral/CE, Londrina/PR, etc.

Corujas urbanas

Das corujas urbanas, a suindara Tyto furcata é a mais comum. Ela passa o dia dormindo em torres de igreja, galpões, barracões e sótão de casas. Assim que anoitece, sai de seu dormitório para suas áreas de caça favoritas, como terrenos baldios com árvores esparsas, quintais de casas, campos de futebol, escolas, cemitérios, parques e praças da cidade ou deslocando-se para a periferia da cidade. Costuma empoleirar-se até localizar sua presa e atirar-se sobre ela. É conhecida por ser uma grande exterminadora de roedores, estima-se que durante o período de um ano um casal consome entre 1.720 e 3.700 ratos.

Outra coruja comum nas cidades mais arborizadas é a corujinha-do-mato Megascops choliba. É pequena, do tamanho de um sabiá, encontrada nos parques urbanos, bosques e até mesmo nos quintais de casas, desde que haja algumas árvores. Estritamente noturna, costuma aproveitar a iluminação pública para encontrar e capturar insetos que são atraídos pela luz. No período reprodutivo vocaliza bastante, seu canto lembra um sapo-cururu. Durante o dia fica escondida em meio à folhagem densa das árvores ou em cavidades e buraco de árvores, local que também usa para nidificar.

De todas as corujas, a mais popular e visualizada é, sem dúvidas, a coruja-buraqueira Athene cunicularia. É insetívora, habita terrenos baldios, gramados, beira de estradas e campos onde costuma ficar pousada no solo ou em poleiros a baixa altura (postes, mourões de cerca, muros), usa buracos no solo para nidificar e se abrigar. É ativa tanto durante o dia quanto a noite, por isso é facilmente visualizada pelas pessoas.



Suindara (Tyto furcata).
Caraguatatuba/SP.
Foto: Willian Menq

Coruja-buraqueira (A. cunicularia) no alto de um poste. Maringá/PR.
Foto: Willian Menq

Corujinha-do-mato (M. choliba).
Ribeirão Cascalheira/MT.
Foto: Willian Menq

Reação de outras aves as aves de rapina

Gaviões e corujas, por serem predadores, são temidos por outras aves. Por isso, é muito comum observar bem-te-vis, beija-flores, sanhaços e outros pequenos pássaros “atacando” com voos rasantes as aves de rapina. Essa postura agressiva das aves contra um potencial predador é chamada de “mobbing” (comportamento de tumulto, em português). Realizar esse comportamento contra um predador pode conferir algumas vantagens para os pássaros, como alertar a presença do gavião para outros indivíduos e claro, afastar o predador da área. Alguns estudos apontam que esses pássaros conseguem identificar o tipo de predador, desta forma, rapinantes mais ornitófagos (que comem aves) causam um alvoroço maior do que aquelas espécies que se alimentam de outras presas.

Predadores naturais e ameaças
No geral, os rapinantes não possuem muitos predadores nas cidades. Espécies menores como a coruja-buraqueira, falcão-quiriquiri e corujinha-do-mato certamente estão sujeitas a predação de rapinantes maiores como, por exemplo, o falcão-peregrino e alguns gaviões. Filhotes de gaviões e corujas podem ser predados por gatos, cachorros e por outras aves de rapina. O que mais ocorre são interações agonísticas entre as espécies, quase sempre ocasionadas por defesa territorial. Essas interações geralmente são iniciadas pela espécie mais fraca, que ao observar outro predador em sua área inicia voos rasantes até acuá-lo da área.

No entanto, os maiores problemas são outros, colisões contra vidraças, eletrocussões em fios de eletricidade, linhas de pipa com cerol e atropelamentos são os principais desafios enfrentados pelos rapinantes urbanos. Há também perseguições e abates indiscriminados contra alguns gaviões e corujas, que muitas vezes são acusados de predarem aves em gaiolas ou devido ao preconceito e crendices populares.

As aves de rapina exercem um papel fundamental nas cidades, controlando a população de roedores, insetos, aranhas, escorpiões e serpentes. Colaboram também no controle de infestações de pombos e pardais. Apesar de algumas espécies se adaptarem bem ao ambiente urbano, muitas outras estritamente florestais não têm a mesma sorte, e com o avanço da agropecuária e da urbanização acabam sendo extintas junto às florestas. Um desenvolvimento que siga modelos sustentáveis aliados à educação ambiental é fundamental para garantir a existência das aves de rapina nas cidades e claro, nas florestas.

Tabela 1. Lista das espécies mais comuns nos centros urbanos
Espécie Nome popular Habitat Status
Pandion haliaetus águia-pescadora LG Migratória
Elanoides forficatus gavião-tesoura FL Parc. Migratório
Elanus leucurus gavião-peneira AB Residente
Accipiter striatus gavião-miúdo FL Residente
Ictinia plumbea sovi FL Parc. Migratório
Rupornis magnirostris gavião-carijó ZU, FL, AB Residente
Geranoaetus albicaudatus gavião-de-rabo-branco ZU, AB Residente
Buteo brachyurus gavião-de-cauda-curta FL Residente
Caracara plancus caracará ZU, FL, AB, LG Residente
Milvago chimachima carrapateiro AB, LG, ZU Residente
Falco sparverius quiriquiri ZU, AB Residente
Falco femoralis falcão-de-coleira ZU, AB Residente
Falco peregrinus falcão-peregrino ZU Migratória
Coragyps atratus urubu-de-cabeça-preta ZU, AB, LG Residente
Tyto furcata suindara ZU, AB Residente
Megascops choliba corujinha-do-mato FL Residente
Athene cunicularia coruja-buraqueira
AB Residente

Legenda (Habitats):

ZU - Centro das cidades, bairros mais urbanizados.
FL - Parques, bosques e pequenas matas inseridas nos centros urbanos.
AB - Terrenos baldios, campos de futebol, áreas industriais.
LG - Parque com lagos, lagoas, represas, estuários e áreas costeiras.

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2012) Aves de rapina em áreas urbanas - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/ARB2_1.pdf > Acesso em: