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Associação de forrageio entre aves de rapina e mamíferos


Gaviãozinho pálido (Melierax canorus) e o texugo-do-mel (Mellivora capensis).
Foto:
Kate de Pinna

Texto: Willian Menq
Publicado em: 24 de setembro de 2013.

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Aves de rapina seguindo mamíferos para forragear é um tipo de associação pouco documentada na natureza. Rapinantes que vivem em ambientes abertos podem acompanhar pequenos mamíferos carnívoros para caçar presas espantadas por eles (e.g. Borello & Borello 1986, Silveira et al. 1997) enquanto algumas espécies florestais seguem macacos e sagüis para caçar insetos e pequenos vertebrados (e.g. Greenlaw 1967, Fontaine 1980, Ferrari 1990). Associações do tipo podem surgir por motivos variados, como por exemplo, menor risco de predação e maior sucesso no forrageamento.  Estas associações podem ser classificadas de três formas, dependendo da forma que são distribuídos os benefícios: (1) protocooperação, em que os membros de ambas as espécies são beneficiados com a associação, (2) o parasitismo, onde uma espécie é beneficiada e outra prejudicada, (3) comensalismo, onde uma espécie é beneficiada e a outra não é afetada, sendo esta ultima a mais frequente nos rapinantes.

No continente Africano, uma das associações mais relatadas é entre o gaviãozinho pálido (Melierax canorus) (‘Pale Chanting-goshawk’ em inglês) e o texugo-do-mel (Mellivora capensis). Desde a década de 70, várias observações de Melierax canorus caçando ao lado dos texugos foram feitas no Quênia, Botswana, Namíbia e África do Sul (Borello & Borello 1986). O texugo-do-mel é um excelente escavador, retirando roedores e lagartos de seus esconderijos subterrâneos, presa ideal para o gavião, que fica sempre empoleirado próximo aos texugos. Além de texugos, também foram relatadas associações do Melierax canorus com mangustos (Galerella sanguinea) e algumas cobras (Borello & Borello 1990). Já na Namíbia, King & Cowlishaw (2008) registraram e monitoraram por sete meses a associação do falcão-das-rochas (Falco rupicolus) com babuínos (Papio ursinus). Durante as associações, os falcões foram vistos capturar gafanhotos e grilos espantados pelos babuínos. Os autores descobriram que os eventos não eram ocasionais e variavam de acordo com a estação do ano.


Grupo de gaviãozinho pálido (Melierax canorus) acompanhando um texugo-do-mel (Mellivora capensis).
Foto:
Colin Paterson-Jones

Gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis). Espécie já foi registrada associando-se a saguis (Callithrix sp).
Foto: Willian Menq

Na América do Sul, também existem alguns registros de associações entre aves de rapina e mamíferos, principalmente envolvendo macacos e sagüis. No estado de Minas Gerais, Ferrari (1990) observou a associação de gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis) e do sovi (Ictinia plumbea) com um grupo de sagüis (Callithrix flaviceps). Durante uma semana de observação, as duas espécies foram observadas capturando cigarras espantadas pela atividade de um grupo de onze saguis.

O gavião-ripina (Harpagus bidentatus), espécie pequena e insetívora, em algumas regiões de sua distribuição, costuma seguir regularmente bandos de macacos, principalmente macacos-prego (Cebus sp) e micos (Saimiri sp) (Greenlaw 1967, Fontaine 1980). Na maioria das observações feitas na região de Manaus/AM, os gaviões-ripina costumavam se posicionar junto ou abaixo dos bandos de macacos, raramente acima, capturando cigarras em voo espantadas pelos macacos (Egler 1991). Oinski & Timm (1985) realizou algumas observações interessantes da associação entre o gavião-ripina e micos (Saimiri oerstedi). Segundo os autores, os micos conseguem reconhecer as folhas modificadas que morcegos (Phyllostomidae) utilizam para dormir e nidificar. Com isso, os macacos procuram por essas folhas para capturar morcegos. Morcegos que escapam da predação dos micos são freqüentemente capturados pelos gaviões-ripina que seguem os micos durante o forrageamento.

Na Guiana Francesa, o gavião-branco (Pseudastur albicollis) foi registrado seguindo grupos de macacos-prego (Cebus apella) para capturar cobras e lagartos espantados pelos primatas. Foi visualizado o gavião voando por baixo da floresta, de 10 e 20 m do chão, pousando sempre a frente dos bandos de macacos em deslocamento (Booth-Binczik et al. 2004). Também foi visto o gavião-branco associando-se a quatis (Nasua nasua) no Parque Nacional de Tikal, Guatemala (Booth-Binczik et al. 2004). Na Costa Rica, Warketin (1993) observou um casal de gavião-miúdo (Accipiter striatus) seguindo um bando de macacos-prego-de-cara-branca (Cebus capucinus) que se deslocava em um manguezal. Ambas as aves ficavam posicionadas em poleiros próximos aos macacos, prontas para abater qualquer presa potencial que fosse espantada pelos macacos, mas neste caso nenhum ataque do A. striatus foi observado.

Registro da associação entre o falcão-de-coleira (Falco femoralis) e lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) em Ribeirão Cascalheira, leste do Mato Grosso. Fotos: Willian Menq

Durante uma expedição no leste do Mato Grosso, observei uma associação, já descrita por outros autores, do falcão-de-coleira (Falco femoralis) com o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). Conforme o lobo caminhava pela vegetação baixa do Cerrado, o falcão o acompanhava, pousando em poleiros próximos, esperando presas potenciais como codornas e rolinhas serem espantadas pelas atividades de caça do lobo. Silveira et al. (1997) descreveu a mesma associação no Parque Nacional das Emas, em Goiás. A maior parte das presas atacadas ou espantadas pelo lobo, eram codornas (Nothura sp). Nas vezes em que o lobo não conseguia sucesso, os falcões atacavam a mesma presa, que exausta, sucumbia ao ataque dos falcões Assim, os falcões se mostravam animais bastante oportunistas, capturando os animais que escapavam do ataque do canídeo.

O conhecimento sobre a associação de aves de rapina com mamíferos é muito escasso. Certamente muitas outras espécies de gaviões, falcões e até mesmo de corujas se associem a felinos, canídeos, primatas e outros mamíferos para forragear e capturar presas espantadas pelos mesmos.

 

Referências Bibliográficas

Boinski, S., & R. M. Timm. (1985) Predation by Squirrel Monkeys and Double-toothed Kites on Tent-making Bats. American Journal of Primatology 9:121-128.

Booth-Binczik, S.D., G.A. Binczik, and R.F. Labisky. (2004). A possible foraging association between White Hawks and White-nosed Coatis. Wilson Bulletin 116:101-103.

Borello, W., & R. Borello. (1986) Chanting Goshawks foraging with Honey Badger. Babbler 12:25.

Borello, W., & R. Borello. (1990) Pale Chanting-goshawk associating with Slender Mongoose. Babbler 19:17.

Egler, S.G. (1991) Double-toothed Kites following tamarins. Wilson Bulletin 103:510-512.

Ferrari, S.F. (1990) A Foraging Association between Two Kite Species (Ictinea plumbea and Leptodon cayanensis) and Buffy-Headed Marmosets (Callithrix flaviceps) in Southeastern Brazil.The Condor, 92(3):781-783.

Fontaine, R. (1980) Observations on the foraging association of Double-Toothed Kites and White-Faced Capuchin Monkeys. The Auk, 97(1):94-98.

Greenlaw, J.S. (1967) Foraging behavior of the Double-toothed Kite in association with White-faced Monkeys. Auk 84:596-597.

King, A. J., & G. Cowlishaw. (2008). Foraging opportunities drive interspecific associations between Rock Kestrels and Desert Baboons. Journal of Zoology 277:111-118.

Silveira, L. , Jácomo, A. T. A., Rodrigues, F. H. G. , Crawshaw-Junior, P. G. (1997) Hunting Association between the Aplomado Falcon (Falco femoralis) and the Maned Wolf (Chrysocyon brachyurus) in Emas National Park, Central Brazil. The Condor. The Cooper Ornithological Socety. 99 : 201 – 202.

Warkentin, I. G. (1993) Presumptive foraging association between Sharp-shinned Hawks (Accipiter striatus) and White-faced Capuchin Monkeys (Cebus capucinus). Journal of Raptor Research 27:46-47.

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2013) Associação de forrageio entre rapinantes e mamíferos - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/rapinas_mamiferos.pdf > Acesso em: