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Corujas: Eficientes Predadoras


Corujão Bubo virginianus. Parque Estadual do Cantão. Foto: Bruno rennó

Texto de: Willian Menq
Publicado em: Fevereiro de 2010.

Caçar a noite é uma habilidade que as corujas possuem em maior grau do que qualquer outra ave de rapina. Enquanto os falcões, gaviões e águias dormem, elas ocupam o mesmo habitat e caçam muito das mesmas espécies de presas, porém, os métodos de caça são mais aperfeiçoados, por causa da ausência de luz. Muitas corujas são guiadas pela audição para localizar a presa, como é o caso da suindara Tyto alba. Ao caçar, essas espécies ficam empoleiradas silenciosamente de um galho, observando e escutando os ruídos vindos do chão, logo que percebe algum animal ou ouve o ruído, elas mergulham em direção a ele guiada pelo som, ela pára de bater as asas e plana, preparando para o ataque surpresa. Logo após a captura ela pousa em algum poleiro e o come. Muitas espécies costumam engolir a presa inteira. As partes não digeridas, como penas, pêlos e ossos são regurgitadas algum tempo depois de degluidos.

• Audição
A audição é apuradíssima, sendo capazes de perceber uma grande amplitude de freqüências sonoras. Os ouvidos das corujas ficam localizados nas laterais da cabeça, próximos aos olhos e são cobertos pelas penas formando um disco facial. Os tufos ou "falsa orelhas" visiveis em algumas espécies não são ouvidos e nem funcionam como orelhas. Algumas espécies, principalmente aquelas estritamente noturnas, apresentam uma assimetria na abertura dos ouvidos o que permite elas detectar a origem do som com maior precisão devido a diferença de tempo que o mesmo som atinge os ouvidos. Espécies como a Asio stygius e Tyto alba parecem ser as corujas brasileiras com audição mais apurada (Sick, 1997).

• Visão
As corujas possuem uma visão incrível. Seus olhos são grandes, representando de 1 a 5 % de seu peso, de tão grandes ficam praticamente imóveis dentro de seu crânio, campo visual limitado na qual é compensado com a excelente capacidade de girar a cabeça a quase 270 graus. A visão binocular, caracteristica de animais predadores, permite as corujas terem noção de profundidade e calcular as distâncias, ver em três dimensões (altura, largura e profundidade). Como são noturnas, seus olhos são eficientes na captura de luz. Sua córnea é grande e a pupila é bem sensível a luminosidade, se ajustando de acordo com a quantidade de luz disponível. Durante a noite a pupila se abre deixando entrar toda a luz possível, tendo uma visão noturna melhor do que qualquer outra criatura da floresta, facilitando as caçadas, principalmente em noites claras, de lua cheia, onde a luminosidade é maior. Assim como muitas aves, as corujas possuem 3 pálpebras, uma superior e inferior e uma terceira chamada de membrana nictitante. Esta membrana é uma fina camada de tecido que se fecha na diagonal, ajuda a coruja a limpar e proteger os olhos em situações de risco.


Detalhe da pena de voo de uma coruja, é possivel observar as extremidades serrilhadas, modificação que garante um voo silencioso.

Visão binocular das corujas. Com olhos voltados a frente elas tem noção de distância e profundidade.
(Imagem adaptada de: Owlpages.com)

• Penas e Voo
As corujas apresentam uma plumagem extremamente macia o que elimina a turbulência durante o voo, dando a elas um voo silencioso. Com isso as presas são capturadas antes mesmo de perceber a aproximação da coruja. Essa adaptação não está presente em algumas espécies que caçam durante o dia e nas espécies pescadoras.

• Bico e Garras
Possuem bicos curvos e garras muito fortes com unhas encurvadas e afiadas, que servem para capturar e matar as presas. O dedo externo (nº 4) pode virar voluntariamente para trás reforçando o hálux para segurar a presa além de aumentar a superfície de contato para captura da mesma. As estruturas ósseas das garras e dos tarsos das corujas são mais curtos e mais fortes do que se comparado a de outras aves, isso permite que suportem mais impacto quando capturam uma presa.

A maioria das espécies são noturnas, porém existem algumas que são diurnas e outras que podem ser vistas tanto durante o dia quanto a noite, como é o caso da coruja-buraqueira (Athene cunicularia). Geralmente as corujas consomem suas presas inteiras, despedançando-as somente quando estas são muito grandes. No estômago, as partes não digeríveis das presas, como carapaças de insetos, pêlos, penas, escamas e ossos, são regurgitadas pelas corujas formando uma “pelota”. Através das pelotas ornitólogos conseguem descobrir a dieta das corujas, quantidade e tipo de presas consumidas.

É grande a variedade de presas que as corujas se alimentam, há espécies pescadoras que se alimentam de peixes, existem aquelas especializadas na captura de aves, outras maiores capturam até mamíferos médios. No entanto, a maioria das espécies são especialistas na captura de roedores e invertebrados. Não temos duvida que as corujas sejam aves muito úteis, muitas são eficientes caçadoras de roedores e de insetos, espécies que consideradas pragas pelo homem, com isso auxiliam a manutenção do equilíbrio da natureza e colaboram com os agricultores combatendo pragas. A suindara por exemplo, estima-se que para o período de um ano, um casal consome entre 1720 e 3700 ratos, e entre 2660 e 5800 insetos, são verdadeiras "ratoeiras de asas".


Suindara com um roedor, essa espécie costuma carregar o alimento no bico para deixar as patas livres e facilitar o acesso a cavidades e outros ambientes.

Video : Veja a incrivel capacidade de vôo das corujas na quase completa ausência de luz.
(trecho de: BBC - Buhos - Cazadores silenciosos)

Toda coruja, possui seu próprio território de caça, que é atentamente protegido para evitar a presença de algum rival, porém, espécies que não são competidoras vivem no mesmo território pacificamente, caçando animais diferentes ou em horários diversos. A exemplo disso é a suindara Tyto alba que geralmente compartilha território com a corujinha-do-mato Megascops choliba, enquanto uma caça roedores pela noite, a corujinha-do-mato prefere capturar insetos.

Existem pouco mais de 212 espécies de corujas em todo o mundo. No Brasil, de acordo com o Comitê brasileiro de registros ornitológicos, existem 23 espécies. Algumas espécies são muito pequenas como é o caso dos representantes do gênero Glaucidium com 30 cm de envergadura, e outras imensas como o corujão Bubo virginianus com 1,5 m de envergadura e pesando mais de 1 kg. Na maioria das espécies machos e fêmeas são praticamente iguais, diferindo apenas no tamanho, sendo as fêmeas geralmente maiores.

Ao pulverizar com agrotóxicos suas plantações, os fazendeiros podem involuntariamente provocar a morte das corujas e outros predadores. Isso ocorre porque esses animais caçam insetos, aves e roedores que se envenenam com os inseticidas lançados para acabar com as pragas. O futuro das corujas, como a maioria dos animais selvagens, está diretamente ligado ao comportamento do homem, no sentido de preservá-las, Uso de agrotóxicos, desmatamento e destruição de habitats e falsas crendices em torno das corujas contribuem para o extermínio das corujas. Nessas condições, as espécies mais sensíveis necessitam serem respeitadas e preservadas.


É comum encontrar corujas atropeladas na estrada, são vitimas frequentes ja que algumas espécies costumam durante a noite pousar na rodovia em busca de insetos. Foto: Willian Menq.

 

 

Bibliografia:
BURTON, J.A. ed.1973. Ows of the world: their evolution, structure and ecology. Milano, Librex. 216 p.

CBRO. 2009. Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos. LISTAS DAS AVES DO BRASIL. Atualização: 9/8/2009

SICK, Helmut. 1997. Ornitologia Brasileira.