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Aves de rapina vagantes, mal documentadas ou
com possível
ocorrência no Brasil


Gavião-de-dorso-vermelho (Geranoaetus polyosoma). Espécie de ocorrência incerta no Brasil, contando
com apenas três avistamentos não documentados no país. Foto:
Antonio Pessoa


Texto de:
Willian Menq
Publicado em: 20 de Janeiro de 2017.

No Brasil já foram registradas 99 espécies de aves de rapina (Piacentini et al. 2015). Dessas, três são aves vagantes, como é o caso do milhafre-preto (Milvus migrans), devidamente documentado no nordeste do país. Outras, no entanto, estão no enigmático grupo dos rapinantes de ocorrência incerta no Brasil, sem nenhuma evidência documental existente ou disponível.

Espécies vagantes
Aves vagantes são aquelas com registros ocasionais no Brasil, na maioria das vezes são indivíduos que se perderam em sua rota migratória, trazidos ao país devido a fortes ventos, ciclones ou outros fatores naturais. Três rapinantes da lista brasileira são classificados como vagantes: o esmerilhão-europeu (Falco aesalon), o peneireiro-de-dorso-malhado (Falco tinnunculus) e o milhafre-preto (Milvus migrans).

O peneireiro-de-dorso-malhado (F. tinnunculus) e o milhafre-preto (M. migrans) são oriundos do Velho Mundo, onde realizam migrações regulares entre a Europa e África, Ásia e Oceania. No Brasil, as duas espécies foram registradas no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, localizado a cerca de 1.100 km da costa nordestina e a 650 km de Fernando de Noronha (Bencke et al. 2005, Santana & Pinheiro 2010, Nunes et al. 2015). No arquipélago, o F. tinnunculus foi visto pela primeira vez em janeiro de 2005, e o M. migrans em maio de 2014. Provavelmente são indivíduos que saíram de suas rotas migratórias habituais devido aos fortes ventos sudoeste, responsáveis pelo deslocamento de várias outras aves da Europa e África para os arquipélagos do nordeste brasileiro.



Milhafre-preto (Milvus migrans) no P. N. Monfrague/Espanha. Espécie recentemente registrada no Brasil,
no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, próximo da costa nordestina.
Foto: Willian Menq

O esmerilhão-europeu (F. aesalon), anteriormente classificado como subespécie de Falco columbarius (Fuchs et al. 2015, Piacentini et al. 2016), também do Velho Mundo, conta com um único registro da década de 60, de um indivíduo resgatado em um navio holandês a poucos quilômetros da costa da Bahia, vindo da região paleártica (Islândia) (Sick 1997).


Não é vagante! O esmerilhão (F. columbarius), embora classificado como vagante nas últimas listas do CBRO (CBRO 2014, Piacentini et al. 2015), aparentemente é um migrante regular no norte do país. Há razoáveis registros da espécie no Brasil, provavelmente seja subamostrada devido a sua baixa abundância nos períodos de invernagem na América do Sul e a sua semelhança com outros falcões, como sugerido por Dornas & Pinheiro (2014).


Espécies mal documentadas

Outras três aves de rapina estão no enigmático grupo das espécies mal documentadas ou de ocorrência incerta no Brasil: o condor-dos-andes (Vultur gryphus), o gavião-de-dorso-vermelho (Geranoaetus polyosoma) e o gavião-caranguejeiro-negro (Buteogallus anthracinus). São aves que nunca foram fotografadas ou gravadas em território brasileiro, ou seja, sem nenhuma evidência documental existente ou disponível.

O condor-dos-andes (V. gryphus), como o próprio nome diz, habita toda a região andina, desde a Venezuela até a Terra do Fogo. A informação original sobre a ocorrência dessa espécie no Brasil foi fornecida a Helmut Sick pelo cineasta sueco Arne Sucksdorff, que relatou a existência de condores em uma ilha fluvial chamada “Ilha dos urubus”, no Rio Jauru, oeste do Mato Grosso. Sick (1979) narra que V. gryphus pode visitar a região do rio Jauru na estação seca (maio/junho), em busca de carcaças de gado trazidas pelas correntezas do rio. Outra informação de V. gryphus no país foi divulgada pelo Almirante Ibsen de Gusmão Câmara (em Straube et al. 1991), que descreveu o caso de um indivíduo abatido por militares nos arredores do extinto Parque Nacional de Sete Quedas, em Guaíra/PR, na década de 20. Há também um relato “não confirmado” de V. gryphus feito por um morador local na Reserva Extrativista do Alto Juruá, no Acre, (Whittaker et al. 2002). Porém, o relato o Alto Juruá é duvidoso, provavelmente tenha sido um erro de identificação, como levantado por Guilherme (2016).

O gavião-de-dorso-vermelho (G. polyosoma), natural da região andina e zonas temperadas da Argentina e Uruguai, é outro grande enigma. Conta com três possíveis avistamentos no Brasil, sendo o último realizado por Pacheco (2004) na região de Cabo Frio/RJ, em outubro de 1985. Pacheco (2004) descreve detalhadamente o encontro com um indivíduo adulto, citando algumas características morfológicas que considero conclusivas para a diagnose da espécie, como o dorso todo castanho-intenso e não apenas limitado aos “ombros”, como ocorre no gavião-de-rabo-branco (Geranoaetus albicaudatus). Os outros dois relatos de G. polyosoma foram feitos por Reichholf (1974), que mencionou, sem circunstanciar e sem fornecer localidades ou datas específicas, o encontro com seis indivíduos no sul do Mato Grosso e um indivíduo no litoral de Santa Catarina, durante censos avifaunísticos entre fevereiro e novembro de 1970.



Gavião-caranguejeiro-negro (Buteogallus anthracinus) em Tárcoles, Costa Rica. Espécie possuí ocorrência
incerta no Brasil, nunca foi devidamente registrado com fotos ou gravações no país.
Foto: Willian Menq


No norte do Brasil, mais especificamente na fronteira entre Roraima e Guiana, há um registro antigo de gavião-caranguejeiro-negro (Buteogallus anthracinus), feito por Nascimento & Antas (1991). Porém, não há nenhuma documentação ou descrição detalhada desse registro. O B. anthracinus ocorre do sudeste dos Estados Unidos, América Central até a Colômbia e Guianas, habitando florestas ribeirinhas, manguezais e áreas alagadiças. Na Venezuela existe um registro antigo de B. anthracinus (também não documentado) a pouco mais de 150 km da fronteira com Roraima (Roberson et al. 1985).

Possíveis erros de identificação em algumas dessas menções devem ser considerados. Observadores pouco experientes ou desatentos podem confundir, por exemplo, o jovem urubu-rei (Sarcoramphus papa) com o condor-dos-andes (V. gryphus). O gavião-caranguejeiro-negro (B. anthracinus), tanto adulto quanto o jovem, pode ser confundido com o gavião-preto (Urubitinga urubitinga) ou com a águia-solitária (Buteogallus solitarius). Já o gavião-de-dorso-vermelho (G. polyosoma), em voo alto, é quase indistinguível do gavião-de-rabo-branco (G. albicaudatus); a silhueta, a cauda e as cores do ventre são praticamente as mesmas em ambas as espécies adultas. Até mesmo as bochechas e a garganta branca não são diagnoses confiáveis para G. polyosoma em voo alto, já que alguns indivíduos de G. albicaudatus apresentam as mesmas características.

Fato é, que, nenhuma dessas espécies ‘mal documentadas’ foram devidamente registradas, fotografas ou gravadas em território brasileiro. Por essa razão, o CBRO aloca essas espécies na lista secundária de aves do Brasil.


Registrando novas espécies para o Brasil

O falcãozinho-cinza (Spiziapteryx circumcincta), já pertenceu a lista de aves do Brasil (CBRO 2005). Em outubro de 1998, um grupo de observadores alegaram ter avistado um indivíduo no município de Herval/RS. No entanto, o registro não foi documentado e as descrições fornecidas pelos observadores eram inconclusivas para uma identificação segura (Bencke et al. 2010). Assim, considerando a incerteza do registro, a espécie foi retirada da lista de aves brasileiras em 2014 (CBRO 2014).



Falcãozinho-cinza (Spiziapteryx circumcincta) em Córdoba, Argentina. Espécie conta com registro inconclusivo no sul do Brasil. Foto: Alejandro Olmos

Área de ocorrência do falcãozinho-cinza (Spiziapteryx circumcincta) na América do Sul e registros
próximos do território brasileiro.

Ainda assim, há boas probabilidades de encontrar S. circumcincta no Brasil, especialmente no extremo oeste do Rio do Grande do Sul (região do Espinilho) e no chaco sul-mato-grossense, onde existem hábitats propícios e registros próximos da fronteira brasileira. S. circumcincta ocorre em savanas, estepes arbustivas, bosques xerófilos e áreas semiáridas da Patagônia argentina ao oeste do Paraguai e sul da Bolívia, tipicamente habitando as formações de arvoretas espinhentas que caracterizam o Espinal e o Chaco (Bierregaard et al. 2017).

Além do falcãozinho-cinza, há razoáveis probabilidades de descobrir outras espécies de rapinantes para o país, como a coruja-do-chaco (Strix chacoensis), águia-solitária (Buteogallus solitarius), águia-poma (Spizaetus isidori) e tartaranhão-azulado (Circus cyaneus), que apesar das limitações ecológicas e fitogeográficas, apresentam distribuição/registros em áreas próximas da fronteira brasileira. A águia-solitária (B. solitarius), por exemplo, natural das regiões montanhosas dos Andes e América Central, conta com observações recentes na Venezuela, a pouco mais de 100 km da fronteira com Roraima (Naveda-Rodriguez & Lugo 2014). No Peru, alguns pontos de sua distribuição ficam a cerca de 200 km da fronteira com o Acre (Bierregaard et al. 2016), distâncias relativamente pequenas para uma águia planadora.



Águia-solitária (B. solitarius) registrada
na Venezula, próxima da fronteira com o Brasil.
Foto: Muse Björklund (Naveda-Rodriguez & Lugo 2014)

Área de ocorrência da águia-solitária (B. solitarius)
na América do Sul e registros próximos do
território brasileiro.


Rapinantes migratórios da Europa e África, como o milhafre-real (Milvus milvus), águia-cobreira (Circaetus gallicus), tartaranhão-dos-pauis (Circus aeruginosus), entre outros, podem naturalmente aparecer em ilhas ou no litoral brasileiro, especialmente na região nordeste, trazidos por tempestades ou de “carona” em embarcações.


Panorama geral das aves de rapina com registros ocasionais, duvidosos ou de
possível coorrência no Brasil. Arte: Willian Menq.



Referências bibliográficas:

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Bencke, G. A.; Ott, P.; Moreno, I.; Tavares, M. and Caon, G. (2005) Old World birds new to the Brazilian territory recorded in the Archipelago of São Pedro and São Paulo, equatorial Atlantic Ocean. Ararajuba, 13(1):126‑129.

Bierregaard, R.O., Jr, Christie, D.A., Kirwan, G.M. & Sharpe, C.J. (2016) Black Solitary Eagle (Buteogallus solitarius). In: del Hoyo, J., Elliott, A., Sargatal, J., Christie, D.A. & de Juana, E. (eds.). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions, Barcelona. (retrieved from http://www.hbw.com/node/53118 on 30 September 2016).

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Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (2005) Listas das aves do Brasil. Versão 1/2/2005.

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Sick, H. (1979) Vultur gryphus, first Brazil record. Bull. B.O.C. 99:115-120

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Whittaker, A.; Oren, D. C.; Pacheco, J. F.; Parrini, R. & Minns, J. C. 2002. Aves registradas na Reserva extrativista do Alto Juruá. In: M. C. Cunha e M. B. Almeida (Orgs.): Enciclopédia da Floresta. O Alto Juruá: práticas e conhecimentos das populações: 81-99. Companhia das Letras, São Paulo.

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2017) Aves de rapina vagantes, mal documentadas ou com possível ocorrência no Brasil - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/rapinantes_maldoc.pdf > Acesso em: