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Grupos básicos
Ordem Strigiformes

Características gerais das aves de rapina

Texto: Willian Menq
Atualizado em 16 de Maio de 2016

As aves de rapina compartilham uma série de peculiaridades, em geral relacionadas à caça ativa. Muitas dessas características são exclusivas dos rapinantes, não sendo encontradas em outros grupos de aves. Abaixo, um resumo das características básicas das aves de rapina.

• Visão
As aves de rapina dependem da visão apurada para encontrar presas, reconhecer outros indivíduos e detectar a aproximação de competidores. A visão dessas aves é incrível, cerca de 2 a 8 vezes mais aguçada que a visão humana. Algumas águias e gaviões localizam suas presas a grandes distâncias. A águia-real (Aquila chrysaetos), por exemplo, consegue ver uma lebre a mais de 3 km de distância. Outra característica da visão dos rapinantes é os olhos voltados para frente, resultando em uma visão binocular, o que dá uma noção de distância e profundidade, ideal para calcular manobras aéreas e ataques contra suas presas.

Os olhos dos rapinantes são extremamente grandes, representando cerca de 15% do peso da cabeça. Por isso, as aves de rapina tem a movimentação dos olhos bastante limitada dentro da caixa craniana, elas não conseguem mover os olhos para esquerda ou para a direita, para cima ou para baixo, como nos humanos. Para olhar para os lados, precisam virar a cabeça. Já as corujas (Strigiformes) compensam essa limitação através da grande flexibilidade de seu pescoço (nº maior de vértebras cervicais em relação aos outros vertebrados), sendo capazes de girar a cabeça a 270°.

As espécies diurnas enxergam colorido, alguns falcões como o francelho (Falco naumanni), são capazes de ver a luz ultravioleta. Com esta adaptação são capazes de detectar a partir de um rastro de urina, a posição de suas presas no solo. Já as corujas, por serem em sua maioria noturnas, possuem olhos muito sensíveis a luz (sensibilidade de 10 a 100 vezes mais que a dos humanos), resultando em uma ótima visão noturna. Por possuírem mais células da retina sensíveis a luz e não a cores, a maioria das corujas enxergam em cores limitadas ou possuem visão monocromática.



Esquema da visão aguçada dos rapinantes diurnos.

Esquema da visão binocular das aves de rapina


• Audição

De modo geral, as aves de rapina possuem uma excelente audição. Escutam e distinguem muito bem o som de outro rapinante ou de uma presa agonizando. Algumas espécies têm uma audição extremamente apurada. Corujas que caçam durante a noite ou espécies que vivem em florestas densas, como a harpia (Harpia harpyja) e os falcões-florestais (Micrastur spp), usam a audição para localizar suas presas. Essas aves possuem penas em forma de disco ao redor dos ouvidos que funcionam como uma parabólica, direcionamento o som até a abertura dos ouvidos.

As corujas, diferente dos outros rapinantes, possuem grandes aberturas de ouvido. Além disso, as aberturas estão posicionadas de forma assimétrica, o ouvido direito está dirigido para cima, enquanto que o esquerdo está dirigido para baixo. Este arranjo assimétrico fornece discriminação da elevação do som através das informações de intensidade. E em conjunto com os discos faciais, as corujas conseguem discriminar, com precisão, a localização de uma fonte sonora, permitindo a captura de presas no solo sem precisar da visão.



Exemplos de espécies com discos facias, (A) corujas,
(B) harpia (Harpia harpyja). Fotos: W. Menq.

Esquema do crânio de uma coruja, com destaque a assimetria da abertura dos ouvidos.


• Olfato

As aves de rapina possuem o olfato bastante limitado. Mas existe uma exceção, os urubus do gênero Cathartes (C. aura, C. burrovianus e C. melambrotus). Esses urubus possuem o olfato bastante aguçado, sendo capazes de detectar a grandes distâncias o cheiro de um cadáver camuflado na vegetação. Já os demais urubus (Coragyps, Sarcoramphus) não possuem olfato apurado, dependem da visão para localizar as carcaças durante voos seus circulares.

• Bico
O bico dos rapinantes é uma das características mais notáveis para distingui-las de outros grupos de aves. Os bicos são fortes, curvos e afiados, usados para rasgar a pele/carne durante a alimentação ou até para matar suas presas (no caso de Falconidae). O formato do bico varia de acordo do tipo de presa consumida. Dessa forma, espécies pequenas como o quiriquiri (Falco sparverius) apresenta um bico curto, adequado para comer insetos e roedores. A harpia (H. harpyja) possui bico pesado e extremamente forte, usado para arrancar grandes nacos de carne de suas presas, como macacos e preguiças. Já o gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis), de dieta muito específica, apresenta bico longo e curvo, usado para retirar os caramujos do interior das conchas. Os rapinantes da ordem Falconiformes (falcões e caracarás), possuem um rebordo no bico em forma de dente, usado para seccionar a espinha dorsal de suas vítimas.



Exemplos de alguns tipos básicos de bicos nas aves de rapina.Fotos: Willian Menq.

Detalhe do bico especializado do gavião-caramujeiro
(Rostrhamus sociabilis). Foto: Willian menq.

• Garras
As garras são fortes e afiadas, sendo a principal arma usada pelas aves de rapina predadoras para capturar a matar suas presas. O formato e o tamanho das garras e tarsos variam de acordo com o tipo de presa caçada. Espécies que capturam mamíferos como a águia-cinzenta (Urubitinga coronata) ou a harpia (H. harpyja) geralmente têm tarsos grossos, dedos curtos e unhas fortes; rapinantes que caçam principalmente aves possuem dedos longos, com garras finas e afiadas, ideal para capturas de presas em voo. A águia-pescadora (Pandion haliaetus) possui calos ásperos nos dedos, o que ajuda a segurar peixes escorregadios durante a caçada.

As corujas e as águias-pescadoras (P. haliaetus) conseguem mover voluntariamente o quarto dedo para trás, junto ao dedo hálux, ficando dois dedos para frente e dois para trás. Esse posicionamento aumenta a superfície de contato durante uma investida, dando vantagem as corujas durante uma caçada. Nas águias-pescadoras esse posicionamento ajuda a reduzir o atrito durante o “mergulho” contra a presa.



Alguns tipo básicos de garras. O tamanho e formato depende do tipo de presa que a ave costuma caçar.

Garras da harpia (Harpia harpyja), tarsos grossos,
dedos curtos, fortes, terminados em garras poderosas.


• Penas

As penas são constituídas de queratina, o mesmo material de que são formadas as unhas nos mamíferos. Cada grupo de penas desempenha uma função importante. As penas de cobertura (coberteiras) tornam as asas mais grossas na frente e o ar frui mais rápido por cima, com a função de diminuir a aderência da ave contra o vento. As penugens são penas macias localizadas perto do corpo, elas ficam por baixo das penas de contorno e tem função de manter a ave aquecida. As penas de voo, como o nome diz, auxiliam no voo da ave, as penas da ponta das asas (primárias) podem se abrir ou fechar para aumentar ou diminuir a resistência. As penas secundárias se movem para baixo aumentando a resistência, ou para cima, reduzindo-a.

As corujas apresentam penas de voo mais macias, o que possibilita um voo silencioso, não interferindo na orientação acústica durante o voo. Além disso, o voo silencioso evita que as presas detectem a aproximação da coruja.

• Silhueta
Existem vários tipos de silhuetas nos rapinantes, a variação no formato das asas e da cauda é relacionada ao habitat e ao tipo de voo predominante. Espécies que vivem em ambientes abertos como os gaviões planadores, por exemplo, possuem asas longas, largas e cauda de tamanho médio, silhueta apropriada para planar aproveitando as térmicas, gastando o mínimo de energia. Rapinantes que vivem no interior de floresta, como os do gênero Spizaetus, Harpia, Accipiter e Micrastur, apresentam asas curtas, largas e cauda relativamente grande, aerodinâmica adaptada para voo ágil e reações rápidas entre os obstáculos da floresta. Aves de rapina que caçam em alta velocidade, como o falcão-peregrino (Falco peregrinus), apresentam asas longas, estreitas e cauda curta.



Detalhe da pena de voo de uma coruja, onde é possível observar as extremidades serrilhadas, modificação que garante um voo silencioso.

Exemplos das diferentes silhuetas. O formato da silhueta geralmente está relacionado ao habitat e modo de caça predominante da espécie.