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Relações interespecíficas nas aves de rapina
Competição, Predação entre espécies, Mobbing, Cleptoparasitismo, etc.


Caracará (C. plancus) brigando com gavião-de-asa-telha (Parabuteo unicinctus). Foto: J. Rich

Texto de: Willian Menq
Publicado em: 26 de Junho de 2014.
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As aves de rapina, em geral, costumam conviver com outras rapineiras sem maiores problemas, e essa coexistência normalmente é viabilizada pela diferenciação da dieta, comportamento ou mesmo pela morfologia. Mas nem sempre o convívio entre os rapinantes é pacífico, de acordo com Jaksic et al. (1981) essa segregação ecológica entre os aves de rapina pode ser regulada por competição, interações agonísticas e até mesmo pela predação.

Competição
A competição significa concorrer pela obtenção de um mesmo recurso do ambiente. Nas aves de rapina, a competição acontece geralmente por território, por locais para nidificação, abrigo, alimento, etc. Um exemplo de competição acirrada nas florestas brasileiras é a dos ocos de árvores para nidificação, falcões-florestais (Micrastur spp.), corujas, araras, gambás e outros animais costumam utilizar no mesmo período do ano esses ocos para nidificarem. O falcão-relógio (Micrastur semitorquatus) ao encontrar um ninho habitado por outra ave, pode inclusive matar os filhotes para ocupar o abrigo. Porém, as interações de competições são dificeis de serem registradas, pois muitos outros motivos podem estar envolvidos nas interações entre rapinantes, como mobbing, predação, etc.

Mobbing
Como são predadoras, as aves de rapina são temidas por outras aves, inclusive por outras rapineiras. Por esta razão, são frequentemente atacadas e perseguidas por espécies menores. Essa postura antipredatória e agressiva das aves contra um potencial predador é chamada de “Mobbing”. Raramente os rapinantes respondem aos ataques, embora algumas espécies podem se aproveitar do momento para capturar uma presa. É comum ver gaviões menores atacando rapinantes maiores, quiriquiri acuando caracarás, gaviões-carijós; falcões-de-coleira contra gaviões-de-cauda-branca; e etc.

O comportamento de defesa territorial é o mais comum e fácil de observar na natureza, principalmente no período reprodutivo, quando os rapineiros defendem a área do ninho a qualquer custo. O ornitólogo Jorge Albuquerque, durante seu doutorado nos EUA, relatou um ataque de falcão-peregrino contra uma águia-real (Aquila chrysaetos), espécie que pesa 6 vezes mais que ele. A imensa águia foi atacada quando voava próximo a área do ninho do falcão, este então imediatamente acuou a águia com rasantes, em uma das investidas atingiu a mesma na asa, mas nada aconteceu. Relato parecido foi do biólogo Igor Camacho, em São Gonçalo/RJ, onde um gavião-pombo-pequeno (Amadonastur lacernulata) recebeu investidas agresssivas de um gavião-de-cauda-curta (Buteo brachyurus) que nidificava no local. O sovi (Ictinia plumbea) é outro gavião extremamente agressivo no período reprodutivo, em Peabiru/PR pude observar este gavião dando investidas em qualquer ave de “silhueta ameaçadora” que voava próximo ao seu ninho, como ele tem um voo ágil, rapidamente alçava voo dando rasantes sobre gaviões-carijó, caracarás e até urubus.

Espécies de comportamento social que nidificam em colônias, como é o caso do gavião-tesoura (Elanoides forficatus), costumam unir-se em bandos para acuar uma potencial ameaça próxima a seus ninhos. Azevedo & Di-Bernardo (2005) observaram na ilha de SC, gaviões-tesoura se reunindo em bando de 4 até 30 indivíduos para afugentar outros gaviões potencialmente perigosos. Nessas interações, cada indivíduo executava um mergulho rápido, acompanhado de vocalização, e passava próximo ao dorso do intruso. Gaviões afugentados, por vezes, giravam o corpo em vôo e protraíam as garras, mas não intimidavam os gaviões-tesoura. Um bando com 18 indivíduos de E. forficatus perseguiu até afugentar um gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) presente em um local com ninhos. Na Reserva Biológica das Perobas, noroeste do Paraná, observei um grupo de quatro gaviões-tesoura (Elanoides forficatus) e alguns gaviões sovi (Ictinia plumbea) se unindo para atacar através de voos rasantes um gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) que passava voando baixo pelo local.


Interação agonística: Caracará atacando uma jovem águia-cinzenta (H. coronatus), para acuá-la do local. Ubatuba/SP, Setembro de 2009.
Foto: Roberto Negraes

Gavião-de-cauda-branca (Geranoaetus albicaudatus) tentando acuar através de rasantes uma águia-cinzenta. Ribeirão Vermelho/MG, Junho de 2010.
Foto:
Kassius Santos


Video de um falcão peregrino defendendo a área do ninho de um gavião-de-cauda-vermelha (Buteo jamaicensis) na qual o golpeou fortemente.
Video gravado nos EUA (Raptor force).

Interação agonística territorial de um falcão-peregrino contra um caracará (C. plancus), que atravessava sua área de caça regular. Salvador, Bahia.
Video: Sávio Drummond


Cleptoparasitismo

O cleptoparasitismo é um mecanismo de interação no qual um indivíduo rouba algum recurso, geralmente alimento, que outro capturou ou mesmo deixou armazenado. O cleptoparasita se beneficia tanto por obter uma presa ou outro recurso que não conseguiria sozinho como pelo ganho de tempo e diminuição do esforço para consegui-lo (Freitas & Lemos, 2006). Nas aves de rapina, essa relação já foi vista em diversas espécies. Nos EUA é comum casos de águias-americanas (Haliaeetus leucocephalus) roubando presas de outros rapineiros, as vítimas mais comuns são Buteo regalis, Buteo jamaicensis, Buteo lagopus, Aquila chrysaetus e até membros da própria espécie. Foi constatado que o roubo de presas ocorria com maior frequência nos invernos rigorosos, quando o gelo sobre a água impedia a pesca das águias (Jorge & Lingle, 1998). No Brasil, o gavião-peneira (Elanus leucurus) costuma ser a vítima mais frequente de cleptoparasitismo, quase sempre saqueado por falcões-de-coleira (Falco femoralis), caracarás (C. plancus) e outros gaviões de áreas abertas, normalmente ele não se defende do roubo.

Os principais fatores que pode desencadear o cleoptoparasitismo nas aves de rapina são: alimento principal escasso, grande concentração de espécies hospedeiras (as vítimas) e alimento visível (Brockman & Barnard, 1979). Adicionalmente, Paulsen (1985) considera que paisagens abertas contribuem para a ocorrência do cleoptoparasitismo. Isso porque nestas áreas o cleptoparasita pode observar e encontrar os hospedeiros mais facilmente, o cleptoparasita dificilmente consegue se esconder e os itens predados podem ser facilmente encontrados quando são abandonados pelo hospedeiro.

Predação entre aves de rapina
Além de todas as outras interações citadas, certamente a de predação entre rapineiras é mais impressionante. É uma interação pouco relatada no Brasil, é certo que rapineiros maiores são capazes de predar espécies menores. Entre os rapinantes diurnos, Jorge Albuquerque já relatou em Porto Alegre/RS, a predação de falcão-peregrino (Falco peregrinus) sobre um falcão-quiriqui (Falco sparverius), o pesquisador encontrou no alto de um edifício os restos da presa do F. peregrino identificada como sendo um quiriquiri. Sick (1997) relata que gavião-carijó (Rupornis) quando descobre uma coruja pequena em seu abrigo diurno, pode predá-la. Na Amazônia Peruana, Robinson (1994) registrou o consumo de coruja-preta (Strix huhula) por gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus).

Nas corujas, a maioria dos casos de predação envolve a murucututu (Pulsatrix) ou a jacurutu (Bubo virginianus) que são as maiores, contra corujas menores. No município de Itarumã/GO, Santos (2009) encontrou no ninho de murucututu (Pulsatrix perscipillata), restos de uma coruja-buraqueira (Athene cunicularia). A coruja jacurutu (Bubo virginianus), outra grande predadora de corujas menores, costuma predar suindaras (Tyto alba), coruja-buraqueira, corujinha-do-mato (Megascops choliba) e provavelmente outras corujas. Sabe-se que na América do Norte, o falcão-peregrino está entre as vítimas de Bubo virginianus.

Em reproduções de playback não é raro ver espécies maiores (como murucututus) serem atraídas pelo som de espécies menores (Megascops spp), talvez essa atração seja para predação e não defesa de território. É comum também, ao reproduzir o som de uma coruja grande, espécies menores serem inibidas pela “presença” da outra, demonstrando um comportamento de “medo” (Granzinolli & Motta-Junior, 2008). Acredita-se que a predação entre as corujas seja um fenômeno raro, visto que são aves bem cautelosas. Possivelmente as corujas que se tornam vítimas pelas maiores, são indivíduos jovens ou debilitados.


Filhotes de Bubo virginianus no ninho, com restos de coruja suindara (Tyto alba) capturada pela espécie. Lavras/MG, Julho de 2009. Foto: Kassius Santos

Allopreening entre Caracara e urubu-de-cabeça-preta. Urbelândia, MG. Foto: Henrique Nazareth Souto
(Adaptado de: Souto et al. 2009)

Allopreening
Mas nem todas as interações entre as aves rapineiras são negativas, há também relações positivas. Gaviões planadores (ex. Buteo, Rupornis) voam pacificamente na mesma corrente de ar quente com outros gaviões e urubus, algumas espécies até compartilham poleiro em uma mesma árvore. Há também interações mais íntimas e complexas, como é o caso do Allopreening.

O Allopreening é um comportamento social onde membros de determinada espécie executam a limpeza em outro individuo pertencente ao seu grupo social. Quando ocorre em duas espécies diferentes é chamado de Allopreening interespecifico. Nas aves de rapina, há relatos de cativeiro da coruja-tawny (Strix aluco) realizando Allopreening em mocho-galego (Athene noctua) (Harrison, 1965). Na natureza o Allopreening entre urubus-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) e caracarás (Caracará plancus) é um exemplo clássico deste comportamento (e.g. Palmeira 2008, Souto et al. 2009). Palmeira (2008) observou em Corumbá/MS, um urubu-de-cabeça-preta alisando as penas da cabeça de um carcará que estava visivelmente excitado e retribuía o ato fazendo o mesmo no peito do urubu. Ambos assumiam, claramente, uma postura cooperativa favorecendo a interação. O Allopreening interespecifico ainda é pouco conhecido, as hipóteses para explicar tal comportamento são várias, entre elas: remoção de ectoparasitos, posicionamento hierárquico e re-estabelecimento do bom convívio. Em São Paulo, Julio A. B. Monsalvo (com. pess.) observou algumas vezes, jovens caracarás mais ou menos inexperientes realizando Allopreening em urubus-de-cabeça-preta, de acordo com o pesquisador, essas observações reforça a hipótese do comportamento ser uma estratégia de submissão para serem aceitos entre os urubus e forragearem juntos.


Referências Bibliograficas:

Azevedo, M. A. G. & Di-Bernardo, M. (2005) História natural e conservação do gavião-tesoura, Elanoides forficatus, na Ilha de Santa Catarina, sul do Brasil. Ararajuba 13 (1): 81-88.

Brockman, H. & Barnard, C. (1979) Kleptoparasitism in bird. Animal Behavior. 27: 487-514.

Freitas, A.A.R., & M. Lemos. (2006) Cleptoparasitismo em aves de rapina. Boletim ABFPAR 9(1):39-43.

Granzinnolli, M. A. M. & Motta-Junior, J. C. (2008) Aves de rapina: levantamento, seleção de habitat e dieta. Pp. 169-187. In: Matter, S. V., Straube, F., Accordi, I., Piacentini, V., & Cândido Jr., J. F. (Orgs.). Ornitologia e conservação: ciência aplicada, técnicas de pesquisa e levantamento. Technical Books, Rio de Janeiro.

Harrison, C. J. 0. (1965) Allopreening as agonistic behaviour. Behaviour 24: 161-209.

Jaksic, F.M., H. Greene e J. L. Yánez (1981). The guild structure of a community of predatory vertebrates in central Chile. Oecologia 49: 21-28.

Jorge, D.G. & Lingle, G.R. (1988) Kleptoparasitism by Bald Eagles Wintering in south- central Nebraska. Journal Field Ornithology, 59 (2): 183-188.

Palmeira, F. B. L. (2008) Allopreening behavior between Black Vulture (Coragyps atratus) and Southern Caracara (Caracara plancus) in the Brazilian Pantanal. Revista Brasileira de Ornitologia, 16(2):172-174.

Robinson, S.K. (1994). Habitat selection and foraging ecology of raptors in Amazonian Peru. Biotropica 26:443-458

Santos, D. W. (2009) [WA85367, Pulsatrix perspicillata (Latham, 1790)]. Wikiaves, disponível em: <http://www.wikiaves.com/85367> Acesso em Maio de 2011.

Sick, H. (1997). Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro.

Souto, H. N.; Franchin, A. G. & Marçal-Junior, O. (2009). New Record of Allopreening Between Black Vultures (Coragyps atratus) and Crested Caracara (Caracara plancus). Sociobiology Vol. 53, No. 1.

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2014) Relações interespecíficas nas aves de rapina - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/Relacoes_interespecificas.pdf > Acesso em: