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Urubus do Brasil
Verdadeiros faxineiros alados, são aves únicas e incompreendidas


Urubu-rei (Sarcoramphus papa). Foto: Willian Menq


Texto de:
Willian Menq
Publicado em: 17 de Janeiro de 2014.

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Para a maioria das pessoas, os urubus são aves feias, nojentas, sujas, que vivem em lixões e comem carniça. Essa má fama já existe a séculos, Charles Darwin, por exemplo, quando visitou a América em 1832 no Beagle, encontrou o urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) e comentou: " - São aves nojentas, que se divertem na podridão".

Porém os urubus têm uma importância fundamental na natureza, mantém o ambiente em que vivem limpo, eliminando desde carcaças até ossos, sendo responsáveis pela eliminação de 95% das carcaças de animais mortos na natureza. Com isso, eles ajudam a prevenir a propagação de doenças, eliminando bactérias que poderiam adoecer ou matar muitos animais selvagens e domésticos. Estudos demonstraram que em áreas onde não há urubus, as carcaças levam até três ou quatro vezes mais tempo para se decompor.

Os urubus são aves pertencentes a ordem Cathartiformes, diferente dos abutres do Velho Mundo, pertencentes à ordem Accipitriformes. Existem sete espécies de urubus, sendo que cinco ocorrem no Brasil: o urubu-rei (Sarcoramphus papa), urubu-da-mata (Cathartes melambrotus), urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura), urubu-de-cabeça-amarela (Cathartes burrovianus) e o urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus). De forma geral, possuem poucos predadores, sendo jiboias, sucuris e pequenos mamíferos carnívoros os mais conhecidos.

O urubu-de-cabeça-preta (C. atratus) é o mais conhecido dos urubus, e também o mais urbano. É facilmente observado planando sob o céu das cidades, pousado no alto de prédios, antenas ou vasculhando os lixões a procura de material orgânico. Também costuma associar-se aos caracarás (Caracara plancus), dividindo carcaças e até permitindo que eles retirem ectoparasitas de sua plumagem (comportamento de Alloprening). A associação é benéfica para ambos, os urubus ganham proteção e têm seus parasitas retirados da plumagem, e os caracarás conseguem alimento com mais facilidade.


Urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus).
Maringá/PR, Novembro de 2012.
Foto: Willian Menq

Urubu-de-cabeça-amarela (C. burrovianus).
Assaré/CE, Março de 2010.
Foto: Placido Andrade


Os urubus passam várias horas do dia planando, usam as correntes de ar quente para planar por horas, gastando o mínimo de energia. Eles fazem movimentos ascendentes em espiral em largos círculos e voam dezenas de quilômetros atrás de alimento, muitas vezes compartilhando o céu com gaviões e águias. Normalmente localizam os cadáveres em solo através de sua excelente visão, exceto as espécies do gênero Cathartes que possuem um olfato extremamente apurado, capaz de encontrar um pequeno cadáver a grandes distâncias. Graças ao olfato mais apurado, sempre são os primeiros a encontrar a comida e muitas vezes são seguidos pelas demais espécies.

Os urubus não passam mal quando comem carne em putrefação, seu estômago secreta um suco gástrico que neutraliza as bactérias e toxinas presentes na carne podre. Além disso, acredita-se que os anticorpos de seu sistema imunológico fazem com que eles sejam imunes a doenças que atingiriam outros animais. Outra característica marcante dessas aves é a cabeça e o pescoço nus, que dificultam o acúmulo de restos alimentares nas penas durante a alimentação.

Urubus caçam?
Os urubus não tem habilidade para caçar, suas patas não funcionam como ferramentas para agarrar e matar presas, como nos gaviões. Mesmo assim, ocasionalmente, os urubus podem capturar pequenos vertebrados (aves, roedores, lagartos, filhotes de tartarugas) normalmente capturados e abatidos com o bico. Há registros impressionantes, como o de Severo-Neto et al. (2014) que registraram no interior do Mato Grosso do Sul, um urubu-de-cabeça-amarelada (C. burrovianus) atacando, com bicadas na cabeça, uma jararaca (Bothrops moojeni).

Entre os urubus brasileiros o bico do urubu-rei (S. papa) é o mais bem preparado para rasgar a pele das carcaças, tornando-se o único a conseguir abrir partes mais difíceis da carcaça. Por essa razão, somado ao seu tamanho (maior que os outros urubus), ao frequentar uma carcaça junto a outras espécies, ele "abre" o cadáver ajudando os outros urubus, que esperam respeitosamente o urubu-rei terminar o banquete, dando a ele o aspecto de rei.

Os urubus não constroem ninhos, utilizam fendas ou plataformas em penhascos ou árvores ocas para nidificar. O urubu-de-cabeça-preta, mais urbano, pode usar varandas e sacadas de prédios para se reproduzir. O período e quantidade de ovos variam de acordo com a espécie, normalmente a postura é dois ou três ovos, sendo que o período de incubação pode ir de 40 a 60 dias.

Apesar de não possuir todas as características de uma ave de rapina e não ser classificado como tal por alguns pesquisadores, é considerado por muitos outros autores um tipo de ave de rapina necrófoga (e.g. Ferguson-Lees & Christie 2001; Frost 2011), o qual considerado adequado (artigo sobre o tema). Considerar os urubus como aves de rapina, possibilita que os mesmos sejam inclusos nos levantamentos e estudos específicos com os rapinantes, contribuindo com o conhecimento biológico e conservação desses rapinantes necrófagos.

São criaturas únicas e incompreendidas, apesar de serem abundantes poucas pessoas conhecem seus hábitos e sua importância na natureza. São animais de beleza exótica, verdadeiros "faxineiros" da natureza.



Urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura).
Jaguaripe/BA, Fevereiro de 2010.
Foto: Francisco Neto

Grupo de urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus).
Ribeirão Cascalheira/MT, Novembro de 2013.
Foto: Willian Menq


Urubu-rei (Sarcoramphus papa) às margens de um rio. Aquidauana/MS, Maio de 2009.
Foto:
Lucas Leuzinger

Urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura).
Guaraciaba do Norte/CE, Dezembro de 2013.
Foto: Willian Menq


Tem gente que só enxerga
o que se bota na mesa
só tem olhos para o belo
se esquecendo da dureza
que é limpar toda sujeira
feita pela boniteza.
Não há feio nem bonito
nesta sábia natureza.

O que seria do mundo
se não fossem os urubus
que, para os ignorantes,
são filhos do belzebu?
Saneando, comem o feio
e o belo que deu chabu.
Se beleza não põe mesa,
sua beleza é hors-concours.

“Peraí”, você está rindo?
Já lhe explico. Calma lá!
Toda criação é bela.
Você há de concordar:
cada beleza depende
de cada jeito de olhar.
Dependendo do momento,
ave mais bela não há


Trecho do livro Poesia Animal (com Sidnei Olívio), Editora UFMS/ Sterna, 2003.


Publicação relacionada:
Urubus são aves de rapina?

 

Literatura de apoio:
Antas, P. T. Z. (2005) Aves do Pantanal. RPPN: Sesc.

ICMBio (2008) Plano de ação nacional para a conservação de aves de rapina / Coordenação-Geral de Espécies Ameaçadas. Brasília: Série Espécies Ameaçadas, 5.

Ferguson-Lees, J. & D.A. Christie (2001) Raptors of the world. Houghton Mifflin, Boston, MA.

Martinez, A. G. (1996) Urubu, o novo patinho feio. Super Interessante: mundo animal. Disponível em: <http://super.abril.com.br/mundo-animal/urubu-novo-patinho-feio-436567.shtml> Acesso em janeiro de 2014.

Vasconcelos, Y. (2008) Como os urubus comem carne podre?. Mundo estranho, Ed 77. Disponível em: <http://mundoestranho.abril.com.br/materia/como-os-urubus-conseguem-comer-carne-podre>. Acesso em janeiro de 2014.

Severo-Neto, F.; Faria, S. P & Santana, D. J. (2014) Adding some poison to menu: First report of a cathartid
vulture preying on a venomous snake. Herpetology Notes, v. 7:675-677.

Sick, H. (1997) Ornitologia Brasileira. Nova Fronteira, RJ.

 

• Citação recomendada:

Menq, W. (2014) Urubus do Brasil - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/Urubus_do_brasil.pdf > Acesso em: