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As aves de rapina migratórias

Texto de: Willian Menq
Publicação: 15 de Maio de 2015

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Gavião-tesoura (E. forficatus).
Foto: Willian Menq

Durante o inverno do hemisfério norte, a baixa oferta de alimentos aliada a fatores endógenos, induz a migração de várias espécies de falcões e gaviões. Eles migram para seus sítios habituais de alimentação ou áreas de invernada para as regiões mais quentes do continente. Montanhas, florestas densas, oceanos e lagos são obstáculos frequentes no caminho desses migrantes.

Em algumas espécies, todos os indivíduos migram. Em outras, somente parte da população realiza migração. A distância percorrida varia entre as espécies, o gavião-miúdo (Accipiter striatus), por exemplo, realiza pequenas migrações dentro da América do Norte. Já alguns indivíduos de falcão-peregrino (Falco peregrinus) se deslocam mais de 22 mil quilômetros até seu destino final, no extremo sul da América do Sul. Normalmente as aves de rapina se deslocam durante o dia, parando ao anoitecer. Porém, em paisagens monótonas ou lugares sem poleiros para descanso, como no oceano, elas podem voar por toda a noite e por várias horas seguidas, não é difícil falcões-peregrinos e águias pescadoras voarem por mais de 40 h sem escala sobre o mar.

Como as aves de rapina encontram o caminho para seus habitats temporários é uma incógnita. Alguns estudos antigos sugerem que as aves usam o sol e as estrelas para navegar, contando também com detalhes da paisagem, já outros trabalhos mais recentes apontam o magnetismo da Terra, além de detalhes da paisagem, como meio de orientação durante as migrações (Wiltschko & Wiltschko, 2009). Por que os rapinantes retornam para a América do Norte também não é muito óbvio. Pesquisadores acreditam que o baixo número de predadores, competidores, dias mais longos para a caça, e acima de tudo, mais abundância de presas, aumenta o sucesso reprodutivo na zona temperada. Acredita-se que a duração do dia, direção do vento e mudanças hormonais desempenham um papel importante no instinto migratório das aves de rapina, funcionando como um “gatilho” para que elas iniciem as migrações.

Estratégias de migração
Rapinantes de asas largas, como as águias, gaviões buteonines e urubus, usam as correntes de ar ascendentes e térmicas para ganhar altura e migrar longas distâncias planando. Com isso, essas aves conseguem voar mais de 450 km por dia, evitando grandes massas de água dando preferências por caminhos terrestres, onde as correntes de ar ascendentes e térmicas ocorrem com mais frequência. Como gastam pouca energia, muitas espécies quase que não se alimentam na jornada de migração, com pouquíssimas paradas. Já os falcões (Falco spp) apresentam um voo mais “braçal”, com batidas de asa durante os deslocamentos. Os voos batidos permitem que estas aves voem de forma mais retilínea. Como o voo batido gasta muito mais energia se comparado ao voo planado, alguns falcões chegam a ganhar mais de 20% do seu peso corporal em gordura antes de começar a migrar, também necessitam caçar quase que diariamente no inicio da manhã ou final do dia, durante a migração.

A maioria das aves de rapina são solitárias na maior parte do ano. Algumas espécies, no entanto, se reúnem em bandos de dezenas ou centenas de indivíduos durante a migração, como é o caso do gavião-do-mississippi (Ictia mississippiensis). Se reunindo em bandos, fica mais fácil localizar as correntes térmicas e usá-las de forma mais eficiente.

Espécies migratórias que ocorrem no Brasil
Pelo menos nove espécies de rapinantes são migrantes regulares no Brasil: a águia-pescadora (Pandion haliaetus), gavião-do-mississippi (Ictia mississippiensis), gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus), gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni), falcão-peregrino (falco peregrinus), esmerilhão (Falco columbarius), sovi (Ictinia plumbea), gavião-tesoura (Elanoides forficatus) e o gavião-bombachinha (Harpagus diodon).



Gavião-do-mississippi (Ictinia mississippiensis).
Foto:
Bill Clark

Área de ocorrência do gavião-do-mississippi (Ictinia mississippiensis) no continente americano.

Migrantes da Mata Atlântica
O sovi (Ictinia plumbea) ocorre por quase todo o Brasil, exceto nos pampas gaúchos e no sertão nordestino. As populações do sul e sudeste, e parte do centro-oeste são migratórias, deslocando-se para o norte do continente no final janeiro/inicio de fevereiro. Em março, a espécie praticamente some do sul, sudeste e centro-oeste do país (exceto norte do MT), com alguns registros ocasionais de indivíduos solitários nos meses frios (abril a julho). Em agosto, as populações migratórias começam o regresso para o sul/sudeste/centro-oeste onde vão reproduzir-se, com maior pico de chegada ao final de setembro.

O gavião-tesoura (Elanoides forficatus), durante o período de abril a julho, suas populações estão concentradas no norte do continente, principalmente na região amazônica. No Brasil, limitado aos estados da região norte, incluindo norte do Mato Grosso, extremo noroeste do Tocantins e oeste do Maranhão. A partir do final de julho e inicio de agosto os E. forficatus iniciam seus movimentos migratórios para o sul e sudeste do Brasil. Já em meados de agosto, especialmente nas duas ultimas semanas, grandes concentrações podem ser avistadas nas regiões onde a espécie realiza “stoppover”, que são paradas de pouso temporário para descanso e alimentação antes de chegar ao destino final. Os bandos podem ultrapassar 100 indivíduos, e os estados do MS, MT e noroeste e norte do PR e SP, são as áreas mais estratégicas para visualização desses bandos.

A partir de setembro, boa parte dos E. forficatus já atingiram seu destino final de migração, podendo ser encontrado desde o extremo sul da Bahia até o norte/nordeste do Rio Grande do Sul. Aparentemente, os dados sugerem que as maiores concentrações da espécie estão no noroeste do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, sul do Paraná e sudeste de São Paulo. Já nas primeiras semanas de março, as populações iniciam o regresso para a região amazônica, alguns estados como o Rio de Janeiro, Espírito Santo, sul da Bahia e Minas Gerais, praticamente não são mais encontrados E. forficatus nesse período. Nesse período, grandes concentrações da espécie podem ser avistadas regressando. Em Maringá/PR, por exemplo, Fernandes (2013) avistou um bando com aproximadamente 200 indivíduos sobrevoando um parque urbano da cidade, provavelmente regressando para o norte do país. Em abril, o E. forficatus  já não é mais visto no sudeste/sul do país.

O gavião-bombachinha (Harpagus diodon), florestal, possui movimentos migratórios pouco conhecido. Recentemente, Lees & Martin (2015) analisaram centenas de registros da espécie em bancos de dados diversos, e descobriam que o gavião-bombachinha é um migrante regular, passa o verão nas florestas do sul e sudeste (onde se reproduz), indo para a bacia amazônica durante o inverno. Cabanne & Seipke (2005) registraram grupos de muitos indivíduos em voos planados ao longo das encostas do Itatiaia (RJ), sugerindo que estavam em migração.


Grupo de gavião-tesoura (Elanoides forficatus) no sul
do Brasil. Foto:
Willian Menq

Gavião-bombachinha (Harpagus diodon), em sua área reprodutiva, no sudeste do Brasil. Foto: Willian Menq

Migrantes vindos do Hemisfério Norte
O gavião-do-mississippi (Ictinia mississippiensis), é um migrante oriundo do sul e leste dos Estados Unidos (Arizona, Kansas, Illinois, Missouri e Kentucky até Carolina do Sul). Se reproduz por lá, e partir do final de agosto/inicio de setembro inicia os movimentos migratórios para a América do Sul, cruzando a América Central e usando a região central da América do Sul como rota migratória para chegar ao Paraguai e norte da Argentina. Migram em bandos de centenas de indivíduos, sendo que nos meses de setembro outubro podem ser avistados cruzando ou realizando paradas temporárias na região norte e centro-oeste do Brasil e Bolívia (Figura 8). Permanecem nas áreas de invernada no norte da Argentina e Paraguai de setembro até abril, já no final de março e inicio de abril bandos podem ser registrados cruzando os estados do MT, MS, RO, AC e AM. Em maio já desaparecem por completo da América do Sul.

A águia-pescadora (Pandion haliaetus) realiza migrações incríveis. A partir do inicio da primavera começa seus movimentos migratórios para a América do Sul. Em média, aparece no Brasil em outubro (pode variar dependendo da região do país) e retorna no final de março ou inicio de abril. Pode voar de 5 a 15 mil km de sua área reprodutiva até os sítios de invernagem, com percursos que duram de 20 a 30 dias. Migra principalmente durante o dia, por mais de 8 h consecutivas, voando em média 200 km/dia, realizando poucas paradas para descanso e alimentação, por vezes voando mais de 40 h consecutivas (quando voam sobre o oceano). Normalmente voa em alturas que variam de 800 a até 2.500 m quando há térmicas favoráveis, especialmente em áreas desérticas/marítimas. Em situações climáticas adversas, como fortes tempestades, a águia cessa as atividades e espera o tempo melhorar. Indivíduos jovens em sua primeira migração, podem permanecer no Brasil por 2 ou mais anos até retornarem a América do Norte para se reproduzir, sempre retornando para os mesmos locais. A espécie pode ser encontrada em qualquer região do Brasil, habita lagos, rios, estuários e áreas costeiras. Também pode ser vista em ambientes aquáticos inseridos em áreas urbanas, como é o caso das cidades de Manaus/AM, Belém/PA, Rio de Janeiro/RJ, Florianópolis/SC, Porto Alegre/RS, Sobral/CE, etc.

O gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus), oriundo da América do Norte e Central, migra para o noroeste da América do Sul, normalmente usando a parte terrestre da América Central como rota de migração. Conta com poucos registros no Brasil, talvez por ser ignorado/confundido com outros gaviões comuns, como o gavião-carijó (R. magnirostris). Aparece no Brasil na região norte e centro-oeste (Stotz 1992). Conta também com um registro no sul do país, no Parque Estadual do Turvo (Meller & Bencke, 2012), sugerindo uma ampliação da área de invernagem da espécie no país. Já o gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) tem como destino final o extremo sul do Brasil, Argentina e Uruguai, podendo ser registrado em outras partes do país como vagante durante seu processo de migração, com predominância de registros de indivíduos jovens (Mikich & Bernils 2004).



Gavião-de-asa-larga. Foto: Brian K. Wheeler

Área de ocorrência do gavião-de-asa-larga


Gavião-papa-gafanhoto. Foto: Glen Tepke

Área de ocorrência do gavião-papa-gafanhoto

O falcão-peregrino (Falco peregrinus) é o rapinante migratório mais popular, aparece no Brasil entre os meses de outubro e abril. Pode ser observado em praticamente todas as regiões, sendo mais comum nos grandes centros urbanos e cidades costeiras. É um falcão cosmopolita, ou seja, ocorre em quase todas as regiões do planeta. No continente americano ocorrem quatro subespécies, das quais duas chegam ao Brasil durante movimentos migratórios: o F. p. tundrius, mais ártica e o F. p. anatum. O tundrius é uma raça menor, vive nas regiões mais setentrionais da América do Norte. É a subespécie norte-americana que mais responde aos estímulos migratórios com deslocamentos de longa distância. O F. p. anatum tem uma distribuição mais ampla, abrangendo áreas de amplitudes térmicas variáveis e menos extremas, e dado a isso, nem todos chegam a se deslocar tanto do seu ponto de origem, mas os que se deslocam mais chegam a atingir os países sul-americanos, inclusive o Brasil.

Uma característica impressionante do falcão-peregrino é sua fidelidade aos locais de invernagem, de forma que os mesmos indivíduos retornem todos os anos para os mesmos territórios. A mesma fidelidade também é observada quanto aos poleiros utilizados nessas áreas, tanto os de uso estratégico para caça, como os poleiros de repouso e alimentação. No município de Maringá/PR, alguns indivíduos foram observados usando os mesmos poleiros de repouso noturno por quatro temporadas consecutivas (2012 a 2015) (W. Menq, in prep). Em Salvador/BA, há registros mais impressionantes de indivíduos usando os mesmos pontos de invernagem por sete temporadas consecutivas (obs. pess. Sávio Drummond). Normalmente migram e permanecem solitários nas áreas de invernagem, mas também pode aparecer em casais, inclusive compartilhando os mesmos territórios e poleiros nas áreas de invernagem (W. Menq, in prep.)



Falcão-peregrino (Falco peregrinus) em área de invernagem. Foto: Willian Menq

Área de ocorrência do falcão-peregrino (F. peregrinus)
no continente americano.

O esmerilhão (Falco columbarius), também se desloca para a América do Sul durante seu período não-reprodutivo, migrando para o norte do Peru, Venezuela e norte do Brasil (região amazônica). É um migrante raro, de baixa abundância e muito semelhante aos outros falcões que ocorrem no Brasil, podendo inclusive ser confundido com um jovem quiriquiri (F. sparverius). Dornas & Pinheiro (2014) sugerem que a espécie esteja sendo subamostrada no país.



Referências:

Dornas, T. & Pinheiro, R. T. (2014) First record of Merlin Falco columbarius from Tocantins and a review of previous Brazilian records. Revista Brasileira de Ornitologia, 22(1) 49-52

Hawk Montain (2015) Raptor Tracking Maps. Disponível em: <http://www.hawkmountain.org/ > Acesso em maio de 2015.

Fernandes, E. (2013). [WA906222, Elanoides forficatus (Linnaeus, 1758)]. Wiki Aves - A Enciclopédia das Aves do Brasil. Disponível em: <http://www.wikiaves.com/906222> Acesso em: 14 Mai 2015.

Lees, A. C. & Martin, R. W. (2015). Exposing hiden endemism in a Neotropical forest raptor using citizen science. Ibis (157) 103–114.

Meller, D. & Bencke, G. A. (2012) First record of the Broad-winged Hawk Buteo platypterus in southernBrazil, with a compilation of published records for the country. Revista Brasileira de Ornitologia, 20(1), 75‑80

Menq, W. Casais de falcões-peregrinos em invernagem no Brasil (in prep.)

Mikich, S.B. & R.S. Bérnils (2004) Livro Vermelho da Fauna Ameaçada no Estado do Paraná, Maternatura.

Rutland Osprey Project. Monitoramento de águias-pescadoras. Disponível em: < http://www.ospreys.org.uk/ > Acesso em maio de 2015.

Sick, H. (1997) Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 862p.

Stotz, D. F.; Bierregaard Jr., R. o.; Cohn-Haft, M.; Petermann, P.; smith, J.; Whittaker, A. and Wilson, s. v. (1992). The status of North American migrants in central Amazonian Brazil. Condor, 94:608-621

Wiltschko, R. & Wiltschko, W. (2009) Avian Navigation. The Auk 126(4) 717-743.

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2015) Aves de rapina migratórias - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/Aves_de_rapina_migratorias.pdf > Acesso em: