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Entrevista com Marta Curti
Marta Curti é pesquisadora e trabalha no Fundo Peregrino, atuando na conservação das aves de rapina neotropicais, trabalhando principalmente com Harpias e falcões-de-peito-vermelho.

Foto: Angel Muela

1. Comente um pouco sobre você, onde nasceu, estudou e onde trabalha:
R - Nasci em Los Angeles, Califórnia, E.U.A. Embora tenha passado minha infância em uma cidade grande, eu cresci na periferia e observava com bastante frequência cervos e coiotes, gaviões-de-cauda-vermelha e coruja-jarucutu. A emoção que sentia desde criança ao ouvir uma coruja piando à noite ou de um gavião mergulhando contra sua presa, continua até hoje. Apesar de minha paixão pela vida selvagem, acabei não cursando biologia na universidade, a princípio eu queria ser professora e realizei o bacharel em comunicação/Escrita Criativa e meu mestrado em Educação.

Meu trabalho como "bióloga de campo" começou depois que deixei o ramo de ensino e comecei a trabalhar como educadora ambiental em um parque nacional. Nas horas vagas, me oferecia para sair com os biólogos de campo do parque para aprender o máximo que puder com eles. Minhas primeiras experiências foram nas trilhas onde fazíamos um levantamento sobre os principais efeitos que as estradas fazia sobre a fauna do parque. Como eu me deslocava muito para trabalhar como educadora ambiental em diferentes parques nacionais e refúgios de vida selvagem do Alasca ao Arizona continuava dedicando meu tempo livre com os biólogos em campo. Eventualmente começei a fazer meus próprios projetos, tais como anilhamento de aves aquáticas, contagem de aves, carneiros selvagens e monitoramento com radiometria de Antilocarpas (Antilocapra americana) que é um mamífero de aparência que lembra um grande cervo.

Em 2000, comecei como assistente para o Fundo Peregrino "The Peregrine Fund” no trabalho com o falcão-de-coleira onde fiquei fascinada! Estava então com dois empregos, dedicando-me de forma parcial ao Fundo Peregrino, supervisionando e fazendo pesquisas. Após três temporadas, quando trabalhava no projeto Condor da Califórnia, me tornei uma funcionária em tempo integral do Fundo Peregrino e tive então a sorte de poder ir viajar para o Panamá e trabalhar com os programas de preservação da Harpia (Harpia harpyja) e do falcão-de-peito-vermelho (Falco deiroleucus). Morei no Panamá por sete anos e retornei recentemente aos E.U.A. onde continuo trabalhando para o Fundo Peregrino, principalmente com os falcões-de-peito-vermelho.

2. Como começou sua carreira na Biologia de campo, em particular as aves de rapina?
R - Sempre tive uma grande afinidade com animais, em especial os predadores, mas meu amor em particular com as aves de rapina surgiu alguns anos mais tarde. Estava trabalhando no Refugio de vida selvagem Bosque del Apache, no Novo México, que é uma área importante de migração de gansos, águias e outras aves, é o paraíso dos tartaranhões (Circus) e dos gaviões-de-cauda-vermelha, foi nesta local que observei pela primeira vez as aves de rapina interagindo dentro de uma comunidade preservada. Na época, como eu trabalhava como educadora, tentava aprender o máximo possível da flora e fauna da região para compartilhar essas informações com o publico em geral.

Quanto mais eu aprendia sobre as aves, mais vezes eu as observava e minha fascinação foi aumentando com o decorrer do tempo. A partir desse momento, já me considerava uma viciada na observação de aves, não fazia listas das visualizações, focava mais no comportamento e interações das espécies em seu ambiente. Acho que sempre fui atraída por predadores de qualquer espécie: ursos, lobos, felinos, serpentes, era natural que o meu amor às aves evoluísse para uma paixão ainda maior com as aves de rapina.

3. Quem tem sido uma grande inspiração para você?
R - Acho que a pessoa que mais me inspirou foi minha mãe. Ela era muito forte e uma mulher independente, me ensinou a nunca ter medo de trabalhar duro para que meus objetivos fossem alcançados. Tantas coisas na vida somos influenciados pela sociedade para coisas que devemos fazer “carreiras que devemos seguir”, mas muitas vezes esquecemos que devemos seguir e fazer aquilo que realmente nos faz feliz. Às vezes nossas escolhas podem parecer assustadoras, mas sempre vale o risco. Minha mãe me ensinou desde cedo que devemos aprender essas lições todos os dias.

Outra pessoa que me inspirou muito foi a minha amiga Betty, que a conheci a cerca de 10 anos atrás. Nessa época ela estava com 60 anos, fazia o monitoramento de falcões peregrinos e falcões-da-pradaria (Falco mexicanus) na Califórna e no Maine. Até hoje ela continua este trabalho e continua me inspirando, porque ela me ensinou que a idade não significa nada, contanto que você tenha paixão por aquilo que está fazendo.

4. Comente um pouco sobre suas pesquisas
R - Atualmente estou trabalhando no projeto do falcão-de-peito-vermelho no Fundo Peregrino. Estamos estudando esta espécie em toda sua distribuição, mas atuando principalmente na população da América Central. Até agora, nossos estudos sugerem que a população do norte pode estar limitada a Belize e na região de Petén, na Guatemala. Nós fizemos pesquisas em Honduras, Guatemala e Nicarágua, mas não encontramos nenhuma evidência dos falcões-de-peito-vermelho nessas áreas. Sabemos de casais que se reproduzem em Belize/Guatemala e no Panamá, perto da fronteira com a Colômbia.

Através da nossa pesquisa, esperamos compreender por que essa espécie parece estar ausente do habitat aparentemente adequado e entender a dinâmica da população, a fim de chegar a um plano de conservação e manejo para a espécie.

5. Quais projetos você já participou no Fundo peregrino? Com quais espécies de aves de rapina teve contato?
R - Quando comecei no Fundo Peregrino em 2000, eu trabalhava de forma parcial com os falcões-de-coleira. Imediatamente veio o amor aos falcões, era um sonho passar horas observando eles e todo seu comportamento. Foi uma decisão difícil abandonar o antigo emprego na Fish and Wildlife Service porque eu adorava o trabalho e participava de um programa de trabalho mexicano com lobos cinzentos e outras espécies interessantes, mas as aves de rapina era a minha paixão e resolvi dedicar-se ao trabalho de conservação com elas.

Na temporada seguinte, continuei com o projeto do falcão-de-coleira onde fazíamos pesquisas nos ninhos e solturas de indivíduos, fiquei trabalhando nesse projeto por três temporadas e amei cada momento dele, apesar dos mosquitos me mordendo e do calor intenso do Texas. Durante esta época passei um inverno ajudando no projeto Condor da Califórnia, no Arizona. Em 2002 realizaei o sonho de viver no Panamá e trabalhar com a Harpia. Tínhamos um programa de reprodução em cativeiro e libertação de harpias, além disso eu fazia o monitoramento destas águias após sua libertação na natureza. Trabalhei também nos programas de educação ambiental em áreas rurais e urbanas em todo o Panamá e no México, Belize e Guatemala. Atualmente trabalho no projeto de conservação do falcão-de-peito-vermelho em Belize e na Guatemala.

6. Qual foi o momento mais marcante em sua carreira?
R - Tive várias experiências emocionantes durante minha carreira, como escalar um ninho selvagem de Harpia; ver onça-pintada caminhando tranqüilamente pela floresta; trabalhar com as comunidades indígenas no Panamá para ajudar a preservar a Harpia; a primeira vez que vi um falcão-de-peito-vermelho na floresta, etc.

Apesar de tantas experiências emocionantes, acho que para responder essa pergunta terei que voltar bem do inicio. O meu momento mais marcante foi quando comecei a trabalhar no projeto falcão-de-coleira. Cheguei no Texas e me encontrei com funcionários do Fundo Peregrino que carregavam uma jaula com cinco falcões dentro. Subimos a uma torre de soltura a uma altura que pude ver os campos de agricultura pontilhados com árvores. O coordenador da liberação puxou um dos falcões da caixa e me entregou, esse foi um dos momentos que eu percebi que estava iniciando minha carreira com os raptores. Foi o momento em que minha vida mudou e nunca esquecerei.

7. Qual é sua ave de rapina preferida?
R - Tenho pensado muito nessa resposta, toda vez que tenho contato com uma espécie, como o gavião-pato por exemplo, e outras dez espécies fico pensando em minha cabeça qual seria a mais favorita. Mas particularmente sinto-me atraída pelos falcões por causa de sua incrível habilidade de vôo e também gosto muito de corujas, por serem belas e diferentes, mas escolher uma única espécie dentre todas aves de rapina fica difícil para mim.

Então vou responder a esta pergunta de uma maneira diferente. Minha ave de rapina favorita foi uma harpia chamada Luigi. Luigi nasceu em cativeiro no Fundo Peregrino, ela viajou com a gente por todo o Panamá, fazendo parte de nosso programa de educação ambiental por lá. Luigi era uma ave inteligente, gentil e muito curiosa, ela pegava o menor pedaço de comida no seu dedo com movimentos muito delicados, era brincalhona e parecia gostar da companhia dos seres humanos. Esta harpia foi uma embaixadora da espécie e tem ajudado milhares de pessoas a abrirem seus olhos para a importância de proteger este predador.

8. Na sua opinião, Hoje qual é o maior desafio para a conservação das aves de rapina neotropicais? Quais ações são necessárias para a conservação destas espécies?
R - Acho que os mesmos problemas que as aves de rapina neotropicais estão enfrentando (perseguição humana, perda de habitat) são os mesmos problemas que a natureza em todo o mundo esta enfrentando. No mundo atual, com a expansão da população humana os recursos naturais tendem a diminuir, acho que o maior desafio é encontrar uma maneira dos animais e dos humanos viverem juntos em harmonia. Muitas vezes as pessoas e as organizações ficam divididas se ajudam as pessoas ou os animais selvagens, quando na realidade os dois estão entrelaçados. Se nosso planeta não estiver bem, nós como uma população também não estaremos bem, e se estivermos bem (Manutenção dos extremos de pobreza e riqueza) o ambiente continuará a sofrer. Assim, além de simplismente educar as pessoas sobre os benefícios da natureza, temos também de encontrar soluções para as pessoas sobreviver e ganhar a vida sem a necessidade de explorar o meio ambiente. Devemos fazer os ambientes naturais com os mais valiosos, precisamos também educar os consumidores a comprar produtos fabricados na região, comprar de empresas responsáveis, e consumir menos. Podemos usar nossa voz para a política, seja por governos ou grandes corporações, já que eles podem gerar efeitos negativos para o meio ambiente, precisamos não só de pessoas que sabem da importância de lutar pela preservação, mas sim das que têm a coragem de agir pela causa.

9. Que mensagem gostaria de passar aos jovens estudantes que pretendem seguir uma carreira na conservação das aves de rapina?

R - Se você é apaixonado por aves de rapina, busque por elas!

Mas tenha em mente que trabalhar no campo da conservação, você deve ter uma “pele grossa” e estar preparado para muitos obstáculos. A vida de um conservacionista é preenchida com muitos dias de frustração, tristeza e sentimentos de desamparo. Você vai presenciar muitas coisas ruins, como pessoas atirando em aves, destruição de habitat, poluições, etc., e as vezes pode parecer desmotivador, podendo até ter vontade de desistir. Mas haverá muitos dias bons, e não importa o quê, temos que manter a perseverança. É uma batalha árdua, mas com uma grande numero de pessoas lutando pela preservação, a batalha pode sim ser vencida.

Marta Curti | Field Biologist
The Peregrine Fund - www.peregrinefund.org


Entrevista realizada por Willian Menq via email, Publicada em: 18 de Setembro de 2010.