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Falcão-relógio
Micrastur semitorquatus (Vieillot, 1817)

Ordem: Falconiformes
Família: Falconidae
Grupo:
Falcões-florestais

Nome em inglês: Collared Forest-falcon
Habitat:
Florestas
Alimentação:
Aves e lagartos

Distribuição no Brasil:



Status:(LC) Baixo risco


Indivíduo adulto (plumagem "forma clara")
Gurupi/To, Agosto 2016. Foto: Willian Menq


Vocalização típica (B) - (gravado por: Sjoerd Mayer)

Trata-se de um grande imponente falcão-florestal. É de difícil observação, em geral é mais escutado do que visto. É também um especializado caçador de aves, caça desde gralhas e arapaçus até tucanos e inhambus. Pode ser encontrado no interior de florestas, borda de matas, capoeiras e cerrado mais arbóreo. Conhecido também como gavião-relógio.

• Descrição: Mede de 46 a 58 cm de comprimento, peso de 479–646 g (machos) e 660-940 g (fêmeas) (Ferguson-Lees & Christie 2001; Bierreaard & Boesman 2013). A cor da plumagem varia entre indivíduos, havendo exemplares adultos de três tipos básicos: forma clara, forma creme e forma escura. Adulto (forma clara): A plumagem é preta nas costas, parte superior do pescoço e alto da cabeça. As partes inferiores são brancas ou avermelhadas, com um colar da mesma cor na garganta, estendendo-se pela nuca. Logo abaixo dos olhos (muito grandes e escuros), há uma área da mesma cor da garganta. Entre essa região e o colar nucal, existe uma faixa negra, estreita e ligada ao alto da cabeça. Adulto (forma creme): possui plumagem parecida com a da fase clara, porém as partes inferiores do corpo é cor creme-amarelado. Adulto (forma escura): São os indivíduos melânicos que possui plumagem completamente negra com algumas listras laterais claras na barriga e asas. Jovem: possui plumagem muito variável, sendo que predomina a coloração marrom-escuro nas partes superiores, partes inferiores claras e listradas de marrom mais claro, sendo que o padrão é diferente a casa fase. Em qualquer plumagem, a longa cauda é preta, com 4 finas listras brancas, muito separadas entre si. As pernas são longas, amarelas, enquanto a pele nua das narinas é esverdeada e conectada à pele nua e proeminente ao redor dos olhos (Antas, 2005; Ferguson-Lees e Christie 2001).


Indivíduo jovem.
Cocalinho/MT, Julho de 2014.
Foto: Willian Menq

Indivíduo adulto (forma melânica)
Cartago/Costa Rica, Abril de 2010.
Foto: Alex Vargas

Indivíduo adulto (forma creme).
Caçapava do sul -RS.
Foto: Omar Guilhano R. Soares

• Espécies Similares: Indivíduos jovens podem ser confundidos com falcão-caburé (Micrastur ruficollis) e jovens de gavião-bombachinha (Accipiter bicolor); adultos na fase clara são similares ao falcão-de-buckley (Micrastur buckleyi) e tauató-pintado (Accipiter poliogaster).

• Alimentação: Especialista na captura de aves, caçando espécies dos mais variados tamanhos, desde gralhas (Cyanocorax spp) e arapaçus (Dendrocincla spp) até tucanos (Ramphastos spp) e inhambus (Crypturellus spp) (Thorstrom et al. 1990). Também pode capturar cobras e lagartos (Antas, 2005). Caça por emboscada, ficando na espreita a partir de um poleiro, voando de galho em galho ou voando entre os galhos, até mesmo no chão, com incrível agilidade e velocidade (GRIN, 2010). Também segue formigas-de-correição para capturar aves e insetos espantados por elas (Antas, 2005; Sick, 1997; Ferguson-Lees e Christie 2001).

Em um estudo na Guatemala, Thorstrom et al. (1990) encontraram penas de uma coruja-do-mato (Strix virgata) em um ninho do falcão-relógio na floresta do Parque Nacional de Tikal. Outro estudo mais detalhado sobre a alimentação desta espécie, Thorstrom (2000) registrou 222 presas que foram entregues para a fêmea no ninho e filhotes. Dentre as presas, 45,9% eram os mamíferos (78 itens), 34,7% aves (50 itens), 18,8% eram répteis (13 lagartos e 19 serpentes) e 0,6% anfíbios (um sapo). O tamanho das presas consumidas pelo falcão foram bastante variáveis, do sapo que pesava 20g até para um perú-do-monte (Agriocharis ocellata) que pesava aproximadamente 3 kg, além um jovem jacu (Penelope purpuresecens). Entre os mamíferos predados, foram identificados 42 esquilos-deppe (Sciurus deppei), 11 esquilos-yucatan (Sciurus yucatanensis), Dois morcegos frugívoros (Artibeus spp), 14 outros morcegos não identificados, 7 ratos incluindo um rato-de-algodão (Sigmodon hispidus) e dois camundongos. Dentre as aves mais predadas, 9 eram araçaris (Pteroglossus torquatus), 7 aracuãs (Ortalis vetula), 6 tucanos (Ramphastos sulphuratus), 4 arapaçus (Dendrocincla homochroa), 3 inhambu (Crypturellus spp) e 3 gralhas (Cyanocorax morio). Doze dos trezes lagartos caçados são do gênero Corytophanes e maioria das serpentes foram colubrídeos. Thorstrom (2000) determinou que esta espécie tem um nicho de ecológico maior do que o falcão-caburé Micrastur ruficollis (GRIN, 2010).

• Reprodução: Nidifica em cavidades como ocos de árvores, fendas e grutas (White et al. 1994; Carrara et al. 2007). Coloca de dois a três ovos com um  período de incubação de 46 dias (Thorstrom, 2000; GRIN, 2010).

Vallejos et. al (2008) descreveram a nidificação do falcão-relógio no Parque Estadual de Campinhos, na região metropolitana de Curitiba/PR. O ninho situado no interior de uma gruta, foi construído em uma cavidade a aproximadamente 15 m da entrada da gruta. Desde 2002 verificou-se o uso regular da cavidade. Após a eclosão dos ovos, na terceira semana de vida, os filhotes passaram a habitar o ninho sem a presença do adulto e aparentemente ambos os pais forneciam a caça. No Rio Grande do Sul, Marreis et al (2009) registraram a presença de um falcão-relógio nidificando no interior de uma churrasqueira no município de Presidente Lucena, RS. A ave estava chocando dois ovos que resultaram em dois filhotes. O fato foi registrado em fotos e relatado por moradores da localidade aos autores. Provavelmente trata-se de comportamento adaptativo em busca de locais de nidificação devido à perda de habitat. Ato similar foi relatado por morados no município de Taquara-RS, onde um M. semitorquatus nidificou por vários anos consecutivos em uma churrasqueira.

No Pantanal, Barbosa et al. (2014) introduziram um filhote (nascido em cativeiro) em um ninho natural da espécie onde haviam outros filhotes de idade similar. O filhote introduzido foi aceito e alimentado pelos adultos por mais de 15 dias, até o último monitoramento do ninho pelos pesquisadores.

• Distribuição Geográfica e subespécies: Ocorre desde o México até o norte da Argentina Bierreaard & Boesman 2013). São conhecidas duas subespécies, o M. s. naso: norte e centro do México (Sinaloa e Tamaulipas) ao sul da América central até o oeste da Colômbia e Equador. M. s. semitorquatus: leste da Colômbia, Guianas, Peru, Bolívia, por todo o Brasil até o Paraguai e norte da Argentina (Blake 1977). Recentemente foi registrado nidificando no município de Caçapava do Sul/RS, sendo este um dos registros mais ao sul da distribuição da espécie no Brasil (obs. pes. Omar G. R. S.).

• Hábitos/Informações Gerais: Habita o interior de florestas, borda de matas, capoeiras, tanto áreas úmidas quanto matas secas. É de difícil observação, em geral é mais escutado do que visto. Canta ao amanhecer ou ao escurecer, um chamado grave, transcrito com “ao”, sendo seus cantos bem pontuais. Essa é a razão do nome comum, devido à constância do intervalo entre os chamados. (Antas, 2005; Bierregaard 1994; Ferguson-Lees e Christie 2001).


Fêmea adulta acima, e jovem abaixo. Cocalinho/MT, Jul 2014.
Foto: Willian Menq

Indivíduo nidificando no interior de uma gruta. P.E. de Campinhos.
Foto:
Marcelo Villegas

Filhotes no ninho localizado na fenda de uma gruta. Caçapava do sul -RS.
Foto:
Omar Guilhano R. Soares


Fêmea adulta nidificando em uma churrasqueira. Taquara -RS
Foto:
Juliano Jose de Farias

Filhote no ninho construído em uma churrasqueira. Taquara/RS.
Foto:
Juliano José de Farias

Indivíduo jovem.
São José dos Campos/SP.
Foto:
Rodrigo Dela Rosa de Souza


Fêmea adulta em atividade de caça. Cocalinho/MT, Julho de 2014.
Foto: Willian Menq

Adulto em voo.
Gurupi/TO, Agosto de 2016.
Foto: Willian Menq

Filhote no ninho. Pará de Minas/MG.
Novembro de 2008.
Foto:
Fernando Araújo


:: Página editada por: Willian Menq em Mai/2016. ::



• Referências:

Antas, P. T. Z. (2005) Aves do Pantanal. RPPN. Sesc.

Barbosa, K. V. C.; Filadelfo, T. & Guedes, N. M. R. (2014) artificial incubation and introduction of a collared
Forest-Falcon Micrastur semitorquatus chick into a natural nest in Southern Pantanal, Brazil. Revista Brasileira de Ornitologia, 22(1), 22-26

Bierregaard, R.O., Jr & Boesman, P. (2013). Lined Forest-falcon (Micrastur gilvicollis). In: del Hoyo, J., Elliott, A., Sargatal, J., Christie, D.A. & de Juana, E. (eds.) (2013). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions, Barcelona.

Blake, E. R. (1977) Manual of Neotropical Birds. The University of Chicago Press. Chicago and London. 674 páginas.

Carrara, L.A; Antas, P. T. Z; Yabe, R. (2007) Nidificação do gavião-relógio Micrastur semitorquatus (Aves: Falconidae) no Pantanal Mato-grossense: dados biométricos, dieta dos ninhegos e disputa com araras. Revista Brasileira de Ornitologia 15 (1) 85-93.

Freguson-Lees, J. e D. A. Christie (2001) Raptors of the world. Boston, New York: Houghton Miffin Company.

GRIN - Global Raptor Information Network (2010) Species account: Collared Forest Falcon Micrastur semitorquatus. Disponível: http://www.globalraptors.org Acesso em 27 Jun. 2010

Guedes, N. M. R. (1993) Nidificação do gavião-relógio (Micrastur semitorquatus) no Pantanal, p.57. Em: Anais do III Congresso Brasileiro de Ornitologia. Pelotas: Sociedade Brasileira de Ornitologia.

López-Lanús, B. (2000) Collared Forest-falcon Micrastur semitorquatus courtship and mating, with take-over of a macaw nest. Cotinga 14: 9-11.

Marreis, I. T.; Dalenogare, R. B. & Sander, M. (2009). Ocorrência de nidificação adaptativa de gavião-relógio (Micrastur semitorquatus, Vieillot, 1817) em habitat antrópico no Rio Grande do Sul. Biodiversidade pampeana, v. 7, n. 1, PUCRS, Uruguaiana, 7(1): 47-50.

Sick, H. (1997) Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro. Nova Fronteira.

Thorstrom, R. (2000) The food habits of sympatric forest-falcons during the breeding season in northeastern Guatemala. Journal of Raptor Research 34:196-202.

Thorstrom, R., C.L. Turley, F.G. Ramirez and B.A. Gilroy. (1990) Description of nests, eggs, and young of the Barred Forest-falcon (Micrastur ruficollis) and of the Collared Forest-falcon (M. semitorquatus). Condor 92:237-239.

Vallejos, M.A.V.; Lanzer, M.; Aurélio-Silva, M. & Silva-da-Rocha, L.F. (2008) Nidificação de gavião-relógio Micrastur semitorquatus (Vieillot, 1817) em uma gruta no Sul do Brasil. Revista Brasileira de Ornitologia, 16(3): 268-270.

White, c. M.; olsen, P. d. e Kiff, L. F. (1994) Family Falconidae (Falcons and Caracaras), p. 216­275. Em: J. del Hoyo, A. Elliot e J. Sargatal (eds.) Handbook of the birds of the world. Volume 2. Barcelona: Lynx

• Site associado: Global Raptor Information Network (em inglês)

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2016) Falcão-relógio (Micrastur semitorquatus) - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/micrastur_semitorquatus.htm > Acesso em: