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Urubus são aves de rapina?



Urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura)
Foto: Willian Menq

Alguns autores acreditam que não, enquanto outros o considera um autêntico rapinante. Veja neste artigo alguns argumentos que colocam os urubus no grupo das aves de rapina.

Texto de: Willian Menq
Publicado em: 15 de maio de 2016
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Os urubus (grupo composto por sete espécies) ocorrem exclusivamente no continente americano, muitas vezes são chamados erroneamente de abutres do Novo Mundo. Os urubus são aves pertencentes à ordem Cathartiformes, diferente dos abutres do Velho Mundo, pertencentes à ordem Accipitriformes (Ferguson-Lees & Christie 2001). Devido ao fato de serem semelhantes aos abutres do Velho Mundo, e ao fato de terem sido classificados no passado junto a ordem dos gaviões, foram desde os primórdios inclusos entre as aves de rapina.

A inclusão dos urubus no grupo das aves de rapina sempre foi motivo de muita discussão entre os pesquisadores e birdwatchers. Como sabemos, o termo "aves de rapina" agrupa aves de várias famílias de linhagens evolutivas distintas, que compartilham determinadas características e adaptações para a caça ativa, como o bico curvo e afiado, garras fortes, voo poderoso, além de uma excelente visão e audição. Justamente por não serem caçadores e não apresentarem algumas dessas características (bicos e garras fortes), alguns autores simplesmente não consideram os urubus no grupo das rapinas. Sick (1997), por exemplo, em seu livro Ornitologia Brasileira, deixa bem claro que considera os urubus um grupo a parte das ditas aves de rapina (gaviões e falcões).

A classificação científica dos urubus também é motivo de discussão entre os especialistas. Eles já foram colocados como parentes dos falcões gaviões, em uma família dentro da ordem Falconiformes (Peters et al. 1979; , Livezey & Zusi 2007); e também já foram classificados como cegonhas mais especializadas, junto à ordem Ciconiiformes (Sibley & Monroe 1990). No entanto, essas classificações têm sido fortemente contestadas por outros pesquisadores (Cracraft et al. 2004; Livezey & Zusi 2007; Hackett et al. 2008). Análises mais recentes, baseadas no compartilhamento de genes e características morfológicas entre as espécies indicam que os urubus formam um grupo singular, com ordem à parte (Cathartiformes), cujos parentes mais próximos seriam as águias e os gaviões (Accipitriformes) (Hackett et al. 2008; Brito 2008).



Relação de parentesco entre os urubus (Cathartiformes) em relação as águias, abutres e gaviões (Accipitriformes). Adaptado de Hackett et al. 2008.


Classificando os urubus nas aves de rapina

Realmente, os urubus não possuem todas as características do grupo. Suas garras não funcionam como ferramentas para segurar e matar suas presas, como nos accipitrídeos. Alguns urubus até caçam (ou tentam caçar) ocasionalmente (Severo-Neto et al. 2014). O bico também não é muito forte e afiado, a maioria das espécies tem muita dificuldade em abrir ou rasgar carcaças, usando orifícios dos cadáveres ou partes já abertas para retirada de pedaços e vísceras. Por outro lado, os urubus apresentam várias outras características de aves de rapina, possuem uma excelente visão (enxergando carcaças em solo a grandes distâncias), ótima audição, boa capacidade de voo (planam alto, aproveitando térmicas, por vezes compartilhando com gaviões e águias), além de possuir muitas evidências genéticas que os colocam como ordem irmã dos gaviões e das águias. Todas essas características morfológicas, ecológicas, além das evidências genéticas, caracterizam os urubus como aves de rapina.

Dizer que uma espécie precisa ser uma caçadora ativa para pertencer ao grupo dos rapinantes é extremamente errado. Nem todas as aves de rapina caçam, os abutres do Velho Mundo é um bom exemplo, são autênticas aves de rapina (na mesma família das águias) especializadas no consumo de animais mortos. Até astutas caçadoras como a águia-cinzenta (Urubitinga coronata), pode ocasionalmente consumir cadáveres. Alguns rapinantes também são bastante generalistas, como o caracará (Caracara plancus), que aproveita de todas as fontes possíveis, desde frutos, invertebrados até cadáveres de animais atropelados.

Além disso, é importante mencionar que a maioria dos especialistas em rapinantes do Brasil e do mundo consideram os urubus aves de rapina. Instituições de referência com a famosa Peregrine Fund, ou a Raptor Research Foundation (responsável pelo respeitado período científico “Journal Raptor Research”) incluem os urubus nas aves de rapina.

Publicações como Raptor of the World (2001), dos autores Ferguson-Lees & Christie (uma das maiores referências sobre aves de rapina da atualidade), também classificam os urubus como aves de rapina. No Brasil, um grupo de especialistas convidados pelo ICMBio também incluíram os urubus no plano de ação para conservação das aves de rapina, elaborado em 2008.

Por fim, também considero os urubus como aves de rapina, independentemente de qual ordem ou família estiverem classificados. Acho muito positivo colocá-los no grupo dos rapinantes, dessa forma eles são inclusos em estudos específicos, levantamentos e planos de ações específicos, contribuindo com a biologia e a conservação desses adoráveis necrófagos.


Urubu-de-cabeça-amarela (Cathartes burrovianus). Foto: Willian Menq

 

Artigo relacionado:
Os urubus do Brasil

 

Referências bibliográficas

Brito, G. R. S. (2008) Análise filogenética de Cathartidae (Aves) com base em caracteres osteológicos. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo.

Cracraft, J., F.K. Barker, M. Braun, J. Harshman, G.J. Dyke, J. Feinstein, S. Stanley, A. Cibois, P. Schikler, P. Beresford, et al. (2004) Phylogenetic relationships among modern birds (Neornithes): toward an avian tree of life. Pp. 468-489 in J. Cracraft and M.J. Donoghue (eds.), Assembling the tree of life. Oxford University Press, Oxford, UK

Ferguson-Lees, J. & D.A. Christie (2001) Raptors of the world. Houghton Mifflin, Boston, MA.

Hackett, S.J., R.T. Kimball, S. Reddy, R.C.K. Bowie, E.L. Braun, M.J. Braun, J.L. Chojnowski, W.A. Cox, K.-L. Han, J. Harshman, C.J. Huddleston, B.D. Marks, KJ.J. Miglia, W.S. Moore, F.H. Shelcon,

Livezey, B.C., & R.L. Zusi (2007) Higher-order phylogeny of modern birds (Theropoda, Aves: Neornithes) based on comparative anatomy. II. Analysis and discussion. Zoological Journal of the Linneaean Society 149:1-95.

Peters, J. L. et al., Check-list of Birds of the World, J. L. Peters et al., Eds. (Museum of Comparative Anatomy, Cambridge, MA, 1931 to 1979), vols. I to XV.

Severo-Neto, F.; Faria, S. P & Santana, D. J. (2014) Adding some poison to menu: First report of a cathartid vulture preying on a venomous snake. Herpetology Notes, v. 7:675-677.

Sibley, C.G., & B.L. Monroe, Jr. (1990) Distribution and taxonomy of birds of the world. Yale University Press, New Haven, CT.

Sick, H. (1997) Ornitologia Brasileira. Nova Fronteira, RJ.

Steadman, D.W., C.C. Witt, & T. Yuri. (2008) A phylogenetic study of birds reveals their evolutionary history. Science 320:1763-1768.

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2016) Urubus são aves de rapina? - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/ARB4_4.pdf > Acesso em: