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Corujas do Brasil


Corujinha-do-mato, caburé, suindara e caburé-acanelado. Fotos: Willian Menq

Texto de: Willian Menq
Publicado em: 21 de Outubro de 2013.

Corujas, mochos e caburés merecem, de fato, o título de “rainhas de noite”. Toda sua morfologia, etologia e anatomia são adaptadas para viver, com sucesso, à noite. Sua visão é mais sensível e acurada que a maioria dos animais, conseguem perceber um pequeno animal na escuridão quase total, evitar galhos e outros obstáculos no meio da mata e capturar com precisão uma presa veloz.

Com uma excelente visão e olhos relativamente grandes, as corujas aproveitam o máximo da luminosidade noturna para enxergar, por isso, muitos animais como roedores e marsupiais diminuem suas atividades em noites claras para diminuir o risco de ser capturado por uma coruja. E, ao contrário do que se pensa, elas não são capazes de enxergar na ausência total de luz. A audição das corujas é tão poderosa que conseguem perceber um pequeno ruído distante na mais completa escuridão. Somado a isso, para garantir uma melhor eficiência na caça, elas apresentam penas macias e serrilhadas permitindo um voo silencioso e surpreendendo suas presas.

No Brasil ocorrem 23 espécies de corujas, algumas tão pequenas como a caburé-miudinho (Glaucidium minutissimum), com cerca de 60 g, até aquelas de grande porte como a coruja jacurutu (Bubo virginianus) com mais de 1 kg. As corujas habitam todos os biomas do nosso país, desde as frondosas florestas da Mata Atlântica, Amazônia até as regiões mais secas, como o Cerrado e Caatinga. A maioria vive nas florestas, outras preferem áreas abertas, campos e restingas, como é o caso da coruja-buraqueira (Athene cunicularia), suindara (Tyto furcata), mocho-dos-banhados (Asio flammeus) e mocho-orelhudo (Asio clamator). Esta ultima espécie também é associada a bordas de matas.

Das espécies de ampla distribuição, a coruja-buraqueira (Athene cunicularia) é a mais popular, por ser diurna e adaptada ao ambiente urbano, é facilmente observada pousada em fios de postes, mourões de cercas, ou pousada no solo. Outra espécie urbana muito popular é a coruja-de-igreja (Tyto furcata), conhecida também como suindara. Vive principalmente nas cidades, usando forros de casas, sótão, celeiros e torres de igrejas para dormir ou usar como ninho. Menos conhecida, mas muito comum é a corujinha-do-mato (Megascops choliba), facilmente encontrada em parques urbanos, sítios e bosques. Às vezes, durante a noite, pode ser vista próxima de postes capturando insetos atraídos pela iluminação artificial. Já a corujinha-caburé (Glaucidium brasilianum), também comum, com pouco mais de 16 cm de comprimento, é uma especialista em aves. Apesar do pequeno tamanho, não hesita em caçar passarinhos de seu tamanho, às vezes até maior. Interessante é que ela apresenta “olhos falsos” na nuca, penas mais escuras formando duas manchas que parecem dois olhos, e desse modo, confundem qualquer outra ave parecendo estar sempre de frente.

Na Mata Atlântica ocorrem algumas espécies exclusivas do bioma, como é o caso da caburé-miudinho (Glaucidium minutissimum), corujinha-do-sul (Megascops sanctaecatarinae), coruja-listrada (Strix hylophila) e murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana). A corujinha-do-sul (Megascops sanctaecatarinae) está limitada a porção sul da floresta atlântica, ocorrendo no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Já na Floresta Amazônica pode ser encontrada a caburé-da-amazônia (Glaucidium hardyi), espécie rara e de difícil observação, gosta de ficar na copa das árvores caçando aves e outros pequenos animais. Também na Amazônia, ocorrem outras corujas endêmicas, como a corujinha-orelhuda (Megascops watsonii), corujinha-relógio (Megascops usta), etc.


Coruja-buraqueira (A. cunicularia)
Florianópolis/SC

Foto: Willian Menq

Corujinha-do-mato (M. choliba)
Tuneiras do Oeste/PR

Foto: Willian Menq

Detalhes dos "olhos falsos" do caburé (G. brasilianum)
Foto:
Douglas P. R. Fernandes


Coruja-listrada (S. hylophila)
Campos do Jordão/SP

Foto: Willian Menq

Caburé (G. brasilianum)
Ribeirão Cascalheira/MT

Foto: Willian Menq

Corujão Jacurutu (B. virginianus)
Santa Margarida do Sul/RS
Foto:
José Paulo Dias

As mais raras
Algumas corujas são extremamente raras e de difícil observação, seja pelo seu comportamento tímido, distribuição restrita ou pela raridade natural da espécie. A caburé-acanelado (Aegolius harrisii) é uma dessas espécies raras, ocorre em grande parte do Brasil e habita os mais variados ambientes, florestas, mata rala, cerrado, alternando com clareiras e pastagens. Esta ave conta com poucos registros no Brasil e carece de estudos sobre sua biologia, sendo apelidada de "espécie-fantasma", ou seja, de difícil detecção. Acredita-se que ela seja mais discreta do que rara, talvez por apresentar deslocamentos altitudinais sazonais, ter períodos restritos de atividade, vocalizar pouco e baixo, além de problemas metodológicos na procura da espécie. Outra espécie rara é a coruja-preta (Strix huhula), habita florestas altas, borda de matas, árvores em clareiras e ocasionalmente encontrada próxima a habitações humanas. Também conta com sua biologia pouco conhecida, como a maioria dos registros são bem pontuais, talvez ela seja naturalmente rara com baixas densidades populacionais.

No nordeste brasileiro ocorre uma das corujas mais raras e ameaçadas de extinção do mundo, a caburé-do-pernambuco (Glaucidium mooreorum). Endêmica do Brasil, esta estrita a dois pequenos remanescentes de floresta atlântica do Centro de Endemismo Pernambuco: na Reserva Biológica Saltinho e na Usina Trapiche, com 565 e 100 ha respectivamente. Desde a sua descoberta, em 2002, a coruja nunca mais foi registrada, possivelmente extinta. Também no nordeste existe uma subspécie de jacurutu pouco conhecida, é a jacurutu da Caatinga (Bubo virginianus deserti). O primeiro registro de jacurutu na Caatinga data de março de 1903, coletada nos arredores de Juazeiro da Bahia e descrita como uma nova subespécie. Desde então, pouquíssimos foram os registros nesse bioma.


Caburé-acanelado (A. harrisii)
Campos do Jordão/SP.

Foto: Willian Menq

Coruja-preta (S. huhula)
Cocalinho/MT.

Foto: Willian Menq

Ilustração da caburé-de-pernambuco
(Glaucidium mooreorum)
Arte:
Carl Christian

Reprodução e comportamento
No Brasil, o período reprodutivo das corujas tem início no começo da primavera, enquanto em regiões mais quentes com grande oferta de presas esse período ocorre durante o ano todo. É nessa época que as corujas vocalizam bastante, machos e fêmeas cantam e chamam um aos outros a procura de um parceiro para se reproduzir. Os machos selecionam o território de acordo com o potencial para caça e locais apropriados para ninhos. Além de tentar conquistar a fêmea pelo seu território, os machos podem oferecer uma presa, como um roedor ou um inseto, como presente de núpcias.

As corujas não constroem ninhos, aproveitam cavidades ou ninhos feitos por outros animais para nidificar. A coruja-buraqueira (Athene cunicularia) nidifica em cavidades e buracos no solo feitos por outros animais, podendo ela ampliar os buracos usando ambos os pés. A coruja-dos-banhados (Asio flammeus) prefere utilizar depressões no chão entre a vegetação para nidificar, enquanto algumas podem usar cupinzeiros como ninho, como é o caso da caburé (G. brasilianum). A maioria das espécies florestais utilizam de cavidades em árvores para nidificar.

No período reprodutivo, as corujas defendem ativamente o ninho, emitindo vocalizações de alarme e dando vôos rasantes sobre os invasores. Embora algumas espécies sejam predadoras de topo, corujas menores podem ser predadas por outras aves de rapina e também por mamíferos carnívoros. Além das defesas ativas citadas, algumas corujas usam estratégias passivas de defesa. A coruja-orelhuda (Asio clamator), por exemplo, costuma "inflar" o corpo eriçando as penas e também estala o bico  na tentativa de intimidar o predador.


Corujinha-do-sul (M. sanctaecatarinae) nidificando em cavidade de árvore
Foto:
Tony Bichinski

Filhote de mocho-orelhudo (A. clamator) em posição de "intimidação" contra intrusos.
Foto:
Fernando Araújo

Ninho de murucututu (P. perspicillata) em fenda de um paredão rochoso.
Foto:
Olívia Suzuki

A maioria das corujas são ativas à noite. Algumas espécies como a caburé (Glaucidium brasilianum) estão ativas no início da manhã ou ao anoitecer, embora algumas (como a coruja-buraqueira) são ativas durante o dia. Durante o dia, as corujas noturnas cochilam em seus ninhos ou escondidas na folhagem das árvores, por vezes descobertas por bem-te-vis e beija-flores. Nesses casos, as aves em geral (principalmente os passeriformes) ao detectar uma coruja costumam fazer chamados de alerta, vocalizando bastante também a dar vôos agressivos contra a coruja até espantá-la do local, esse comportamento é chamado de "mobbing behaviour" (comportamento de tumulto). Algumas espécies de corujas podem até se aproveitar desse comportamento de tumulto para caçar uma ave.

Ameaças e Conservação
Na maioria das listas de espécies ameaçadas de extinção, as corujas são classificadas como "espécie com dados desconhecidos" ou simplesmente estão ausentes, refletindo a falta de informações acerca da biologia e distribuição das mesmas, impossibilitando uma definição do seu real status de conservação. A maioria das causas de mortalidade não-naturais dessas aves são ocasionadas pela caça indiscriminada, eletrocussões, intoxicações, colisões, atropelamentos e acidentes em cercas com arame farpado. A maior causa do possível declínio nas populações de corujas é provavelmente a degradação de seu ambiente natural, principalmente das espécies florestais. São predadores e, portanto mais sensíveis a mudanças ambientais do que animais que ocupam outras posições na cadeia alimentar.


Corujinha-do-mato (M. choliba) às margens de uma rodovia.
Foto: Willian Menq

Coruja-buraqueira (A. cunicularia) regurgitando sua pelota.
Foto: Willian Menq

Murucututu (P. koeniswaldiana) alimentando-se de um beija-flor. Foto: Marcelo Dutra

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