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Aves de rapina "fantasmas"
Por: Willian Menq | 29 de janeiro de 2013
 
 



Tauató-pintado (Accipiter poliogaster). Foto: Willian Menq

Algumas espécies de aves são extremamente difíceis de serem encontradas na natureza, seja pelo seu comportamento inconspícuo, raridade natural ou por problemas metodológicos. Dessa forma, essas espécies são vulgarmente chamadas de “aves fantasmas”, ou seja, aves de difícil de detecção na natureza.

Dentre as aves de rapina brasileiras, existem pouco mais de meia dúzia de espécies chamadas de “fantasmas” pelos ornitólogos e observadores de aves. Mesmo em áreas com ocorrência conhecida/registros recentes da espécie, o encontro com essas aves fantasmas é sempre difícil. Na maioria das vezes são aves ariscas, discretas, de hábitos florestais e com baixas densidades populacionais.

Tauató-pintado, mais discreto do que raro?

O tauató-pintado (Accipiter poliogaster) é um dos gaviões mais subamostrados do Brasil. Ocorre em toda a América do Sul, contando com poucos registros em toda sua área de ocorrência, e o motivo de sua baixa detecção parece estar associado ao seu comportamento. É um gavião muito discreto, raramente plana ou sobrevoa a floresta, e quando resolve voar acima da mata desloca-se rápido e de forma retilínea (Ridgely & Greenfield 2001). Além disso, o A. poliogaster parece ter um temperamento arisco e desconfiado, dificilmente permitindo a aproximação humana, e ao perceber a aproximação de uma pessoa voa para um poleiro distante e pousa com o dorso voltado ao observador, dificultando sua observação (obs. pess. W. Menq). Essa espécie é mais detectável no período reprodutivo, quando vocaliza com mais frequência, anunciando sua presença contra intrusos que se aproximam da área do ninho.

Além do comportamento tímido, o A. poliogaster possui diferentes plumagens que pode gerar confusões nas identificações. O macho adulto pode ser confundido com o subadulto de A. bicolor (gavião-bombachinha-grande). A fêmea adulta também pode ser confundida com o jovem A. bicolor bicolor, subespécie da região amazônica, que possui o ventre branco e o dorso escuro muito similar ao do A. poliogaster. O Micrastur mirandollei (falcão-tanatau), também pode ser confundido com ele, inclusive há um artigo sobre a nidificação de A. poliogaster que foi erroneamente identificado como sendo de M. mirandollei (Thorstrom 2002). Já os jovens de A. poliogaster possuem plumagem mimética do Spizaetus ornatus (gavião-de-penacho), que em avistamentos rápidos pode ser facilmente confundido como tal. Por essas razões, comportamento e dificuldade de identificação, acredito que o A. poliogaster seja mais comum do que imaginamos.


A esquerda um indivíduo jovem de Accipiter poliogaster (Foto: Cristian Gamboa), à direita o Spizaetus ornatus adulto (Foto: Ian Davies).

Fêmea adulta de Accipiter poliogaster registrada no interior de Santa Catarina. Novembro de 2012.
Foto: Willian Menq

Gavião-miúdinho

O gavião-miudinho (Accipiter superciliosus) é o menor representante do gênero Accipiter no Brasil, medindo de 20 a 26 cm. Ocorre desde a América Central até a Argentina, incluindo todo o Brasil. Assim como o A. poliogaster, o status de fantasma se deve principalmente ao seu comportamento discreto e identificações imprecisas. Vive no estrato médio de florestas primárias e secundárias, mas pode ser observado cruzando clareiras e plantações. Dificilmente plana ou vocaliza, e seu pequeno tamanho aumenta a dificuldade de encontrá-lo. É também muito parecido com o gavião-miúdo (Accipiter striatus), podendo ser identificado erroneamente em campo, já que a maioria dos contatos visuais com esta ave são observações rápidas, dificultando ou impedindo a observação de características diagnósticas da espécie.

Coruja-preta

A coruja-preta (Strix huhula) ocorre em toda a América do Sul, habita florestas, borda de matas e até parques em áreas urbanas, geralmente usando o estrato médio ou alto da mata. Conta com registros pontuais ao longo de sua distribuição, no Brasil a maioria dos registros estão concentrados na região amazônica e em alguns trechos do Brasil-Central e da Mata Atlântica do sudeste.

Nos locais com registros conhecidos sua detecção é relativamente fácil, assim como as outras espécies de seu gênero, responde bem ao playback e vocaliza com frequência no período reprodutivo. Por isso, a S. huhula parece ser naturalmente rara, com baixas densidades populacionais. Além disso, por ser noturna e florestal, pode ser subamostrada em muitos inventários avifaunísticos (de pesquisa ou consultoria), normalmente realizados apenas no período diurno, colaborando com o baixo número de avistamentos da espécie.

Caburé-acanelado

A caburé-acanelado (Aegolius harrisii) ocorre em grande parte do Brasil, desde o Ceará, Pernambuco até o Rio Grande do Sul, normalmente encontrada em florestas pouco densas, mata rala e cerrado. Apesar da ampla distribuição no país, os registos são pontuais, existindo várias regiões/Estados sem nenhum registro da espécie.

O motivo da baixa detectabilidade da A. harrisii parece estar associado ao seu comportamento discreto. Segundo Barrionuevo et al. (2008) a vocalização da A. harrisii é pouco audível à distância, além disso, a vocalização é parecida com a de muitos anfíbios, podendo ser ignorada por observadores pouco familiarizados com o canto durante amostragens noturnas. De acordo com Girão & Albano (2010) sua atividade sonora se restringe a um curto período do ano, e sua distribuição espacial é aglutinada, com cerca de três casais distantes em média 100 metros uns dos outros, sem outras aglomerações próximas (König 1999).

Além disso, pouco se sabe sobre suas preferências de habitat. Com base nos avistamentos recentes da espécie, a coruja aparentemente prefere matas ralas, borda de matas e cerradão, evitando florestas densas, onde o risco de predação e competição com corujas maiores é mais alto. Por essas razões, é possível que a A. harrisii seja mais discreta do que rara.


Caburé-acanelado (A. harrisii). Campos do Jordão/SP, Jun 2013. Foto: Willian Menq

Coruja-preta (Strix huhula) em Cocalinho/MT, Setembro de 2013. Foto: Willian Menq

Falcão-de-peito-laranja, o mais raro dos falcões

O falcão-de-peito-laranja (Falco deiroleucus) ocorre desde o sul do México até o norte da Argentina, incluindo todo o território Brasileiro; habita regiões densamente florestadas, dando preferência por áreas adjacentes à rios e lugares com paredões rochosos. É o falcão mais enigmático das Américas, o motivo por ser apelidado de ave fantasma pode ser atribuído a sua raridade natural. Cade (1982) considera o F. deiroleucus o falcão de distribuição mais escassa do mundo, e as razões para sua escassez não são aparentes. Na década de 80, pesquisadores visitaram várias localidades na América Central com hábitats adequados para a espécie, mas só foi observado um único indivíduo nestas expedições (Cade 1982).

Devido à carência de registros, é difícil apontar se o F. deiroleucus está ameaçado ou não. Na IUCN (2013) é listado como uma ave de baixo risco de extinção, devido principalmente à ampla distribuição. No entanto, é considerado ameaçado de extinção em diversos países da região neotropical. No Brasil, é listado como espécie deficiente de dados pelo Plano de Ação para conservação das aves de rapina, do ICMBIo (2008). É listado como ameaçado de extinção em todos os Estados que possuem livros vermelhos. No Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro já é considerado como “provavelmente extinto” (Marques, et al. 2002; Alves el al. 2000), em Minas Gerais é considerado “criticamente em perigo” (Drummond et al. 2008), no Espírito Santo e São Paulo está na categoria de dados desconhecidos (Silveira et al. 2009; Simon et al. 2007).

Avistamentos recentes do F. deiroleucus são poucos, a maioria estão concentrados na bacia amazônica (Whittaker, 1994) e alguns poucos no sudeste e centro-oeste do Brasil (ICMBio, 2008). A raridade é tamanha que em alguns Estados a espécie nunca foi registrada, e nos que possuem registros, contam com apenas dois ou mais registros. Além da raridade natural, seu comportamento discreto também contribui com sua baixa detectabilidade em campo. Esse falcão passa maior parte do dia empoleirado e escondido na floresta, evitando os horários quentes do dia, com as atividades de caça concentradas nas primeiras horas da manhã e no final da tarde.


Falcão-de-peito-vermelho em Fundão - ES, Jul de 2008
Foto:
Gustavo Magnago

Provável distribuição da falcão-de-peito-vermelho no Brasil, e áreas com dados inexistentes.

Uiraçu-falso, a águia-fantasma!

O uiraçu-falso (Morphnus guianensis) é uma grande águia florestal, as fêmeas chegam até 89 cm de comprimento e 1,5 m de envergadura. Apesar do grande tamanho, o M. guianensis é um verdadeiro fantasma das florestas. Desde sua descoberta em 1800, poucos foram os estudos acerca de sua biologia. Habita o interior da floresta, raramente sai da mata ou plana; caça por espreita, passa longos períodos do dia pousado em galhos altos, silenciosamente, caçando animais sob e entre as copas das árvores. Devido ao comportamento discreto e de espreita, acaba sendo um desafio encontrá-lo na natureza. Somado a isso, a destruição de áreas florestais contínuas do Brasil, sobretudo na Mata Atlântica, contribuiu significativamente para o desaparecimento e redução das populações de M. guianensis no país. Atualmente o M. guianensis conta com populações razoáveis na região amazônica, sendo raríssimo em qualquer outra região do país.

Além do M. guianensis, existem outras espécies que são raras devido à falta de áreas naturais preservadas, como é o caso dos gaviões-de-penacho (Spizaetus spp), gavião-real (Harpia harpyja) e águia-cinzenta (Urubitinga coronata), além daquelas que são raramente vistas devido a distribuição restrita (Micrastur buckleyi, Megascops guatemalae).


Uiraçu-falso (M. guianensis) macho adulto.
Foto: Andrew Whittaker

Falcão-de-peito-laranja. Alfredo Chaves/ES. Setembro de 2011. Foto: Joselito Nardy

 

Referências:

Alves, M. A. dos S., J. F. Pacheco, L. A. P. Gonzaga, R. B. Cavalcanti, M. A. Raposo, C. Yamashita, N. C. Maciel & M. Castanheira (2000) Aves, 113-124 In: H. de G. Bergallo, C. F. D. da Rocha, M. A. dos S. Alves e M. Van Sluys (orgs.) A fauna ameaçada de extinção do estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Barrionuevo, C.; Ortiz, d. e Capllonch, P. (2008). Nuevas localidades de la lechucita canela (Aegolius harrisii dabbenei) (Strigidae) para la Argentina. Nuestras Aves, 53:45-47.

Cade, T.J. (1982). Falcons of the world. Cornell University Press, Ithaca, NY.

Drummond, G.; Machado, A. B. M.; Martins, C. S.; Mendonça, M. P. e Stehann, J. P. (2008). Listas das Espécies da Flora e da Fauna Ameaçadas de Extinção do Estado de Minas Gerais. Fundação Biodiversitas, Belo Horizonte.
Girão, W. & Albano, C. (2010). Sinopse da história, taxonomia, distribuição e biologia do caboré Aegolius harrisii (Cassin, 1849). Revista Brasileira de Ornitologia, 18 (2):102-109.

ICMBio (2008). Plano de ação nacional para a conservação de aves de rapina. Brasília: Coordenação Geral de Espécies Ameaçadas. 136 p.

König, W. & Becking. (1999). Owls: A Guide to the Owls of the World. Yale University Press.

Marques, A. A. B. et al . (2002). Lista de Referência da Fauna Ameaçada de Extinção no Rio Grande do Sul. Decreto no 41.672, de 11 junho de 2002. Porto Alegre: FZB/MCT–PUCRS/PANGEA, 52p. (Publicações Avulsas FZB, 11).

Mikich, S.B. & R.S. Bérnils. (2004) Livro vermelho da fauna ameaçada no estado Paraná. Curitiba: Instituto Ambiental do Paraná.

Paraná, Instituto Ambiental do. (2009) Planos de Conservação para Espécies de Aves Ameaçadas no Paraná. IAP/Projeto Paraná Biodiversidade, 279 p.

Rebelato, M. M.; Cunha, G. G.; Machado, R. F.; Hartmann, P. A. (2010). Novo registro do caburé-acanelado (Aegolius harrisii) no Bioma Pampa, sul do Brasil. Biotemas, 24 (1): 105-107.

Ridgely, R.S., and P.J. Greenfield. (2001) The birds of Ecuador: status, distribution, and taxonomy. Comstock Publishing Associates, Ithaca, NY.

Silveira, L.F.; et al. (2009). Aves. In: Bressan, P.M.; Kierulff, M.C. & Sugieda, A.M. (Orgs), Fauna ameaçada de extinção no Estado de São Paulo: Vertebrados. São Paulo, Fundação Parque Zoológico de São Paulo e Secretaria do Meio Ambiente.

Simon, J. E. et al. (2007) As aves ameaçadas de extinção no Estado do Espírito Santo. In: Mendes, S.L.; Passamani, M. (Org.). Livro vermelho das espécies da fauna ameaçada de extinção no Estado do Espírito Santo. Vitória, ES: Ipema, 2007b. p. 47-64.

Thorstrom, R. 2002. Comments on the first nesting record of the nest of a Slaty-backed Forest-falcon (Micrastur mirandollei) in the Ecuadorian Amazon. J. Raptor Res. 36(4): 335-336.

Whittaker, A. (2004) Noteworthy ornithological records from Rondônia, Brazil, including a first country record, comments on austral migration, life history, taxonomy and distribution, with relevant data from neighbouring states, and a first record for Bolivia. Bulletin of the British Ornithologists' Club 124:239-271.

 


Citação recomendada:

Menq, W. (2013) Aves de rapina "fantasmas" - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/ARB2_2.pdf > Acesso em: .



 



 
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