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Biografia de Sávio Drummond
Biólogo baiano, Sávio dedicou vários anos de sua vida estudando morcegos e falcões-peregrinos

Texto de: Willian Menq
Sávio Mattos Drummond, baiano, natural de Salvador, foi simplesmente “o cara” dos falcões peregrinos (Falco peregrinus) no Brasil. Nascido em 05 de Abril de 1978 foi criado no mundo artístico-musical, passou a adolescência dividido entre duas paixões: a música e a biologia. Como biólogo, atuava nas áreas de comportamento animal, ecologia, consultoria e levantamento de biodiversidade. Apaixonado pela vida selvagem, dedicou vários anos de sua vida estudando morcegos e falcões-peregrinos, fazia monitoramento dos falcões em invernagem na Bahia no qual se tornou referência nacional graças ao seu fantástico trabalho.

Também se dedicava ao mundo musical: foi cantor, compositor, escritor e poeta. Nos anos em que cursou a faculdade de Biologia, na cidade de Vitória da Conquista, na Bahia, Sávio passou a apresentar-se em bares, teatros, festivais e congressos, cantando e acompanhando-se ora com o contrabaixo, ora com o piano. Participou de festivais de música, defendendo composições próprias, sempre arrebatando prêmios de primeiro e segundo lugares. Além disso, Sávio era um excelente fotógrafo da vida silvestre, realizava ótimos “clicks” em suas andanças no mato e fazia desenhos incríveis da bicharada, além de poemas e músicas, um homem de múltiplos talentos.

Sua relação com a biologia vinha desde os primeiros momentos de sua infância e era uma das coisas mais intensas que trazia consigo. Sávio lembra que com seus 6 anos de idade, seu principal passatempo era sair no quintal da casa durante a noite para ver os morcegos molossídeos com seu vôo agilíssimo caçando insetos, dizia que era doido para ver um daqueles morcegos de perto e pegar um em mãos, coisa de criança.


Sávio ainda pequeno segura sua réplica (que havia construido) de um morcego raposa-voadora.

Sávio adorava fotografar o mundo animal, na foto um anfíbio Hyla albomarginata

A paixão pelos falcões-peregrinos começou em 1997 muito antes de iniciar sua graduação em biologia, nessa época Sávio era um jovem estudante autodidata que amava a natureza, morava em uma rua cheia de edifícios no bairro Pituba em Salvador. Em dezembro daquele ano em um belo dia de verão Sávio observou da varanda de seu apartamento uma cena muito interessante: uma veloz ave de rapina investia com incrível agilidade contra um pombo que voava tranquilamente, aquela cena aguçou sua curiosidade e interesse, foi uma revelação que ganhou enorme destaque em sua vida: a paixão pelos falcões peregrinos! A partir deste dia passou a observar periodicamente a rotina curiosa e super interessante do falcão-peregrino que vivia no ambiente urbano de seu bairro, curioso se perguntava: O que faz uma ave ir tão distante? Quem mais tem conhecimento desse falcão além de mim? Estará esse falcão anilhado? Ele voltará no próximo verão?

Nesta época, Sávio acordava cedo para acompanhar os primeiros movimentos de caça do falcão-peregrino nos seus pontos estratégicos e ia dormir tarde para fazer a avaliação geral das observações e formular planos de estudo para os dias seguintes. Passado um ano após as primeiras observações, para sua surpresa e alegria o falcão peregrino estava de volta, era novembro de 1998, certamente o mesmo indivíduo, empoleirado sossegadamente em uma das caixas de ar condicionado, tal qual costumava fazer na migração anterior, a espera de um pobre pombo desavisado. Lá se foram mais cinco meses acompanhando os passos diários do falcão peregrino.

Suas observações foram executadas ano após ano, com anotações de todo o comportamento desta ave de rapina em migração no Brasil. Em 2000, Sávio iniciou sua graduação em ciências biológicas pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), a essa altura ele já possuía dados incríveis dos falcões-peregrinos e durante a graduação foi se aprofundando mais nos falcões, publicou alguns resumos sobre o comportamento migratório e de caça do Falco peregrinius anatum, e paralelamente estudava outra de suas paixões: os morcegos, grupo na qual foi o tema de sua monografia.


Na imagem, um falcão peregrino no alto de um edifício preste a alçar vôo. Sávio estudou este falcão por vários anos consecutivos em Salvador/BA.

Sávio desenhando no computador os moldes de padronização das faixas malares que diferenciam os peregrinos individualmente em seu estudo na Bahia.

No ano de 2005 iniciou um mestrado em Zoologia pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) onde dedicou-se exclusivamente aos falcões peregrinos (tema de sua tese: Descrição dos padrões comportamentais de caça e composição da dieta de três falcões peregrinos em período de invernagem na Bahia). A essa altura, Sávio já era um dos mais conhecidos pesquisadores de falcões peregrinos no Brasil, conhecia praticamente tudo sobre eles e tinha dados incríveis sobre o comportamento de caça e dieta da espécie, uso de poleiros, relações intra e interespecíficas, detalhes das rotas de migração, padrões de plumagem das diferentes subespécies, etc.

Dentre suas realizações profissionais, destacam-se dois trabalhos premiados: um sobre o comportamento migratório dos falcões peregrinos (premiado pela UESB durante a graduação), e um sobre abelhas Euglossini (Hymenoptera). Ele publicou o capítulo “Morcegos: folclore e mitos”, no livro “Morcegos no Brasil: Biologia, Ecologia, Sistemática e Conservação”. Sua produção inclui um artigo científico, quatro resumos de congressos, mais dois capítulos de livro, textos em jornais/revistas, etc. Além disso, Sávio teve uma importante contribuição a este site com dados inéditos e ótimas imagens, conteúdo que pode ser visto na página do falcão peregrino.

Muito atencioso e humilde, Sávio participava ativamente de alguns fóruns de discussão na internet, dava dicas valiosas sobre as técnicas de observação e identificação de falcões peregrinos, respondia todas as dúvidas expostas pelo grupo e como gostava de escrever muito suas explicações eram minuciosamente detalhadas e didáticas, adorava ouvir relatos de outros pesquisadores ou mesmo leigos sobre as observações de falcões peregrinos em diferentes regiões do Brasil.

Morreu jovem, aos 32 anos vítima de um ataque cardíaco fulminante em decorrência da violência urbana, no dia 1 de Julho de 2010 em Salvador/BA. Sávio Drummond era humildade, divertido e muito inteligente, um naturalista nato, foi uma honra ter conhecido e vivido na mesma época que essa fantástica e incrível pessoa. E que sua história inspire outros jovens biológos e amantes da natureza.

Publicado em: Dezembro de 2010

Notas sobre falcões peregrinos (Falco peregrinus, Tunstall 1771) em período de invernagem na Bahia.



Sávio no alto de um edifício fazendo as observações de falcões peregrinos. Deste local conseguiu anotar dados interessantes dos falcões além de apreciar algumas cenas fantásticas como, por exemplo, a interação de defesa territorial entre dois falcões peregrinos.

Morcegos - Ilustrações em nanquim feitas por Sávio Drummond que adorava desenhar. Esquerda, de cima pra baixo: Platyrrhinus lineatus e Histiotus velatus; Meio: Glossophaga soricina; direita, de cima para baixo: Tadarida brasiliensis e Lasiurus ega.

Templo da Magia
(Texto: Sávio Drummond)
“Hoje passei um bom tempo da minha manhã sobre o terraço de um edifício de 22 andares, situado numa área de grandes prédios, mais ou menos próximos à orla de Salvador. Estava observando, registrando, estudando, enamorando o falcão peregrino que eu acompanho... ele vem do Norte da América do Norte e migra para Salvador todo fim de outubro, permanecendo aqui até abril. 

Desde 1997 acompanho esse falcão e é uma das experiências mais interessantes de se viver em meio à rotina do bélico cotidiano humano-urbano. Ao sentar nas telhas de amianto do terraço do edifício de 22 andares, e me dar a liberdade de observar por longas horas aquele falcão peregrino, passei a vislumbrar também a liberdade que se pode ter ao olhar para a cidade lá embaixo... Minúsculos carros cruzando a avenida, buzinas ecoando entre os arranha-céus, um céu azul singular, e, por trás da penumbra das casas mais altas, um mar que nos põe a questionar porque aquela imensidão infinda nos é tão inalcançável... Um tapete azul refletindo o céu, margeando nosso olhar até onde podemos ver. 

Ao olhar para a vida, para os rios de asfalto ali embaixo, num dado instante vem a sensação de ter conseguido sair de uma máquina estranguladora, de ter conseguido rasgar uma pele falsa que nos cobre ou que construímos para nos camuflar, tal qual nossa vida antropofágica exige. 

Num instante, a sensação de sentar sobre o mais alto ponto entre os arranha-céus, onde a ritmada, mas desafinada orquestra urbana é amortecida pelo vento e (entretanto, também, infelizmente) pelo ruído estridente da máquina do elevador, nos remete a um estado que não nos é conhecido quando estamos dentro de um ônibus, de um carro, no meio do engarrafamento, pagando as contas de luz e de água, reclamando da demora na fila do banco ou do supermercado, andando e olhando para os lados para ter a garantia de que não está prestes a ser vítima de um assalto. 

Ao olhar para o voo elegante e impecável do falcão peregrino, e saber que estou olhando para um animal que atravessou mais de 12.000 km para chegar até aqui, pego-me sob um sentimento de privilégio... O via sempre em documentários da TV e admirava desde criança os voos velozes e acrobáticos daquela ave linda a perseguir seu alimento e executar um balé aéreo que deixaria a mais elegante bailarina cabisbaixa. 

De repente, não por acaso, lá estava eu, lá estávamos nós, na mesma altura, entre os arranha-céus, aproveitando sob o mesmo ar um dia dos mais limpos e ensolarados que já passei nesta cidade... Peregrino era eu, arriscando peregrinar além do meu cotidiano, esquecendo por alguns instantes quanto custa o pão de cada dia. E antes que eu me despedisse, o falcão voou embora, porque também era preciso me lembrar que a magia da vida é não esperar o imprevisível... Ainda que sentado sob o mesmo sol de todos os dias... Amanhã talvez eu volte. Mas é bom não transformar o nosso encontro em rotina, senão o nosso Templo da Magia é destruído."