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Gavião-de-penacho
Spizaetus ornatus (Daudin, 1800)

Ordem: Accipitriformes
Família: Accipitridae
Grupo:
Águias-açores

Nome em inglês: Ornate Hawk-eagle
Habitat:
Florestas
Alimentação:
Aves e médios mamíferos


Distribuição no Brasil:


Status: (NT) Quase ameaçado


Indivíduo adulto. Reserva Mangaloma, Pichincha Province, Equador. Dezembro de 2010. Foto: Ian Davies

Vocalização de chamado em voo
(gravado por: Augusto Alves)

É um poderoso predador das florestas neotropicais. Ao contrário dos seus congêneres, plana com menor frequência, raramente aparecendo em borda de florestas. Caça desde aves de médio porte até gambás e iguanas. Assim como outros rapinantes do gênero Spizaetus, é considerado uma águia-florestal, sendo uma das mais belas e imponentes águias de nosso país. Também conhecido como apacanim e águia-de-penacho.

• Descrição: Mede de 58-65 cm de comprimento, peso de 964-1000 g (macho) e 1389-1607 g (fêmea) (Fergunson-Lee & Christie, 2001; Sick, 1997). Adulto apresenta dorso e asas marrom-pardacento, quase preto; o peito e partes inferiores é branco com barras horizontais pretas; as laterais do pescoço, nuca e parte do peito apresenta uma notável coloração castanho-avermelhada. Apresenta um topete peto que pode medir até 10 cm. Os tarsos são completamente emplumados, e sua cauda longa apresenta três barras cinza-pardacentas. O jovem apresenta dorso marrom-pardacento, branco dominante por baixo, com apenas os flancos e tarsos barrados. O castanho do pescoço e as demais características da plumagem adulta surgem com as mudas consecutivas (Sick, 1997). A espécie recebe esse nome devido ao notável penacho que se ergue verticalmente, quando estressado/excitado, no topo da cabeça.



Fêmea Adulta. Iporanga/SP, Janeiro de 2013.
Foto:
Matias H. Ternes

Indivíduo jovem. Belize (América Central), Março de 2005. Foto: © Kent Nickell


• Espécies similares:
O jovem de tautaó-pintado (Accipiter poliogaster) apresenta um padrão de coloração muito semelhante ao adulto do Spizaetus ornatus. Porém, o A. poliogaster é pequeno, sem topete e não apresenta os tarsos emplumados. Há também uma variação de plumagem do jovem gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis), que imita quase que perfeitamente, o adulto do S. ornatus, diferenciando-se principalmente pelos tarsos menos robustos e não-emplumados, formato do bico e íris. Em voo alto, o adulto pode ser confundido com o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) e com o caracoleiro (Chondrohierax uncinatus). O jovem S. ornatus pode ser confundido com o gavião-pato (Spizaetus melanoleucus).

• Alimentação: Apresenta uma dieta diversificada, com variações locais. Caça principalmente aves e pequenos mamíferos, dentre as presas principais, pode-se destacar araras (Ara), papagaios (Amazona), baitacas (Pionus), tucanos (Ramphastos), cracídeos (Penelope, Ortalis e Crax), macucos (Tinamus), inhambus (Crypturellus), urus (Odontophorus) e pombas (Columba e Leptotila), além de gambás (Didelphis), serelepes (Sciurus), quatis (Nasua) e porcos-espinho (Coendou). Répteis, como grandes lagartos (Tupinambis), são capturados em menor frequência.

Caça no interior da floresta, usando poleiros altos para observar a passagem de possíveis presas. Desloca-se silenciosamente e rapidamente entre as árvores, capturando presas tanto no solo quanto nas árvores. Também pode seguir formigas-de-correição para capturar animais espantados por elas. Rodinson (1994) relatou quatro observações no Peru, do S. ornatus atacando saracuras e frangos d'agua em aguas rasas. Na Guatemala, um estudo sobre a dieta da espécie apontou que 55% da biomassa de presas era constituida por aves, 31% por mamíferos e 19% de outros vertebrados não identificados (Del Hoyo et al. 1994) Mais sobre alimentação...



Fêmea atacando ninho de suiriri (Tyrannus melancholicus). Iporanga/SP, Janeiro de 2013.
Foto:
João Sérgio Barros

Suiriri realizando "mobbing" contra fêmea de gavião-de-penacho que atacou seu ninho. Iporanga/SP, Janeiro 2013. Foto: João Sérgio Barros

• Reprodução: Realiza voos de acasalamento um ou dois meses antes do início da postura dos ovos, com trabalhos de retoque no ninho dias antes da postura. Constrói o ninho no topo de árvores emergentes, com alturas que variam de 16 a 30 metros (Fergunson-Lee & Christie, 2001). O ninho é construído na bifurcação primária ou secundária da árvore, uma imensa plataforma de galhos secos que pode ultrapassar 1 metro de comprimento e largura. Normalmente coloca um único ovo, que é incubado pela fêmea por 48-51 dias. Nesse período é alimentada pelo macho, como acontece em outros accipitrídeos (Sick 1997; Antas 2005). O filhote abandona o ninho com 80 dias de vida, mas permanece nas redondezas, dependendo dos pais por até 15 meses, fazendo com que haja um intervalo de pelo menos dois anos entre uma reprodução e outra (Antas 2005).



Adulto e filhote no ninho. Iporanga/SP, Dez. 2012.
Foto:
Hiroshi Hattori

Jovem exercitando asas. Iporanga/SP, Jan 2013.
Foto: Matias H. Ternes

No Rio Grande do Sul, Joenck et al. (2013) translocaram um ninho com filhote que estava situado próximo de uma barragem. O ninho foi translocado para um local seguro a cerca de 380 m do local original. A translocação foi considerada bem sucedida devido à aceitação do filhote translocado pelos pais, incluindo todo o cuidado parental e defesa da área do ninho.

• Distribuição Geográfica e subespécies:
Ocorre desde o sul do México até o Paraguai e norte da Argentina. No Brasil, ocorre em quase todas as regiões, exceto nas áreas mais secas do nordeste e nos pampas gaúchos (Sick 1997; Lima et al. 2006). Cerqueira et al. (2015) registraram o S. ornatus em uma área de caatinga no sul do Piauí, expandindo a distribuição da espécie para essa região.

São conhecidas duas subespécies, S. o. vicarius: ocorre das florestas úmidas do sul do México até o oeste da Colômbia e oeste do Equador.  S. o. ornatus: ocorre da região tropical úmida do norte da América do Sul até o norte da Argentina e por todo o Brasil.

• Hábitos/Informações Gerais: Estritamente florestal, pode ser encontrado nas mais distintas variações das florestas equatoriais e tropicais úmidas e estacionais e, no cerrado, pode ser observado em matas de galeria e matas ciliares preservadas, situadas até 900 m acima do nível do mar. Há também um registro inusitado da espécie em uma área de caatinga, no Parque Nacional Serra das Confusões, sul do Piauí, sugerindo que a espécie possa ocorrer nas vegetações mais arbóreas dos poucos explorados vales e cânions da região nordeste (Cerqueira et al. 2015).

Nas horas quentes do dia, gosta de aproveitar as termas quentes para planar e ganhar altura sobre o dossel da floresta, especialmente na época reprodutiva. Segundo Canuto (2008), é uma espécie muito sensível a fragmentação do habitat e da presença humana, raramente aparecendo nas bordas de florestas, que pode limitar sua capacidade de dispersar em ambientes fragmentados. Assim como a harpia (Harpia harpyja), esta ave tem grande apelo popular, não apenas pelo porte e coloração atraentes, mas especialmente por ser um exemplo destacado dos processos de extinção aos quais foram submetidas.

• Status nas listas vermelhas estaduais:

  Paraná: Em perigo (Mikich & Bérnils, 2004).
  Rio Grande do Sul: Criticamente em perigo (Rio Grande do Sul, 2014).
  São Paulo: Criticamente em perigo (Silveira et al., 2009).
  Minas Gerais: Em perigo (Copam 2010).
  Rio de Janeiro: Provavelmente extinto (Alves, et al. 2000).
  Espírito Santo: Criticamente em Perigo (Simon et al, 2007).
  Santa Catarina: Criticamente em Perigo (Consema 2011).

• Ameaças e conservação: Fora da região amazônica está criticamente ameaçado de extinção, presente em todos os livros vermelhos dos Estados sob domínio da Mata Atlântica. A alteração e a erradicação do habitat é um dos principais motivos do desaparecimento da espécie em vários trechos de Mata Atlântica no país (Mikich & Bernils, 2004; ICMBio 2008). Além disso, pode-se mencionar que ataques fortuitos deste rapineiro a animais de criação acabam por estimular abates, os quais, ainda que pontuais, colaboram com o declínio desta espécie (Mikich & Bernils, 2004; ICMBio, 2008).



Indivíduo adulto. Vale do Jamacá - Chapada dos Guimarães/MT, Out 2009. Foto: Eduardo Patrial

Indivíduo adulto em voo.
Urubici/SC, Janeiro de 2016.
Foto:
Willian Menq

Indivíduo subadulto. Reserva Rio das Furnas, Alfredo Wagner/SC, Fev 2010. Foto:Renato Rizzaro


Fêmea e jovem no ninho.
Iporanga/SP, Janeiro de 2013.

Foto:
Matias H. Ternes

Indivíduo adulto. Reserva Mangaloma, Pichincha, Equador.
Dez. 2010. Foto:
Ian Davies

Indivíduo adulto.
Corguinho/MS, Dezembro 2015.
Foto:
Willian Menq


:: Página editada por: Willian Menq em Fev/2016. ::



• Referências:

Albuquerque, J. L. B. (1995) Observations of rare raptors in Southern Atlantic rainforest of Brazil. J. Field Ornithol. 66: 363-369.

Canuto, M.; Zorzin, G.; Carvalho-Filho, E. P. M.; Carvalho, C. E. A.; Carvalho, G. D. M. & C. E. R. T. Benfica (2012) Conservation, management and expansion of protected and non-protected tropical forest remnants through population density estimation, ecology, and natural history of top predtors; case studies in birds of prey (Spizaetus taxon). pp. 359-388 in Dr. P. Sudarshana (ed.), Tropical Forests. InTech.

Canuto, M. (2008) Observations of two hawk-eagle species in a humid lowland tropical forest reserve in central Panama. Journal of Raptor Research 42:287-292.

Cerqueira, P. V., Gonçalves, G. S. R., Sousa, S. A., Paz, R. L., Landim, A. S. & Santos, M. P. D. (2015) First Record of the Ornate Hawk-Eagle (Spizaetus ornatus) from the Brazilian Caatinga. The Wilson Journal of Ornitholog 127(1):153–156.

Copam (2010) Deliberação Normativa COPAM nº 147, de 30 de abril de 2010: Aprova a Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna do Estado de Minas Gerais. Minas Gerais (Diário do Executivo), 04 Maio 2010.

Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA) (2011) Resolução   nº02/2011—Reconhece a lista oficial de espécies da fauna ameaçadas de extinção no Estado de Santa Catarina e dá outras providências. Florianópolis: CONSEMA/ SDS.

Dornas, T. & Pinheiro, R. T. (2007) Predação de Opisthocomus hoazin por Spizaetus ornatus e de Bubulcus ibis por Bubo virginianus em Tocantins, Brasil. Revista Brasileira de Ornitologia 15(4):601-604.

Ferguson-Lees, J. & D. A. Christie (2001) Raptors of the World. New York: Houghton Mifflin Company.

Ignis (2008) Lista das espécies da fauna ameaçadas de extinção em Santa Catarina. Disponível em: < www. http://ignis.org.br/lista > Acesso em Agosto de 2011.

Joenck, C. M.; Zilio, F. & Mendonça-Lima, A. (2013) Successful translocation of a nestling Ornate HawkEagle (Spizaetus ornatus) in southern Brazil. Revista Brasileira de Ornitologia, 21(2), 136-140

Lima, A., Zilio. F., Joenck, C. M. e Barcellos, A. (2006) Novos registros de Spizaetus ornatus (Accipitridae) no sul do Brasil. Revista Brasileira de Ornitologia 14 (3) 279-282.

Mikich, S.B. & R.S. Bérnils. (2004) Livro Vermelho da Fauna Ameaçada no Estado do Paraná. Disponível em: <http://celepar7.pr.gov.br/livrovermelho/> Acessado em: julho 2007.

Rio Grande do Sul (2014) Táxons da fauna silvestre do Estado Rio Grande do Sul ameaçadas de extinção. Decreto N.º 51.797, de 8 de setembro de 2014. (publicado no DOE n.º 173, de 09 de setembro de 2014).

Robinson, S.K. (1994) Habitat selection and foraging ecology of raptors in Amazonian Peru. Biotropica 26:443-458.

Sick, H. (1997) Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 862p.

Zorzin, G., C.E.A. Carvalho, E.P.M. Carvalho Filho & M. Canuto. (2006) Novos registros de Falconiformes raros e ameaçados para o estado de Minas Gerais. Revista Brasileira de Ornitologia 14 (4): 417-421.

• Site associado: Global Raptor Information Network (em inglês)

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2016) Gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/spizaetus_ornatus.htm > Acesso em: