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Falcão-relógio Micrastur semitorquatus (Vieillot, 1817)
Ordem: Falconiformes | Família: Falconidae | Politípica (2 subespécies)


Indivíduo adulto (forma clara). Foto: Willian Menq

O falcão-relógio é o maior representante do gênero Micrastur. Encontrado em uma grande variedade de florestas, ocorrendo do México até o sul do Brasil. É um especialista na captura de aves e pequenos mamíferos, que caça em emboscadas ou perseguições no interior da floresta. Apesar do grande tamanho, é de difícil observação, geralmente mais ouvido do que observado. Conhecido também como gavião-relógio, gavião-da-mata e tem-tem.


Descrição: Mede de 46 a 58 cm de comprimento, peso de 479–646 g (macho) e 660-940 g (fêmea) (Bierreaard & Boesman 2013). Falcão grande, de cera e tarsos amarelo-esverdeado, íris castanho-escura. Existem três padrões básicos de plumagem no adulto: forma clara, forma creme e forma escura, e em qualquer plumagem destaca-se a longa cauda preta com 4 finas listras brancas. Adulto (forma clara): Dorso e pescoço negro, com ventre branco, com um colar da mesma cor na garganta, estendendo-se pela nuca. Entre essa região e o colar nucal, existe uma faixa negra, estreita e ligada ao alto da cabeça. Adulto (forma creme): possui plumagem parecida com a da fase clara, porém o ventre é creme-amarelado ao invés de branco. Adulto (forma escura): São indivíduos melânicos, bastante raros na natureza, apresenta plumagem completamente negra com algumas listras laterais claras na barriga e asas. Jovem: possui plumagem muito variável, sendo que predomina a coloração marrom-escuro no dorso, ventre claro e barrado de marrom no peito.

Espécies similares: Indivíduo jovem podem ser confundido com o jovem falcão-caburé (Micrastur ruficollis), diferenciando-se pelas barras do peito mais grossas (no jovem M. ruficollis são mais estreitas), tarsos mais grossos, cauda comprida, bico maior em relação ao crânio e barras ferrugíneas no dorso escuro.  Adulto na fase clara é parecido com o falcão-de-buckley (Micrastur buckleyi), diferenciando-se pelo maior tamanho, cauda comprida e volumosa.

Dieta e comportamento de caça: Especialista na captura de aves e pequenos mamíferos, caça espécies dos mais variados tamanhos, desde gralhas (Cyanocorax) e arapaçus (Dendrocincla) até tucanos (Ramphastos) e inhambus (Crypturellus); em menor frequência, captura serpentes e lagartos. Caça por emboscada, permanece na espreita a partir de um poleiro, voando de galho em galho ou voando entre os galhos, até mesmo perseguindo no chão. Também segue formigas-de-correição para capturar aves e insetos espantados por elas. Devido aos seus grandes olhos e a sua audição aguçada, pode caçar em horários de pouca luz (antes do nascer do sol ou após o escurecer).

Durante um estudo no Parque Nacional de Tikal, na Guatemala, Thorstrom et al. (1990) encontraram penas de uma coruja-do-mato (Strix virgata) em um ninho do falcão-relógio, sugerindo ter sido predada pelo falcão. Em outro estudo mais detalhado sobre a dieta da espécie, Thorstrom (2000) registrou 222 presas que foram entregues para a fêmea no ninho e filhotes. Dentre as presas, 45,9% eram os mamíferos (78 itens), 34,7% aves (50 itens), 18,8% eram répteis (13 lagartos e 19 serpentes) e 0,6% anfíbios (um sapo). O tamanho das presas consumidas pelo falcão foram bastante variáveis, com anfíbios de 20 g até aves grandes como o perú-do-monte (Agriocharis ocellata) com quase 3 kg. Entre os mamíferos predados, foram identificados 42 esquilos-deppe (Sciurus deppei), 11 esquilos-yucatan (Sciurus yucatanensis), dois morcegos frugívoros (Artibeus spp), 14 outros morcegos não identificados, 7 ratos incluindo um rato-de-algodão (Sigmodon hispidus) e dois camundongos. Dentre as aves mais predadas, 9 eram araçaris (Pteroglossus torquatus), 7 aracuãs (Ortalis vetula), 6 tucanos (Ramphastos sulphuratus), 4 arapaçus (Dendrocincla homochroa), 3 inhambu (Crypturellus spp) e 3 gralhas (Cyanocorax morio). Doze dos trezes lagartos caçados são do gênero Corytophanes e maioria das serpentes foram colubrídeos.

Reprodução: Nidifica em cavidades como ocos de árvores, fendas ou grutas em cavernas, em alturas que variam de 12 a 20 m do solo. Coloca de 1 a 3 ovos, com período de incubação de 46 dias. A fêmea é responsável pela incubação, enquanto que o macho é responsável pelo fornecimento de comida para a fêmea e filhotes. Quando os filhotes estão maiores, já parcialmente emplumados, a fêmea sai do ninho e auxilia o macho na caça e fornecimento de presas aos filhotes. Após 46 - 50 dias os filhotes saem do ninho e permacene dependente dos pais por mais algumas semanas.

Vallejos et. al (2008) descreveram a nidificação do falcão-relógio no Parque Estadual de Campinhos, na região metropolitana de Curitiba/PR. O ninho situado no interior de uma gruta, foi construído em uma cavidade a aproximadamente 15 m da entrada da gruta. Após a eclosão dos ovos, na terceira semana de vida, os filhotes passaram a habitar o ninho sem a presença do adulto e aparentemente ambos os pais forneciam a caça. No município de Presidente Lucena/RS, Marreis et al (2009) registraram um falcão-relógio nidificando no interior de uma churrasqueira. A postura foi de dois ovos, o fato foi registrado em fotos e relatado por moradores da localidade aos autores. Provavelmente trata-se de comportamento adaptativo em busca de locais de nidificação devido à perda de habitat. Ato similar foi relatado por moradores no município de Taquara/RS, onde um falcão-relógio nidificou por vários anos consecutivos em uma churrasqueira.

No Pantanal, Barbosa et al. (2014) introduziram um filhote (nascido em cativeiro) em um ninho natural da espécie onde haviam outros filhotes de idade similar. O filhote introduzido foi aceito e alimentado pelos adultos por mais de 15 dias, até o último monitoramento do ninho pelos pesquisadores.

Distribuição e subespécies: Ocorre desde o México até o norte da Argentina. São conhecidas duas subespécies.

  • M. s. naso: norte e centro do México (Sinaloa e Tamaulipas) ao sul da América central até o oeste da Colômbia e Equador.
  • M. s. semitorquatus: leste da Colômbia, Guianas, Peru, Bolívia, por todo o Brasil até o Paraguai e norte da Argentina.

Habitat e comportamento: Habita o interior de florestas, borda de matas e capoeiras. Geralmente prefere as florestas úmidas, mas pode ser encontrado em florestas semi-deciduas, decíduas e matas de galeira nas nas partes mais áridas de sua distribuição. Vive solitário ou aos pares; não plana, costuma cantar antes do amanhecer e ao anoitecer, às vezes pousado de um poleiro parcialmente exposto na borda da mata. De forma geral, é discreto e de difícil observação, não plana e raramente cruza áreas abertas.

Movimentos: Espécie residente.

 

 

:: Página editada por: Willian Menq em Abr/2018. ::

 


Referências:

Barbosa, K. V. C.; Filadelfo, T. & Guedes, N. M. R. (2014) artificial incubation and introduction of a collared
Forest-Falcon Micrastur semitorquatus chick into a natural nest in Southern Pantanal, Brazil. Revista Brasileira de Ornitologia, 22(1), 22-26

Bierregaard, R.O., Jr & Boesman, P. (2013). Lined Forest-falcon (Micrastur gilvicollis). In: del Hoyo, J., Elliott, A., Sargatal, J., Christie, D.A. & de Juana, E. (eds.) (2013). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions, Barcelona.

Carrara, L.A; Antas, P. T. Z; Yabe, R. (2007) Nidificação do gavião-relógio Micrastur semitorquatus (Aves: Falconidae) no Pantanal Mato-grossense: dados biométricos, dieta dos ninhegos e disputa com araras. Revista Brasileira de Ornitologia 15 (1) 85-93.

López-Lanús, B. (2000) Collared Forest-falcon Micrastur semitorquatus courtship and mating, with take-over of a macaw nest. Cotinga 14: 9-11.

Marreis, I. T.; Dalenogare, R. B. & Sander, M. (2009). Ocorrência de nidificação adaptativa de gavião-relógio (Micrastur semitorquatus, Vieillot, 1817) em habitat antrópico no Rio Grande do Sul. Biodiversidade pampeana, v. 7, n. 1, PUCRS, Uruguaiana, 7(1): 47-50.

Sick, H. (1997) Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro. Nova Fronteira.

Thorstrom, R. (2000) The food habits of sympatric forest-falcons during the breeding season in northeastern Guatemala. Journal of Raptor Research 34:196-202.

Thorstrom, R., C.L. Turley, F.G. Ramirez and B.A. Gilroy. (1990) Description of nests, eggs, and young of the Barred Forest-falcon (Micrastur ruficollis) and of the Collared Forest-falcon (M. semitorquatus). Condor 92:237-239.

Vallejos, M.A.V.; Lanzer, M.; Aurélio-Silva, M. & Silva-da-Rocha, L.F. (2008) Nidificação de gavião-relógio Micrastur semitorquatus (Vieillot, 1817) em uma gruta no Sul do Brasil. Revista Brasileira de Ornitologia, 16(3): 268-270.

Site associado: Global Raptor Information Network

 

 

Citação recomendada:

Menq, W. (2018) Falcão-relógio (Micrastur semitorquatus) - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/micrastur_semitorquatus.htm > Acesso em: .



 
 

Distribuição Geográfica:

Status: (LC) Baixo risco

Canto - (gravado por: Sjoerd Mayer)
By: Xeno-canto.



Indivíduo adulto (forma clara).
Curvelo/MG, Agosto de 2017.
Foto: Geraldo M. Pereira
 

Indivíduo adulto (forma creme).
Patrocínio/MG, Set de 2014.
Foto: Danilo Mota
 

Indivíduo jovem.
São J. dos Campos/SP, Set 2011.
Foto:
Rodrigo Dela Rosa de Souza
 

Indivíduo nidificando no interior de uma churrasqueira. Taquara/RS.
Foto:
Juliano Jose de Farias
 

Filhote no interior do ninho.
Pará de Minas/MG. Nov. 2008.
Foto:
Fernando Araújo
 

Fêmea adulta no ninho.
Poconé/MT, Out de 2015.
Foto:
Marcos Mourão
 

Indivíduo adulto (forma melânica)
Cartago/Costa Rica, Abril de 2010.
Foto: Alex Vargas
 

Indivíduo adulto (forma creme).
Caçapava do sul/RS, Jan 2011.
Foto: Omar Guilhano R. Soares
 

Indivíduo adulto.
Gurupi/TO, Agosto de 2016.
Foto: Willian Menq
 

Indivíduo adulto.
Gurupi/TO, Nov. de 2017.
Foto:
Willian Menq
 

Indivíduo adulto (forma clara).
Curvelo/MG, Agosto de 2017.
Foto: Geraldo M. Pereira
 

Indivíduo jovem.
Cocalinho/MT, Julho de 2014.
Foto: Willian Menq